O jesuíta Lyonnet, caçador de talentos da Bíblia

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10 Junho 2016

Um mestre da "exegese paulina", particularmente das Cartas aos Romanos e aos Gálatas; um pioneiro do "método histórico crítico" na Sagrada Escritura; um estudioso de porte, capaz de "fazer síntese entre os saberes da Bíblia". Mas também o hábil jesuíta francês que, em 1966, dentro dos muros do prestigiado Pontifício Instituto Bíblico de Roma, na sua qualidade de renomado professor e palestrante, apresentou a tese de doutorado do jovem e já promissor aluno de exegese, Pe. Carlo Maria Martini: "O problema da recensionalidade do código B à luz do papiro Bodmer".

A reportagem é de  Filippo Rizzi, publicada no jornal Avvenire, 08-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esses são os instantâneos e as recordações que voltam hoje à mente para recordar – a 30 anos do seu falecimento, ocorrido no dia 8 de junho de 1986 na enfermaria da Gregoriana, em Roma – o jesuíta francês Stanislas Lyonnet, definido por Jean-Noël Aletti – um dos seus alunos prediletos – como "um dos homens mais livres que eu já conheci" e também por isso um verdadeiro "ícone do Evangelho".

O padre Lyonnet nasceu no dia 23 de agosto de 1902 em Saint-Etienne e entrou muito jovem (1919) na Companhia de Jesus, em que se tornou sacerdote em 1934. Desde aquela data, a sua vida se orientou para os estudos de Sagrada Escritura e não só: dentre outras coisas, o religioso foi um profundo conhecedor das línguas armênia e georgiana, tendo sobre os ombros um prestigiado diploma obtido na École Pratique des Hautes Études de Paris.

Professor na prestigiada Faculdade Jesuítica de Lyon-Fourviére (a mesmo frequentada por teólogos do nível de Daniélou, De Lubac e von Balthasar) e, depois, em Roma, no Pontifício Instituto Bíblico, ainda hoje chamam a atenção na sua carreira acadêmica as obras que ele nos deixou; apenas para citar algumas: Les origines de la version arménienne de la Bible et du Diatessaron( 1951); tradução em francês com um breve comentário de Romani e Galati para a Bible de Jérusalem (1953); Theologia biblica Novi Testamenti (1957); La storia della salvezza nella lettera ai Romani (1967).

O padre Lyonnet "foi um homem verdadeiramente multidisciplinar para o conhecimento dos saberes em torno da Bíblia", explica o jesuíta e ex-reitor do Bíblico, o belga Maurice Gilbert. "Ainda hoje chama a atenção pensar que ele foi um dos alunos prediletos do grande linguista Antoine Meillet e que também introduziu ao conhecimento do georgiano o grande acadêmico de Louvain, Gérard Garitte. Um dos seus maiores méritos foi também a colaboração com o 'nobre padre' da Ecole Biblique de Jerusalém, o dominicano Marie-Joseph Lagrange: entre os dois estudiosos, teceu-se uma relação de amizade e de estima verdadeira, confirmada também por uma densa troca de cartas. Nesse caso, foi fundamental a contribuição de Lyonnet para as versões dos Evangelhos em armênio e georgiano para o livro Critique textuelle do padre Lagrange."

O padre Gilbert acrescenta um detalhe: "Ainda me lembro de que a minha pesquisa sobre uma passagem de Ezequiel, sugerida por Lyonnet, recebeu o aplauso do maior estudioso daquela matéria, Walther Zimmerli. O que testemunha a grande capacidade de orientação didática e as intuições científicas do meu antigo professor de exegese".

Mas foi nos anos que precederam o Vaticano II que a figura de Lyonnet, muitas vezes levada em grande consideração por homens da espessura de Agostino Bea e Alberto Vaccari, começou a emergir. Não por acaso, a estrela-guia do seu método de "biblista aberto" tornou-se precisamente a encíclica Divino afflante Spiritu (1943), de Pio XII, que abriu uma nova abordagem na exegese moderna, graças ao reconhecimento dos "gêneros literários" na Bíblia.

E foi justamente a questão dos "gêneros literários" que se tornou o terreno privilegiado da pesquisa científica do religioso francês. Os olhares atentos do Santo Ofício da época, liderado pelo cardeal Ottaviani, se detiveram principalmente sobre a sua interpretação do relato da Anunciação e sobre o conceito de "pecado original" em uma passagem da Carta aos Romanos.

Por causa dessa pesquisa de vanguarda, vista com desconfiança por muitos ambientes romanos, o padre Lyonnet, em 1962, foi suspenso do ensino no Bíblico por ordem do Santo Ofício, junto com outro jesuíta de grande valor, Maximilian Zerwick.

"Eu tive que substituí-lo na cátedra de exegese do Novo Testamento", revela hoje o biblista e cardeal Albert Vanhoye. "A decisão de suspendê-lo foi tomada de comum acordo entre o Papa Roncalli e o geral da Companhia de Jesus, João Batista Janssens. Eram os anos da ardente polêmica com a Lateranense e, em particular, com o Mons. Antonio Piolanti: acusavam a nós, do Bíblico, e especialmente o padre Lyonnet, de não ensinar a doutrina certa. Além disso, sem dúvida, incomodava o monopólio no campo das ciências bíblicas que o nosso instituto gozava naquele período."

Mas logo chegou o Vaticano II, sobre o qual o cardeal Vanhoye – que foi aluno de doutorado do jesuíta francês e o teve por confessor por muitos anos – revela um pequeno detalhe: "O padre Lyonnet era naturalmente uma alma otimista: ele estava convencido de que a assembleia ecumênica abriria novos caminhos. Eu ainda me lembro das suas palavras: 'Bem, o Santo Padre tem tantas preocupações com o seu Concílio, e, para mim, será uma oportunidade para conversar com os bispos e não com os alunos do Bíblico' ... Ele não era um perito do Vaticano II, mas muitas vezes era consultado pelos Padres conciliares, em particular pelos franceses, e viveu aqueles anos com grande espírito de serviço".

Foi fundamental, não por acaso, a sua marca indireta – "quase um sussurro", esclarece Maurice Gilbert – que o idoso jesuíta francês conseguiria deixar em um documento-chave como a constituição dogmática Dei Verbum.

Em 1964, para Lyonnet e Zerwick, chegou a reabilitação (saudada com notas de afeto e de admiração nos seus respectivos diários conciliares por dois grandes nomes da teologia moderna, como Yves-Marie Congar e Henri de Lubac): por decisão de Paulo VI, o religioso francês voltou a se sentar na cátedra do Bíblico, na qual permaneceria como professor indiscutível até 1983.

O Papa Montini também o nomeou consultor da Congregação para a Doutrina da Fé (1972-1982) e membro da Pontifícia Comissão Bíblica (1972-1977).

Certamente, foi significativa a escolha de Roberto Rossellini e do então empregado da Rai, Luciano Scaffa, de se valer justamente dele e do seu aluno Carlo Maria Martini como consultores bíblicos para as filmagens da série em cinco capítulos Gli Atti degli Apostoli (1969).

Em 1982, João Paulo II o designou como pregador dos Exercícios Espirituais de Quaresma da Cúria Romana: "Fiquei impressionado com as palavras com que Wojtyla comentou aquela experiência", conta hoje o biblista e jesuíta romano Francesco Rossi De Gasperis: "Ele se felicitou com ele pela sua 'juventude de coração'. Eu acho que o seu maior ensinamento para nós, biblistas, foi o recurso à exegese judaica para entender o Novo Testamento".

"Ele também foi um mestre da integração dos métodos bíblicos, assim como um fiel hermeneuta dos Comentários de São Tomás à Sagrada Escritura. Em cada aula dele, sempre havia um recurso constante à 'Bíblia na Bíblia': ele gostava de repetir que, 'para entender o Novo Testamento, sempre é preciso o Antigo'. Lyonnet, talvez também por isso, teve um papel decisivo para indicar um novo caminho de pesquisa ao espiritano francês Roger Le Deault, o seu aluno que se tornou para nós um mestre da tradição 'judaico-católica'."

O legado de Lyonnet permanece vivo também pelo seu rastro ecumênico, profuso especialmente no pós-Concílio. "Basta pensar – observa Vanhoye – nas suas colaborações com o teólogo protestante Oscar Cullmann ou com o Ir. Roger, fundador da Comunidade de Taizé. Uma herança atual principalmente para os estudiosos da Bíblia de todas as confissões cristãs.

"Sem dúvida, os seus estudos sobre a Epístola aos Romanos na tradução ecumênica da Bíblia – é a reflexão final de Maurice Gilbert – fazem dele uma das referências mais importantes. Sempre me impressionou, na longa agonia final de 48 horas, o fato de que ele continuamente proferia a palavra 'amém' e a compostura com que ele se preparou para a despedida para a vida terrena. Até o último suspiro."

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