O patinador gay, sem filtros, anti-Trump e estrela dos Jogos Olímpicos de Inverno

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15 Fevereiro 2018

Por que Adam Rippon (Pensilvânia, 1989) se converteu na grande estrela dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul? Ele levará para casa uma medalha de bronze como parte da equipe de patinação artística norte-americana, sim, mas muitos medalhistas (incluindo seus colegas de equipe) só apareceram nas páginas esportivas. Rippon, no entanto, excede, e muito, o esportivo.

A reportagem é de Guillermo Alonso, publicada por El País, 14-02-2018.

Não por ser o primeiro esportista olímpico gay (com certeza eles existem desde Atenas, no século VIII a.C.), mas sim porque trata-se do primeiro atleta abertamente homossexual que representa os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Inverno. E que tem, além disso, algo imprescindível hoje para transgredir a fama apenas esportiva e converter-se em um fenômeno: lábia, carisma e espírito contestador.

Sua imagem também se construiu em cima de uma história cheia de reveses que começa, como a maioria dos relatos de protagonistas gays, com o bullying de seus colegas de classe. Posteriormente, em 2010 e 2014 (quando tinha a idade ideal para um esportista de seu biotipo) não se classificou para os Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver e Sochi, respectivamente. Em 2013, mudou-se de Pensilvânia para a Califórnia, onde andava tão mal financeiramente que gastou seu pouco dinheiro para pagar a academia e assim poder seguir treinando, mas tinha que roubar as maçãs que o centro esportivo oferecia a seus alunos.

No entanto, Rippon sabe ser bem humorado. O atleta não só é um gay desbocado que usa trajes elegantes (algo chamativo em tempos nos quais se aceita a orientação sexual, mas a plumofobia, termo espanhol que se refere ao ataque contra aqueles que possuem trejeitos e se vestem com roupas "femininas", é um problema inclusive dentro da comunidade), senão que usou seus obstáculos para fazer piadas com eles. Já se sabe, o humor segue ao lado da tragédia. Tudo isso impulsionou sua conta no Twitter (com mais 230 mil seguidores, entre eles Barack Obama), que mistura mensagens de inspiração, fortes opiniões políticas e tweets cheios de humor.

Lá se lê, por exemplo: "Há pouco me perguntaram em uma entrevista como era ser um atleta gay. Respondi que é exatamente igual a ser um atleta heterossexual. Muito trabalho duro, mas normalmente o faço com as sobrancelhas mais bonitas".

A atriz Reese Witherspoon, ganhadora do Oscar, foi uma das celebridades de Hollywood que o elevou ao estrelato. "Razão número um para ver os Jogos Olímpicos de Inverno 2018: ADAM RIPPON", tuitou no último 8 de fevereiro. Mas sua fama para a imprensa começou um mês antes, em janeiro. E essa é talvez a história mais interessante do jovem Rippon: seu confronto com o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence.

Quando Rippon se inteirou de que Mike Pence, o vice de Donald Trump, ia liderar a delegação norte-americana nos Jogos Olímpicos de Inverno celebrados na Coreia do Sul, decidiu não ir ao habitual encontro que há entre esportistas e delegados. Seu primeiro ataque foi em uma entrevista que o diário USA Today publicou no dia 17 de janeiro. "Se refere a Mike Pence, o mesmo Mike Pence que financiou terapias de conversão para gays? Passo". Também acrescentou: "Pessoalmente não tenho nada a dizer para Mike Pence. Se me derem a oportunidade de falar após as Olimpíadas, prefiro fazer com pessoas cujas vidas foram afetadas pela legislação que ele levou a cabo".

Mike Pence (que se define como cristão, conservador e republicano) tem um longo histórico de ataques contra a comunidade LGTBQI. Entre outras coisas, opôs-se à legalização do casamento gay, declarou que ser gay ou lésbica é "uma escolha", lutou para que os grupos que ajudam as vítimas da AIDS não recebam ajudas públicas, foi contra uma lei que impede a discriminação de pessoas LGTBQI no local de trabalho, anulou a lei que permitia a mulheres e homens transexuais utilizar o banheiro em que se sentissem mais cômodos nos edifícios públicos e, sim, efetivamente, pediu em sua campanha do ano 2000 que os fundos públicos se destinassem às terapias de reconversão de gays e lésbicas.

Uma prática que deixou autênticas histórias de terror que incluem oração, choques elétricos e algo chamado "treinamento de comportamento de gênero". Rippon ignorou estes comentários e anunciou que boicotará a reunião dos medalhistas com Pence e Trump na Casa Branca. Algo que já foi denunciado por Donald Trump Jr, filho do presidente. Em um tweet que cita uma entrevista de Rippon cujo título é "Não quero que minha experiência nos Jogos Olímpicos se concentre em Mike Pence", o filho do presidente respondeu: "É sério? Então talvez não deveria ter passado as últimas semanas falando dele. Eu não ouvi ele te mencionar nem uma vez".

Mas Trump Jr. se equivoca. Pence tentou sim lavar sua imagem dirigindo-se diretamente a Rippon em um tweet. As letras maiúsculas são suas: "Quero que saiba que estamos aqui PARA VOCÊ. Não deixe que as notícias falsas te distraiam. Estou orgulhoso de você e de TODOS OS NOSSOS GRANDES atletas e minha única esperança para você e para todo o time dos EUA é trazer o ouro para casa. Vamos!".

Pode ser que Rippon seja velho para ser chamado de promessa do esporte (tem 28 anos), mas é, sem dúvida, uma promessa para a esfera do entretenimento e também para um futuro mais igualitário. Ao menos, para os que veem em seu comportamento atrevido um sinal de que se abrem fronteiras no cristalizado mundo do alto rendimento esportivo.

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