No dia do 64º aniversário de Dall’Oglio, aprofunda-se o mistério do seu sequestro

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23 Novembro 2018

Não se tem notícias dele desde o dia 29 de julho de 2013. O mistério do seu sequestro permanece impenetrável, mas aumenta também a impressão de que os elementos que vieram à tona permitiriam pelo menos algo mais.

A reportagem é de Riccardo Cristiano, publicada em Vatican Insider, 17-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A história do Pe. Paolo Dall’Oglio, o jesuíta italiano expulso da Síria por Assad e, depois, sequestrado pelo ISIS, realmente parece resumir a tragédia do povo sírio, perdido entre um sonho, o da liberdade, e um pesadelo, o da ferocidade. No complexo trajeto que separa o sonho e o pesadelo, o caso do jesuíta romano, que escreveu Innamorato dell’Islam, credente in Gesù [Apaixonado pelo Islã, crente em Jesus] e Collera e luce [Cólera e luz], indica um caminho nunca simples, como o conflito que o engoliu.

Tentar entender o seu caso é tentar entender milhares deles, embebidos entre paixões e intrigas, cálculos e esperanças, dedicações e medos, anseios e projetos hegemônicos, crueldade e sacrifícios, ferocidade e heroísmo. O silêncio e o esquecimento, portanto, têm a força da comodidade.

O que também poderia confirmar isso é a história da sua mala, citada e vasculhada nestas horas por uma excelente investigação do jornal francês La Croix. Um amigo dele, Youssef Daas, um daqueles que o viram nas horas que antecederam o sequestro em Raqqa e que depois soaram o alarme sobre o seu desaparecimento, decidiu em 2014 fugir da sua cidade. Não devem ter sido momentos fáceis para ele, que, mesmo assim, em um contexto dramático, não se esqueceu do seu amigo, dos seus efeitos pessoais. Removeu aquilo que lhe parecia supérfluo, colocou tudo em uma bolsa e levou-a consigo, ciente do risco, na Turquia.

Os assuntos sírios nunca são simples, e os perigos múltiplos são provavelmente o motivo pelo qual Youssef confiou tudo a uma terceira pessoa, que enviou os pertences de Paolo não ao consulado mais próximo, como combinado, mas a Paris.

Na capital francesa, um dissidente sírio entregou o que recebeu à embaixada italiana. Estávamos em 2014, mas apenas no início de 2018 os pertences pessoais chegaram a quem deveriam, isto é, aos seus entes queridos, que, depois de serem informados, teriam que esperar muito tempo antes de tomar posse deles.

Isso foi sumariamente relatado e reconstruído pelo jornal católico francês, nessa ampla e aprofundada investigação, acrescentando que ali estavam todas as senhas para o seu tablet e as suas contas.

Ao Vatican Insider, relatou-se que as trocas de mãos na Turquia teriam sido duas, na verdade. Os pertences do religioso, enfim, teriam sido levados pessoalmente a Paris por uma pessoa próxima, que, depois, os teria entregue à embaixada italiana. A certeza de Youssef, salientou-se com base naquilo que foi escrito por seu filho no Raqqa Post tempos atrás, era de que esses pertences pessoais haviam sido levados ao consulado italiano em Gazantiep, o mais perto da fronteira síria.

O que aconteceu? Não parece que isso foi apurado, já que ninguém levaria em consideração ouvir os protagonistas desse caso complexo. Mas a questão da reconstrução do La Croix está no tempo gasto pela mala do Pe. Paolo Dall’Oglio para chegar da embaixada italiana em Paris aos seus verdadeiros destinatários. Muito tempo. E aqui as novas perguntas não são poucas.

Mistério impenetrável

O tempo do caso do Pe. Dall’Oglio corre muito lentamente, demasiadamente, já que nestas horas o jesuíta romano completaria 64 anos: quando ele foi sequestrado, completaria 59; está vivo? Foi morto? E por quem? E, acima de tudo, por quê?

Tudo isso permanece envolto em um mistério impenetrável, como no caso de muitíssimos sírios, como Paolo se considerava e se definia: milhares de pessoas nem vivas nem mortas, engolidas pela escuridão síria, uma escuridão que nunca acaba.

Recordar Paolo torna-se, assim, recordar uma tragédia removida, que envolve não apenas as muitíssimas, provavelmente milhares de pessoas que estão em condições semelhantes, mas também milhares de famílias que convivem com a espera, uma sutil esperança e a angústia há anos.

No entanto, em relação a Paolo, o nome e a permanência do seu provável sequestrador, Abdul Rahman al Faysal abu Faysal, emir do ISIS, foram identificados. Ele está em Raqqa, mas ninguém parece tê-lo interrogado. A força da sua tribo induziria as autoridades curdas a uma extrema cautela: na cidade, também teria havido tiroteios para libertá-lo, e agora ele estaria na sua casa, não na prisão. Um chefe do ISIS em prisão domiciliar? Mas se trata apenas do temor pela ordem pública que o mantém longe dos investigadores ou também a importância dos segredos que ele poderia, se desejasse, revelar?

Novas informações

Agora surgem outros nomes, revelados pela valiosa e documentadíssima reportagem do La Croix. Trata-se de outros expoentes do ISIS que, naquele dia, teriam estado na sede do ISIS, onde se perderam os rastros do fundador da comunidade monástica de Mar Musa.

“Ele, dirigindo-se à sede do ISIS, entrou em um ninho de cobras”, diz seu velho amigo ao jornal francês. Certamente é assim, e certamente Dall’Oglio sabia disso. Portanto, deve ter entrado lá por um valor que considerava mais importante do que sua própria vida, testemunhar a sua fé. E, em Raqqa, testemunhar a fé naquelas horas cruciais, decisivas, dramáticas, as horas que precederam a conquista da cidade por parte do ISIS, significava levar esperança, amizade para o homem, para os homens, buscar a salvação dos sequestrados, operar para evitar o pior.

O La Croix levanta a hipótese de que ele estaria levando uma mensagem da liderança curda para evitar as revoltas subsequentes. Pode ser, mas o ponto mais importante pode ser se a verdadeira mensagem não estava justamente na viagem.

Poucas semanas antes, em Beirute, de acordo com o relato do L’Orient Le Jour, durante uma conferência, o Pe. Paolo disse: “Se os cristãos apoiam o regime (de Assad) porque têm medo do islamismo, deixarão o país em massa. Foi o que aconteceu no Iraque, é o que vai acontecer na Síria, e, se não se encontrar uma solução, é o que vai acontecer também no Líbano. Os cristãos do Oriente Médio não sabem mais por que Deus os enviou a viver com os muçulmanos. Quando alguém não encontra mais uma resposta para isso, então parte, deixa o país. A resposta deles deve ser espiritual, não apenas social ou econômica”.

Testemunho de esperança

Os cristãos talvez estão retornando à Síria? Mas ele, Pe. Dall’Oglio, o homem que, de Mar Musa, tinha fascinado tantos jovens, idosos, cristãos, muçulmanos, agnósticos, ateus, peregrinos, turistas e muitos outros ainda, defendia que os mosteiros tinham muito a dizer, especialmente a um mundo que, desde os tempos dos otomanos, que também buscavam a reforma do status pessoal com as conhecidas reformas, ainda vive na divisão confessional e na proteção das comunidades por parte do Sultão ou do chefe de plantão: “Os mosteiros cristãos são a melhor prova de que não há melhor proteção do que a boa vizinhança”. Mas são os cristãos da Síria que devem escolher e acreditar no sentido da mensagem de Paolo, aquela confiada ao L’Orient Le Jour, sobretudo.

O Pe. Jacques Mourad, aleppino que trabalhou com Dall’Oglio desde o início da aventura de Mar Musa e que, como ele, foi sequestrado pelo ISIS, responde sem hesitar: “Este é o momento em que os cristãos da Síria são chamados a dar o seu testemunho. O que significa ser cristão se nos submetemos ao medo? Onde está Deus? Submeter-se ao medo é uma mensagem de desespero, não de esperança. Aquele desespero que tantos sírios sentem diante das escolhas da comunidade internacional que se esqueceu deles, que não fez a coisa certa.

Para esses sírios, nós devemos dar a nossa mensagem, que é uma mensagem de esperança, de paz, não uma mensagem desesperada. Quero dar um exemplo: quando fui prisioneiro, não foi o medo que me deu a força para resistir às pressões exercidas sobre mim (evidentemente, ele se refere às ameaças sofridas quando foi intimado a se converter). Aonde o medo teria me levado? Essa força no medo não pode existir. Então, se cedemos ao desespero, não fechamos as portas ao testemunho?”.

“Enfim – explica Mourad – quero dizer que os cristãos são chamados a ajudar o povo sírio, no caminho da esperança, com o seu compromisso com a justiça e a igualdade. Portanto, os cristãos são chamados a um testemunho baseado no Crucificado, que deu a Sua vida e perdão. Assim, somos chamados a retornar ao espírito da ‘boa nova’ dos nossos pais, dos nossos mártires. É graças ao testemunho de fé e de sangue deles que ainda estamos neste território! Quem é responsável pelo futuro dos cristãos no Oriente Médio? É claro, fugir é fácil, mas e depois? Essas palavras, para mim, são o eco do sacrifício do Pe. Paolo.”

Refugiados

Considerado por alguns como um impolítico, um sonhador, por outros como um visionário, Paolo Dall’Oglio está no centro de uma remoção que chega aos temas de fundo do nosso confronto de hoje. Ele, ainda em 2013, bem antes, portanto, do dramático influxo de refugiados em 2015, soube prever aquilo que, desde então, atormentaria o nosso debate sobre o tema dos refugiados, já que, após o seu sequestro, partiram milhões da Síria deles.

Ele disse em uma entrevista: “É uma tática infernal desencadear as provocações para colocar as comunidades umas contra as outras. Mas você não ouve os rumores desses milhões de refugiados que se preparam para chegar à Europa? Não ouve os golpes dos remos, a respiração ofegante dos fugitivos, os motores lentos dos barcos? São milhões... É o novo êxodo das Terras do Faraó, mas não há Terras Prometidas”.

Ocupar-se do seu sequestro, dos seus motivos, das suas modalidades, ocupar-se dele, assim como dos dois bispos sequestrados poucos meses antes e, também eles, engolidos ainda hoje na escuridão, apesar dos juramentos de renomados mediadores libaneses de que a libertação estava iminente, não significa esquecer milhares de outros sequestrados, dos quais não se tem notícias há anos. Significa não ter medo de se aproximar da verdade, síria e não só. Uma verdade que provavelmente, hoje, pode ser buscada não só na Síria, mas também em muitos lugares por onde os sírios, que muitas vezes conservam uma recordação indelével daquele que eles sempre chamaram de Abuna Paolo (nosso pai Paolo), se espalharam.

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