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10 Abril 2018

Há um ano, tive a sorte de conhecer os pais de uma criança trans. Não foi um encontro fortuito. Foi uma conversa que busquei após me inteirar de que um colégio católico havia aceitado que a criança de apenas sete anos vivesse com liberdade sua decisão.

O depoimento é de Matías Carrasco Ruiz-Tagle, publicado por Reflexión y Liberación, 09-04-2018. A tradução é do Cepat.

Após conseguir os nomes de seus pais, entrei em contato com eles e generosamente me convidaram a sua casa para escutar, de primeira fonte, sua história. Eram pessoas normais. Um casal comum e corrente, católicos como eu, simples e acostumados a uma vida tradicional. Não eram ativistas e menos portadores da ideologia de gênero. Eram, ao contrário, pessoas centradas, tranquilas, que só queriam dar uma vida feliz a sua pequena filha. Notava-se o rastro de dor e a angústia, mas também um amor imenso frente ao que para eles era um mistério.

Não só saí emocionado desse afortunado encontro, como também com a ideia de que poderia ter tocado a mim. A reunião, íntima e comovedora, mudou minha visão, aproximou-me das fronteiras de um mundo distinto e me permitiu entender que a vida, queiramos ou não, tem mais labirintos que o que insistentemente chamamos “normal” ou “natural”. Essa noite não dormi.

É por isso que quando escuto as desafortunadas palavras do cardeal Ricardo Ezzati, penso que aqueles que guiam os passos de nossa igreja precisam se dispor a conhecer. Estou certo que o Bispo não quis prejudicar. Contudo, estou convencido que por trás de suas palavras existe desconhecimento do que habita na alma, no fundo mais distante daqueles que sofrem desta condição. Do contrário, não teria dito o que disse.

Nas últimas décadas, a Igreja chilena preferiu parar a história, entrincheirar-se e defender um legado de mais de 2.000 anos. E uma vez levantado o forte e os escudos, a única coisa que veem à frente são inimigos, confabulações e ideologias que nem sempre resultam ser tais. E ao passar, sem querer, vão provocando estrago. A alternativa seria destruir as muralhas, baixar as pontes e decidir se envolver no mundo de hoje. Sem o medo de ter que defender um tesouro que ninguém deseja lhes roubar. Assim como age um verdadeiro pastor: entrar no meio do rebanho. Não para caçar ou tosquiar suas ovelhas, mas só para conhecê-las e se impregnar de seu cheiro.

Com isto estou dizendo que os bispos devem concordar com a lei de identidade de gênero que tramita no Congresso? É claro que não. Eles e a Igreja Católica são livres para pensar o que quiserem. Estão em seu legítimo direito. Contudo, se em seus ombros carregam a tarefa de orientar milhões de fiéis com a mensagem de Jesus, um homem justo, misericordioso e caridoso, teriam que, ao menos, descer da torre e submergir em águas que por muito desconhecidas que lhes pareçam, podem oferecer a eles e a outros uma vida nova.

Não é só Ezzati que, ao meu ver, errou o caminho. São nossos líderes eclesiásticos e boa parte dos leigos que, muitas vezes, quiseram ensinar um Deus imóvel, distante, frio e à margem da história. Não como a esse que me mostraram: humano, amigo, bom, acolhedor e encharcado do sangue das feridas mais profundas de nosso mundo. Nisso acredito e, espero, continuar acreditando.

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