Igreja no Chile está "chocada", "perplexa" com a crise dos abusos, dizem os moradores

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19 Mai 2019

Embora esteja diminuindo há algum tempo, mais em alguns lugares do que em outros, a influência da Igreja Católica na América Latina ainda é inegável. O Chile não é exceção, especialmente considerando que a Igreja aqui esteve na linha de frente da defesa dos direitos humanos durante a ditadura de Augusto Pinochet entre 1973 e 1990.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 18-05-2019. A tradução é de Natália Froner dos Santos.

A posição da Igreja no Chile agora, no entanto, está levando uma surra histórica.

Segundo a última pesquisa do Programa Internacional de Pesquisa Social, a credibilidade da Igreja entre os chilenos está hoje em baixa histórica, passando de 51% de confiança em 1998 para 13% em outubro de 2018.

Em maio do ano passado, o Papa Francisco diagnosticou parte do problema: uma cultura de abuso sexual clerical e encobrimento.

De acordo com Joaquim Silva, leigo e decano da Faculdade de Teologia da Universidade Católica do Chile, a Igreja chilena está hoje em “choque” e não consegue superar sua “perplexidade” em relação ao diagnóstico do Papa.

"Como consequência, as mudanças necessárias, o chamado do Papa para a conversão e renovação, não tomam a forma de uma reestruturação concreta da hierarquia, a configuração eclesial e a compreensão do sacerdócio como um ministério", disse ele à Crux.

Pelo contrário, disse Silva, o choque levou a Igreja a simplesmente aprovar algumas “mudanças legais e protocolares” que, embora necessárias, não abordam o coração do problema.

"As pessoas não cometem crimes porque não sabemos o que é bom e o que é ruim, ou porque não temos um protocolo em vigor quando uma pessoa abusa de um menor", argumentou Silva. "Leva tempo para assumir a gravidade do problema do abuso sexual clerical, e não são apenas os próprios abusos – o problema da Igreja no Chile é muito mais profundo".

Entre as raízes do problema, disse Silva, está a maneira como os membros da Igreja interagem uns com os outros, a compreensão da Igreja sobre a sociedade e a relação da Igreja com o dinheiro, todos os quais, observou Silva, também são problemas da Igreja universal.

De acordo com a jornalista investigativa Mónica Gonzalez, que desempenhou um papel fundamental nas revelações dos crimes do ex-padre Fernando Karadima, a Igreja chilena está tendo dificuldade em reconhecer o papel que teve na perpetuação de uma cultura de abusos, em parte devido às suas ações em outras frentes.

Ela é co-autora do livro The Secrets of the Karadima Empire (“Os Segredos do Império Karadima” em tradução livre).

Gonzalez, que deixou a Igreja Católica quando tinha 14 anos de idade, após a morte de seu pai, mantinha um relacionamento próximo com muitos padres, incluindo Cristián Precht, que já havia sido o diretor de uma instituição chamada "Vicariato da Solidariedade".

Instituído pelo Papa Paulo VI em 1976 para impedir o sequestro e o maltrato dos cidadãos chilenos pelo governo de Pinochet, o Vicariato foi desmantelado em 1992 após a queda do ditador.

Iniciativas como o Vicariato, argumentou Gonzalez em entrevista ao Crux, tornam a decepção da sociedade com a instituição ainda maior.

Precht, assim como Karadima, foi removido do sacerdócio por Francisco no ano passado, depois que ambos foram considerados culpados por abusar sexualmente de menores, bem como por abusos de consciência e poder.

A investigação de Gonzalez, que ela fez com outros dois jornalistas, levou a evidência de Karadima usando dinheiro doado para caridade para comprar apartamentos onde ele colocou suas vítimas. Inicialmente, muitos daqueles que doaram o dinheiro se recusaram a acreditar nas alegações.

"Karadima era o padre da elite do Chile, e a maneira de chegar até eles é através de sua carteira", disse o jornalista.

Jornalista durante os anos de Pinochet, Gonzalez disse que conhecia duas coisas muito bem: o exército e a Igreja Católica, como se estivessem em lados opostos das ruas. Seu primeiro olhar sobre as alegações, ela disse, levou à conclusão de que Karadima controlava 25% da conferência dos bispos chilenos e não um pequeno número das paróquias mais populares de Santiago.

Quatro dos auxiliares sacerdotais mais próximos de Karadima foram nomeados bispos, um dos quais continua no ministério. O alvoroço causado pela transferência controversa de outro, o bispo Juan Barros, para a diocese sulista de Osorno em 2015, foi o que levou o pontífice a examinar mais de perto a Igreja chilena.

“Eu nunca deixarei de ser grata à Igreja Católica por sua coragem durante os anos de Pinochet, mas isso não muda o fato de que há um sentimento mafioso em tudo, com sacerdotes pervertidos que eram protegidos pela fundação porque se escondiam atrás de boas ações ", disse ela.

Apesar de suas frustrações com a Igreja Católica, e há muitas, Gonzalez reconhece que no final do dia, é um "mal necessário", e diz que seria muito menos mal se fosse capaz de se limpar. Ela duvida que isso aconteça, no entanto, porque, disse ela, embora haja muitos padres que não fizeram nada de errado, eles são “cúmplices” nos erros de outros.

Um padre chileno, falando à Cru, disse que a Igreja em Santiago precisa "enterrar toda uma geração de sacerdotes" antes que esteja pronta para enfrentar os danos causados por Karadima, Precht e muitos outros, incluindo o famoso padre jesuíta Renato Poblete.

“Mesmo que não necessariamente se dessem bem, eles tiveram uma influência profunda na formação de muitos padres em Santiago, que são feridos pelo que aconteceu, que foram feridos por eles e que, com o tempo, machucaram uns aos outros “, disse o padre, observando que muitos dos membros do clero hoje, já foram vítimas e agressores.

"Estou muito preocupado com o fato de que a Igreja hoje é fraca, paralisada, sem força", disse Gonzalez. “As pessoas que estão acostumadas a ter um sistema, mas órfãs, se tornam um pasto verde para populistas como Jair Bolsonaro (presidente de direita do Brasil) e os Kirchners (Nestor e Cristina, ex-presidentes da Argentina)”.

"Eu tenho muitos bons amigos que são padres, e eles estão destruídos, sem voz, porque eles não veem uma atitude por parte do Vaticano e da hierarquia local de deixar cabeças rolarem, não importa quantas," ela disse. "Se os padres se sentem abandonados, imaginem quão solitários são os fiéis."

Silva acredita que a crise pode ser parcialmente entendida como uma “ausência de Deus” na vida da Igreja: “Perdemos o nosso centro, que deve ser Jesus e o Evangelho. Quando isso acaba, o que nos move?”

Ele disse que ouviu membros da hierarquia chilena dizerem que Francisco “exagerou” quando acusou a igreja local de ter uma cultura de acobertamento, mas ele está inclinado a concordar com o pontífice argentino.

"Isso mostra uma incapacidade de diagnosticar a crise", disse Silva. “Por medo, por causa do que o chamado à mudança implica para todos nós. A Igreja é clara: somos chamados a uma conversão pastoral permanente, mas onde está essa conversão?"

Nos últimos 20 anos, a Igreja Chilena perdeu a maior parte de sua credibilidade, disse Silva, e é “injusto” colocar toda a culpa na secularização e nos males do mundo moderno.

"Temos que nos apropriar de nossa existência cristã e, francamente, procurar o que precisamos mudar", disse Silva, apontando para um sínodo anunciado recentemente pela Conferência dos Bispos da Alemanha para avaliar o poder, o sacerdócio e a moralidade sexual.

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