Angelo Scola e a liberdade de crer

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21 Agosto 2018

Voltou às suas humildes origens o Cardeal emérito Angelo Scola. Como depois de uma longa jornada que chega ao fim, assim um dos homens mais poderosos da Igreja prestou homenagem ao ditado evangélico que afirma que é necessário se despir das riquezas terrenas para poder bater às portas do Reino. Hoje Scola, depois de ter sido arcebispo de Milão e a um passo do trono papal (circunstância que, com muita determinação nega que tenha acontecido), vive na casa canônica da Imberido, distrito de Oggiano, não muito longe de onde nasceu, há 77 anos: “A minha cidade é Malgrate, perto de Lecco. Com meu irmão e meus pais, morávamos num apartamento muito pequeno, anexo a uma grande propriedade aristocrática. Eram minúsculas casas onde moravam uma dúzia de famílias. O contraste entre o esplendor da casa patronal e as nossas casas era evidente”. As memórias de Angelo Scola tornaram-se um livro muito franco, uma autobiografia escrita com a excelente colaboração de Luigi Geninazzi: Ho scommesso sulla liberta (Apostei na liberdade, em tradução livre) publicado pela editora Solferino).

A entrevista é de Antonio Gnoli, publicada por La Repubblica, 19-08-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Podemos realmente apostar na liberdade ou seria mais certo lutar por ela?

Liberdade é a substância da pessoa. É acompanhada por um risco para si próprio e para os outros e, portanto, sempre exige uma aposta. Portanto, é óbvio que devemos lutar pela liberdade.

Sentimo-nos livres especialmente na época da infância. Como foi a sua?

Uma vida pobre de coisas, mas rica de afetos e de amigos. Com minha família eu morava em menos de 35 metros quadrados. Mas a verdadeira casa era todo o vilarejo, do cais com os pescadores, das incursões nos pomares, do pátio da igreja e da praça. Minha infância foi uma grande escola de realismo.

Imagino tenha lhe servido em sua longa carreira espiritual. Quando sentiu pela primeira vez o desejo de abraçar a Igreja?

Recebi uma proposta de quarta série para entrar em uma ordem missionária. Eu era muito jovem e fiquei até surpreso com essa oferta. Mas quase imediatamente soou o ímpeto de ampliar o horizonte da minha existência. Todos os dias eu tinha a fé da minha mãe diante dos meus olhos: sólida e simples. Tão intimamente próxima a ponto de me fazer perceber que a vida é uma tarefa.

Tanta seriedade em uma criança, do que lhe privou?

De nada, eu tinha o essencial que para mim era tudo. Às vezes, especialmente na escola, sentia alguma marginalização. A escola média em Lecco era frequentada principalmente por filhos da burguesia.

A disparidade de posição era um problema?

Deu-me força para reagir. Foi como um desafio para a vida que canalizou positivamente minhas energias. Se hoje olho para trás vejo a presença do gosto pelo desafio e de certa dose de timidez, com uma pitada de ansiedade.

Seu pai, motorista de caminhão, queria um filho engenheiro. O senhor se matriculou no Politécnico de Milão, mas depois o abandonou. Como viveu essa desobediência com seu pai?

Não houve nada traumático, porque ficou evidente qual era o meu verdadeiro rosto, ou seja, a minha vocação. Foi, portanto, simplesmente o amadurecimento da liberdade em relação ao projeto do meu pai, e ele entendeu.

O senhor se matriculou na Cattolica. À ciência e à tecnologia preferiu a reflexão sobre o divino. Não considera que na era da secularização Deus tenha sido substituído pelo algoritmo?

É óbvio para mim que o algoritmo sempre irá ser colocado em um plano totalmente distinto de Deus. Para mim, o próprio Deus cuida do destino de cada homem e de toda a família humana. O algoritmo é um fator estatístico de extraordinária utilidade, não desprovido de sérios riscos. Mas nunca alcançará o nível último da verdade de que cada um de nós tem sede.

É possível ter sede de muitas coisas e muitas podem ser as verdades, pelo menos em um mundo como o nosso. Se o senhor não tivesse se tornado padre, o que gostaria de ter feito?

Talvez eu fosse um político, como meu irmão. Mas é apenas uma imagem solta. Pela graça de Deus estou feliz com a escolha feita.

Em sua escolha, quanto contou a presença de um mestre como Dom Giussani?

Se eu não o tivesse conhecido, provavelmente não seria quem eu sou. Ele era como um pai com um filho.

Dizem que era brusco e irascível.

Um caráter que não lhe impediu de estar disponível para dialogar com todos.

De alguma maneira, uma figura que pode ser comparada à dele foi aquela de Padre Milani. Como se em seu empenho representassem duas faces semelhantes, mas opostas, da Igreja.

Padre Milani era um educador perspicaz e corajoso com um notável número de seguidores. Padre Giussani, a quem o cardeal Biffi chamava de Dom Bosco do século XX, gerou um povo.

O senhor estudou em Friburgo com Hans Urs von Balthasar, um dos homens mais cultos do século XX. O que sua teologia lhe ensinou?

A determinação da beleza e da santidade, também para fazer teologia. Foi, sem dúvida, um espírito livre que sempre optou por ficar fora da oficialidade das honras e do poder.

Sua teologia foi a resposta católica àquela proposta por Karl Barth. Qual a sua opinião sobre este último?

Ambos moravam na Basiléia. Barth, principalmente com sua dogmática eclesiástica, representa um ponto sem retorno para todo o pensamento cristão. A ele, devemos a clara superação do racionalismo bíblico e da teologia positivista.

O que acha do seu comentário sobre a "Carta aos Romanos"?

Ele disse algumas coisas extraordinárias. Por exemplo, é fantástica a sua declaração de que todos os homens, incluindo os santos, nada mais são que ‘um grito para Deus’; ou aquela que diz que "tudo é graça". Mas a subestimação da história e da religião foi sua limitação.

Em seus anos na Universidade de Friburgo, o nome de Heidegger ainda era presente?

Eu estava na Friburgo suíça, mas o nome de Heidegger também era amplamente ouvido por lá.

Realmente, como diz Heidegger, só um Deus poderá nos salvar?

Esta afirmação dele continua sempre dramaticamente válida. O problema é quem era Deus para ele.

O que o senhor pensa de Romano Guardini que foi, se não aluno, um leitor profundo de Heidegger?

Ele é um dos grandes pensadores cristãos de todos os tempos. Sua atualidade profética mostra isso. A concentração do cristianismo em Jesus Cristo, o Senhor; a sua tese sobre a oposição polar; o juízo sobre o moderno; a concepção de poder; a urgência de que a Igreja ‘renasça das almas’: são elementos decisivos que podem nos ajudar a atravessar as dificuldades do nosso tempo.

Em seus anos de universidade, o senhor ficou gravemente doente, a ponto de ter que interromper seus estudos por cerca de um ano. A doença é também uma maneira de testar a fé?

É sim, com toda a evidência. Não suporto a fácil mística da dor. No tempo em que eu fiquei doente, me marcou uma passagem da Imitação de Cristo: ‘A doença pode fazer alguém perder a fé'.

O que são fraqueza e obediência?

Fraqueza é a expressão da finitude humana, da qual Jesus quis fazer experiência ao subir na cruz. E assim ele a transfigurou, tornando-a gloriosa. A obediência, quando se descobre sua conveniência, é uma companheira insubstituível no caminho da vida.

No caminho da vida, conheceu em determinado momento a psicanálise. Foi-lhe sugerido por Giacomo Contri, um dos maiores especialistas em Lacan, entrar em contato com um analista lacaniano para curar seu esgotamento físico.

Aceitei a sugestão e decidi fazer análise com um lacaniano bastante experiente, Louis Beirnaert, um jesuíta alsaciano; ao mesmo tempo, assisti a algumas sessões no seminário de Lacan, em Paris.

Que impressão teve? Quero dizer sobre Lacan, sobre a proverbial obscuridade de suas obras, que geralmente divide entre aqueles que o consideram um gênio e quem o julga um charlatão.

Quem considera Lacan um charlatão é alguém que não quer enfrentar a dificuldade de lê-lo e, no fundo, tem medo de conhecer um pouco mais sobre si mesmo.

O que o senhor acha do seu catolicismo, do seu amor por uma Igreja que tenha sido capaz de expressar a estética do barroco?

A relação de Lacan com a religião, especialmente com o catolicismo, não pode ser separada de sua família e da intensa relação com seu irmão mais novo beneditino. Chamou-me a atenção que, em seu livro O Triunfo da Religião chegasse a afirmar que a religião levaria a melhor sobre psicanálise e a ciência, porque a religião é inafundável, especialmente aquela verdadeira, para Lacan aquela romana.

Esse hipotético triunfo da religião contrasta com a disseminação do sofrimento e do mal. O senhor não acha que, em vez de triunfo, deveria ser tomada em consideração a ideia de que Deus tenha virado as costas? Não é por acaso que existe uma teologia que fala do "Deus que retrocede".

Não é Deus que retrocede, somos nós homens que lhe voltamos às costas. A dor e morte podem ser apenas compartilhadas, não explicadas. Os familiares, os amigos, os homens da cura são chamados para acompanhar o moribundo que desliza para os braços de Deus.

Dizendo que a dor é inexplicável, o que entende dizer?

Penso no Evangelho onde não se encontra uma teoria da dor, mas apenas a afirmação surpreendentes que encontramos no Sermão da Montanha: ‘Bem-aventurados aqueles que sofrem ...’. Jesus não nos ofereceu explicações ou justificativas. Ele enfrentou o sofrimento, assumindo-o sobre si mesmo. É por isso que a única resposta possível ao mistério da dor é uma presença.

O senhor teve a oportunidade de conhecer bem os últimos pontificados: de Paulo VI até Francisco. E, mais do que a uma evolução, assistimos a rupturas entre um papa e outro. Considera que hoje seja proibitiva a ação da Igreja sobre um mundo que parece determinado a ir em direção totalmente contrária?

Eu prefiro a palavra ‘descontinuidade’ no lugar de ‘ruptura’. Não são equivalentes. A descontinuidade tem em si a palavra ‘continuidade’. A reforma da Igreja e seu caminho na história sempre exigem descontinuidade na continuidade. Os diferentes estilos, especialmente daqueles que lideram a Igreja, são o espaço que o Espírito usa para agir.

Foi um peso para o senhor, ou considera que foi de alguma forma uma limitação, ser identificado como uma expressão fundamental e orgânica de Comunhão e Libertação?

Certamente não. Também porque sempre respeitei o que me disse padre Giussani em uma conversa logo após sua nomeação como bispo de Grosseto, ‘Agora você faz o seu e nós fazemos o nosso’.

No Conclave que indicou Bergoglio, sua eleição para papa era dada como certa. Considera infundada ou falsa aquela notícia que os jornais divulgaram? Além disso: que papa teria sido e com que diferenças de estilo comparado a Francisco?

Permita-me dizer que esta última pergunta é inoportuna? Respondo-lhe, entretanto, que alguns indícios poderiam ser tirados pelo caminho descrito no livro.

Mais do que um indício existe uma sua afirmação: "Eu nunca acreditei na possibilidade de me tornar papa ... Mas devo admitir que, com base no que escreveram os jornais, sofri certa marginalização. Após o Conclave fui considerado o adversário que perdeu o desafio com Bergoglio, o cardeal nostálgico dos papas anteriores, o homem do passado".

E tudo isso, obviamente, não me agradou.

Essa marginalização a que aludiu se transformou em algo mais. Hoje Angelo Scola, personagem de grande presença pública, voltou ao seu próprio mundo privado. Na casa canônica de Imberido, às suas raízes. O que significa redescobrir uma meditação mais apartada?

Estou feliz por não viver mais sob os holofotes, mas de poder ser padre. Na minha idade viver em uma dimensão apartada significa pedir a graça que o desejo de ver a face de Deus possa vencer a sombria preocupação da morte.

O rosto de Deus é também aquele de Cristo, que o senhor enfrenta como experiência da contemporaneidade. Mas não considera que justamente o presente esteja sufocando a contemporaneidade?

Se hoje o cristianismo é menos incidente, é porque perdeu seu aguilhão. E seu aguilhão, como dizia Kierkegaard, é a contemporaneidade. Cristo só pode me salvar se estiver presente para mim. Um juízo sobre o presente me leva a dizer que não importa o quão árdua possa ser, não vai conseguir parar a oferta eucarística de Jesus para a liberdade de cada homem.

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