Ao escolher novos bispos para os EUA, Francisco não deve hesitar em incomodar algumas pessoas

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23 Julho 2019

O Papa deveria preencher as vagas das dioceses com pastores comprometidos com ele.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 22-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O meu colega Joshua McElwee publicou um artigo nessa segunda-feira, 22, listando as dioceses dos EUA que estão vagas, aquelas que têm um bispo que já passou da idade de aposentadoria compulsória de 75 anos e aqueles que logo completarão 75 anos – 22 ordinários ao todo.

Como ele observa, essas nomeações poderiam potencialmente mudar a Conferência dos Bispos dos EUA em uma nova direção. Vejamos quais nomeações são as mais importantes e por quê, e discutamos em geral os tipos de escolhas que o Papa tem pela frente.

Primeiro, um pouco de pano de fundo. Durante a maior parte da história da Igreja Católica, os bispos foram nomeados pela autoridade civil local, e deixava-se a Roma a tarefa de confirmar a nomeação. Ocasionalmente, um papa recusaria um candidato ou, ocasionalmente, um governo se recusaria a nomear alguém, deixando uma sé vaga, em um cabo de guerra entre Igreja e Estado. Somente nos Estados Papais é que o papa possuía o direito, sem questionamento, de nomear bispos. Até o nascimento dos EUA.

A separação entre Igreja e Estado da Primeira Emenda [da Constituição dos EUA] foi uma novidade para Roma. Alguns anos antes, antes da adoção da Declaração de Direitos, o papado havia abordado o governo dos EUA sobre a nomeação de um bispo para o novo país, e o governo disse que não tinha interesse no assunto. O clero dos EUA, no entanto, estava preocupado com o ainda latente anticatolicismo da nova república, e eles pediram a Roma para serem autorizados a votar entre si mesmos sobre a nomeação. Eles escolheram John Carroll, a quem Roma nomeou como o primeiro bispo de Baltimore.

Ao longo do século XIX, quando abria uma vaga, o clero da diocese compunha uma terna, uma lista de três candidatos, e então os bispos da província se reuniam e compunham a sua própria terna. Se a vaga fosse a metropolitana, um terceiro passo era acrescentado, e os outros arcebispos do país também compunham uma terna. Ela era enviada para Roma, onde a Congregação para a Propaganda Fide discutia as ternas e fazia a recomendação final ao papa.

Em 1893, o Vaticano estabeleceu uma delegação apostólica (um embaixador para a Igreja sem relações formais com o governo), e o delegado começou a consultar como ele julgava adequado e a compor a única terna que ia para Roma. No início do século XX, os EUA foram retirados da jurisdição da Propaganda Fide, e as últimas ternas foram feitas pela Congregação Consistorial, precursora da atual Congregação para os Bispos.

Como se pode ver, desde 1893, o papel do delegado apostólico – desde 1984, o núncio – tem sido extremamente importante, até mesmo dominante. No longo mandato do arcebispo Amleto Cicognani como delegado de 1933 até 1958, ele frequentemente procurava os padres do seu amigo Dom Edward Hoban, bispo de Cleveland, que se tornou uma fábrica de bispos: John Dearden, cardeal arcebispo de Detroit, John Krol, cardeal arcebispo da Filadélfia, Floyd Begin, o primeiro bispo de Oakland, Califórnia, John Treacy, bispo de La Crosse, Wisconsin, Paul Hallinan, o primeiro arcebispo de Atlanta, e John Whealon, arcebispo de Hartford, Connecticut, todos eles começaram suas carreiras como assistentes de Hoban.

Isso compensou a enorme influência do cardeal Francis Spellman, que era amigo íntimo do Papa Pio XII e compilou uma lista semelhante de postos influentes para seus assistentes.

A nomeação de Spellman para Nova York quase não ocorreu. A terna para preencher a vaga de Nova York estava sobre a mesa do Papa Pio XI quando ele morreu, na qual Dom John McNicholas, arcebispo de Cincinnati, estava em primeiro lugar. O novo papa, em vez disso, escolheu seu amigo Spellman.

Mas, na maioria das nomeações, especialmente para sés pequenas, o papa não vai conhecer os candidatos pessoalmente e, por isso, deve confiar no núncio e no conselho daqueles bispos que ele conhece e confia. Atualmente, existem mais de 2.800 ordinários em todo o mundo, e, portanto, Francisco, apesar de ter uma rede ampla e bem sintonizada para coletar informações, deve confiar nos conselhos daqueles em quem ele tem que confiar.

Olhando para a lista de aberturas agora, a mais importante é uma das dioceses com o menor número de católicos: Birmingham, Alabama, sede da EWTN. Como minha colega Heidi Schlumpf detalhou na semana passada, a relação da EWTN com o oficialismo eclesiástico é complicada. Ela se apresenta como a perspectiva católica “autêntica”, apesar de sua óbvia e repetida oposição a Francisco. Ela é tecnicamente independente de qualquer controle episcopal. Nenhum bispo deveria pensar que a censura é uma boa ideia, mas o novo bispo em Birmingham precisará se pronunciar e esclarecer, quando necessário, que a rede não fala pela Igreja.

Dom Robert Baker não fez nada para abordar o fato de que a EWTN não é um braço oficial da Igreja. O papa Francisco está ciente da importância dessa nomeação e já está solicitando sugestões com seus aliados mais confiáveis dos EUA. Eles não podem enviar um liberal puro: isso simplesmente causaria uma explosão. É preciso encontrar alguém de temperamento moderadamente conservador e com um forte compromisso com Francisco.

Dos arcebispados vagos, Atlanta representa o futuro da Igreja, St. Louis, talvez, o seu passado. Demograficamente, eles não podem construir igrejas com rapidez suficiente na Geórgia, enquanto em St. Louis a questão é por quanto tempo eles poderão manter algumas das igrejas abertas. Em meados do século XX, três dos ordinários de St. Louis foram nomeados cardeais: John Glennon, Joseph Ritter e John Carberry, mas, desde a aposentadoria deste último, em 1979, nenhum barrete vermelho foi entregue a um arcebispo em exercício. Atlanta ainda pode ver um barrete vermelho, mas o papa Francisco acha que a entrega do barrete vermelho não deve estar vinculada a uma sé determinada. Com barrete vermelho ou não, o próximo arcebispo vai supervisionar a continuidade da expansão à medida que a cidade cresce cada vez mais.

A Filadélfia é um caso difícil. Nenhuma diocese tem estado mais identificada com a maldição do clericalismo do que a Filadélfia. Se o arcebispo Charles Chaput tivesse se focado em romper com a cultura clerical, ele poderia ter sido um arcebispo muito bem-sucedido, mas, em vez disso, ele decidiu usar sua plataforma para se tornar um grande general nas guerras culturais, incluindo um desgosto não muito oculto em relação ao Papa Francisco.

No dia em que vazou a notícia sobre o “testemunho” do ex-núncio e arcebispo Carlo Maria Viganò, Chaput enviou um porta-voz para dizer à Catholic News Agency, uma organização com a qual Chaput está fortemente envolvido desde o seu início, que ele “gostou de trabalhar com o arcebispo Viganò durante o seu mandato como núncio apostólico nos EUA e achava que o seu serviço estava marcado pela integridade para com a Igreja”. Ele não conseguiu proferir uma palavra sobre a integridade do Santo Padre. É seguro assumir que a substituição de Chaput, que poderá ocorrer até o fim do ano, será um pouco mais cortês em relação ao papa.

Além de escolher um prelado pastoral para a Cidade do Amor Fraternal, será interessante ver se o papa fará uma nomeação com um legado, ou se fará uma escolha de cura, ou talvez um pouco de ambas. Um prelado me disse que esperava que mandassem alguém encarregado de “implodir a máfia clerical”. No entanto, eu suspeito que, como vimos na escolha do arcebispo Wilton Gregory para Washington, o papa Francisco desejará alguém que, embora não esteja na oposição, também não seja alguém que vá pôr lenha na fogueira. O papa Francisco está bem ciente de que o seu ministério é um ministério da unidade e que a Conferência dos Bispos dos EUA está muito dividida. Eu gostaria que ele se dispusesse a jogar perto da área, nomeando homens mais jovens que não tenham medo de enfrentar a oposição, mas ele deu ao núncio instruções claras para encontrar pastores, acima de tudo e em primeiro lugar, e até mesmo os conservadores da Filadélfia precisam de um pastor.

San Bernardino e Brooklyn certamente serão nomeações críticas. San Bernardino foi erigida como diocese apenas em 1978, desmembrada da Diocese de San Diego. Se elas fossem reunidas, seriam a segunda maior diocese do país depois de Los Angeles. Esse é o tipo de crescimento explosivo que a Igreja está vendo no sul da Califórnia. O bispo Gerald Barnes será alguém difícil de ser seguido, um bispo nos moldes do Papa Francisco muito antes de Francisco ser eleito papa.

O Brooklyn, ao contrário de muitas dioceses do Nordeste dos EUA, continua vibrante por causa de sua grande população imigrante. A diocese não é apenas grande, mas também compartilha um seminário com suas duas vizinhas, Nova York e Rockville Center, nenhuma das quais é liderada por bispos nos moldes de Francisco. É vital que o papa nomeie alguém que será uma força para equilibrar as inclinações mais conservadoras dos seus vizinhos.

Todas as nomeações serão importantes. Às vezes, uma pequena diocese como Rapid City se torna o lugar de onde grandes carreiras são lançadas: tanto Chaput quanto o cardeal de Chicago, o cardeal Blase Cupich, começaram seu ministério episcopal na minúscula Diocese de Dakota do Sul. Colorado Springs, assim como o Brooklyn, precisa de alguém para equilibrar o metropolitano mais conservador de Denver. Helena precisa de alguém que continue a liderança pastoral de Dom George Thomas, transferido para Las Vegas no ano passado. Beaumont, no Texas, precisa de um contraponto ao vizinho arquiconservador Joseph Strickland, de Tyler.

No artigo de McElwee, o professor Massimo Faggioli levantou uma questão importante, ao dizer: “Para Francisco, os bispos são muito menos ‘representantes de Roma’ e mais pastores das suas Igrejas locais. Nesse sentido, não é verdade que Francisco está criando bispos que reflitam as suas prioridades do mesmo modo que João Paulo II e Bento criaram bispos de acordo com as prioridades dos seus pontificados”. Isso é indubitavelmente verdade. Mas o Papa também precisa saber que a Igreja dos EUA precisa de uma sacudida, que o nosso país é excepcionalmente receptivo aos ataques a esse pontificado.

Sim, Francisco deve encontrar pastores, mas também não deve ter medo de incomodar algumas pessoas. A comunhão com o bispo de Roma é a marca da unidade que a Igreja dos EUA precisa ressaltar, e seus novos bispos devem refletir esse compromisso.

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