“O perdão dá esperança. Sem perdão não se edifica a Igreja”, afirma Francisco

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05 Junho 2017

Bela meditação do Papa Francisco sobre o perdão na Missa de Pentecostes, celebrada na manhã do domingo na Praça de São Pedro. Perdão que é fruto do coração novo que o povo novo de Deus recebe por obra do dom do Espírito Santo, disse o Pontífice. Que é fiador, também, da verdadeira “unidade na diferença” – não da diversidade reconciliada ou da simples uniformidade – que a Igreja há de viver, cujo “aniversário” se celebra hoje.

A reportagem é de Cameron Doody e publicada por Religión Digital, 04-06-2017. A tradução é de André Langer.

Uma irmã de língua espanhola encarrega-se de fazer a primeira leitura da missa, tirada dos Atos dos Apóstolos (2, 1-11). “Todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem”. Um coroinha com óculos de sol reza o Salmo 103, cuja antífona é “Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra”.

Uma jovem, com mantilha, começa a segunda leitura. “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”, diz o texto de 1 Coríntios. Ao final da leitura dá-se lugar às estrofes da sequência do dia, o Veni Sancte Spiritus. “Entra até o fundo da alma, divina luz, e enriquece-nos”.

E agora o centro da Liturgia da Palavra, o Evangelho do dia: João 20, 19-23. Uma música celestial acompanha o diácono ao púlpito: “Como o Pai me enviou, assim também eu envio vocês”. Da perícope de hoje se depreende que “...soprou sobre eles e disse: ‘Recebam o Espírito Santo. Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados”.

Na sequência, o Papa começa a sua homilia recordando que hoje se encerra o Ciclo Pascal, o tempo em que o Espírito Santo está com a Igreja de forma especial.

O Espírito é, com efeito, “o Dom pascal por excelência”, afirma Francisco: “É o Espírito criador, que não cessa de realizar coisas novas”. Coisas novas como o povo novo, formado pelos cristãos reunidos no primeiro Pentecostes. “A cada um o Espírito dá um dom e a todos reúne na unidade e, desta maneira, molda um povo novo, diversificado e unido: a Igreja universal”.

Mas, a unidade pela qual o Espírito é responsável não é uma unidade qualquer, matiza o Papa: “a verdadeira unidade, aquela conforme Deus, que não é uniformidade, mas unidade na diferença”. E esta “verdadeira unidade”, adverte Francisco, não se alcança buscando nem a diversidade sem a unidade, nem a unidade sem a diversidade: ambos os dons devem interpenetrar-se um no outro.

A “unidade na diferença”, que é a missão da Igreja, não é a de “grupos e partidos”, segue advertindo Francisco, nem a de “posições excludentes” ou “particularismos”. Seus defensores não são os “guardiões inflexíveis do passado” nem tampouco os “vanguardistas do futuro”, mas os “filhos humildes e agradecidos da Igreja”.

“A nossa oração ao Espírito Santo consiste, pois”, reflete o Papa, “em pedir a graça de aceitar sua unidade, um olhar que abraça e ama, independentemente das preferências pessoais”. Devemos “trabalhar pela unidade entre todos”, “para desterrar as murmurações que semeiam cizânia e as invejas que envenenam”, porque Deus nos chama para sermos “homens e mulheres de comunhão”.

Mas, se o Espírito nos constitui como um “povo novo”, dá também a todos os cristãos um “coração novo”, explica o Papa: um coração novo, fruto do “Espírito de perdão”.

E este perdão, segundo o Papa, é nada menos que “o começo da Igreja”. O perdão é “a cola que nos mantêm unidos, o cimento que une os tijolos da casa”. “O perdão é o dom por excelência, é o amor maior, que nos mantém unidos não obstante tudo, que impede de soçobrar, que reforça e fortalece”, prossegue o Papa em uma bela meditação.

Mas, para que serve essa “cola”, esse “amor”, que é o perdão? O Papa responde: “O perdão liberta o coração e permite-lhe recomeçar: o perdão dá esperança. Sem perdão não se edifica a Igreja”.

Deixando-nos guiar por esse Espírito de perdão e seus caminhos de amor, renovação, fortalecimento e harmonia, nos livramos de nos meter em becos sem saída, disse Francisco: os juízos apressados, a soberba e a tentação de nos sentirmos autossuficientes, as murmurações e as críticas aos outros. Só há um caminho que o Espírito convida a percorrer, e esse é o caminho do “duplo sentido do perdão oferecido e recebido, da misericórdia divina que se faz amor ao próximo, da caridade”.

“Peçamos a graça de tornar, renovando-nos com o perdão e corrigindo-nos, o rosto de nossa Mãe Igreja seja cada vez mais belo”, encerra sua homilia o Papa Francisco. “Só então poderemos corrigir os outros na caridade”.

Texto completo da homilia do Papa Francisco na Missa de Pentecostes

Chega hoje ao seu termo o Tempo da Páscoa, desde a Ressurreição de Jesus até ao Pentecostes: cinquenta dias caracterizados de modo especial pela presença do Espírito Santo. De fato, o Dom pascal por excelência é Ele: o Espírito criador, que não cessa de realizar coisas novas. As Leituras de hoje mostram-nos duas novidades: na primeira, o Espírito faz dos discípulos um povo novo; no Evangelho, cria nos discípulos um coração novo.

Um povo novo. No dia de Pentecostes o Espírito desceu do céu em «línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas» (At 2, 3-4). Com estas palavras, é descrita a ação do Espírito: primeiro, pousa sobre cada um e, depois, põe a todos em comunicação. A cada um dá um dom e reúne a todos na unidade. Por outras palavras, o mesmo Espírito cria a diversidade e a unidade e, assim, molda um povo novo, diversificado e unido: a Igreja universal. Em primeiro lugar, com fantasia e imprevisibilidade, cria a diversidade; com efeito, em cada época, faz florescer carismas novos e variados. Depois, o mesmo Espírito realiza a unidade: liga, reúne, recompõe a harmonia. «Com a sua presença e ação, congrega na unidade espíritos que, entre si, são distintos e separados» (Cirilo de Alexandria, Comentário ao Evangelho de João, XI, 11). E desta forma temos a unidade verdadeira, a unidade segundo Deus, que não é uniformidade, mas unidade na diferença.

Para se conseguir isso, ajuda-nos o evitar duas tentações frequentes. A primeira é procurar a diversidade sem a unidade. Sucede quando se quer distinguir, quando se formam coligações e partidos, quando se obstina em posições excludentes, quando se fecha nos próprios particularismos, porventura considerando-se os melhores ou aqueles que têm sempre razão. Desta maneira escolhe-se a parte, não o todo, pertencer primeiro a isto ou àquilo e só depois à Igreja; tornam-se «adeptos» em vez de irmãos e irmãs no mesmo Espírito; cristãos «de direita ou de esquerda» antes de o ser de Jesus; inflexíveis guardiões do passado ou vanguardistas do futuro em vez de filhos humildes e agradecidos da Igreja. Assim, temos a diversidade sem a unidade. Por sua vez, a tentação oposta é procurar a unidade sem a diversidade. Mas, deste modo, a unidade torna-se uniformidade, obrigação de fazer tudo juntos e tudo igual, de pensar todos sempre do mesmo modo. Assim, a unidade acaba por ser homologação, e já não há liberdade. Ora, como diz São Paulo, «onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2 Cor 3, 17).

Então a nossa oração ao Espírito Santo é pedir a graça de acolhermos a sua unidade, um olhar que, independentemente das preferências pessoais, abraça e ama a sua Igreja, a nossa Igreja; pedir a graça de nos preocuparmos com a unidade entre todos, de anular as murmurações que semeiam cizânia e as invejas que envenenam, porque ser homens e mulheres de Igreja significa ser homens e mulheres de comunhão; é pedir também um coração que sinta a Igreja como nossa Mãe e nossa casa: a casa acolhedora e aberta, onde se partilha a alegria multiforme do Espírito Santo.

E passemos agora à segunda novidade: um coração novo. Quando Jesus ressuscitado aparece pela primeira vez aos seus, diz-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados» (Jo 20, 22-23). Jesus não condenou os seus, que O abandonaram e renegaram durante a Paixão, mas dá-lhes o Espírito do perdão. O Espírito é o primeiro dom do Ressuscitado, tendo sido dado, antes de mais nada, para perdoar os pecados. Eis o início da Igreja, eis a cola que nos mantém unidos, o cimento que une os tijolos da casa: o perdão. Com efeito, o perdão é o dom elevado à potência infinita, é o amor maior, aquele que mantém unido não obstante tudo, que impede de soçobrar, que reforça e fortalece. O perdão liberta o coração e permite recomeçar: o perdão dá esperança; sem perdão, não se edifica a Igreja.

O Espírito do perdão, que tudo resolve na concórdia, impele-nos a recusar outros caminhos: os caminhos apressados de quem julga, os caminhos sem saída de quem fecha todas as portas, os caminhos de sentido único de quem critica os outros. Ao contrário, o Espírito exorta-nos a percorrer o caminho com duplo sentido do perdão recebido e dado, da misericórdia divina que se faz amor ao próximo, da caridade como «único critério segundo o qual tudo deve ser feito ou deixado de fazer, alterado ou não» (Isaac da Estrela, Discurso 31). Peçamos a graça de tornar o rosto da nossa Mãe Igreja cada vez mais belo, renovando-nos com o perdão e corrigindo-nos a nós mesmos: só então poderemos corrigir os outros na caridade.

Peçamos ao Espírito Santo, fogo de amor que arde na Igreja e dentro de nós, embora muitas vezes o cubramos com a cinza das nossas culpas: «Espírito de Deus, Senhor que estais no meu coração e no coração da Igreja, Vós que fazeis avançar a Igreja, moldando-a na diversidade, vinde! Precisamos de Vós, como de água, para viver: continuai a descer sobre nós e ensinai-nos a unidade, renovai os nossos corações e ensinai-nos a amar como Vós nos amais, a perdoar como Vós nos perdoais. Amém».

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