"Temos de mudar a alma da sociedade", afirma Alvaro Garcia Linera

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30 Mai 2016

O processo de expansão territorial de governos progressistas e revolucionários se estagnou, disse ele. Mas o projeto continental dos governos progressistas e revolucionários não esgotou suas energias, acrescenta.

A reportagem é de Florencia Garibaldi, publicada por Página/12, 29-05-2016. A tradução é de Henrique D. Lucas.

Na América Latina, diz Alvaro Garcia Linera, um novo capítulo se iniciou, marcado pelo início do processo de impeachment da presidente brasileira, Dilma Rousseff, que foi afastada temporariamente do poder. Durante sua suspensão de 180 dias, o Senado deve votar se a presidente é culpada do que ela é acusada: "pedaladas fiscais" envolvendo o uso de recursos de bancos públicos para cobrir programas de responsabilidade governamental, ainda que essas manobras tenham sido utilizadas por governos anteriores. 

Devido à abertura do julgamento de impeachment, a presidência interina ficou a cargo do vice-presidente, Michel Temer, o que representa uma amostra da guinada à direita que se vive na região.

"Quero chamar a atenção para o que está acontecendo no continente. Não estamos em um bom momento. Alguns falam de um retrocesso, outros, de um avanço de restauração conservadora. A verdade é que no ano passado, após dez anos de irradiação de governos progressistas e revolucionários, as forças conservadoras tiveram sucesso. Elas deram início a um processo de restauração das antigas elites dos anos 80 e 90, que novamente assumiram ou pretendem assumir o controle da gestão estatal. Tudo isto direciona seu ataque até a década de ouro ou virtuosa da América Latina", diz García Linera, vice-presidente da Bolívia, em diálogo com Página/12.

O intelectual orgânico, que participou da criação do Exército Guerrilheiro Tupac Katari (EGTK), esteve preso por cinco anos e desde 2005 é companheiro de chapa do presidente Evo Morales, foi um dos oradores na conferência "Restauração conservadora e novas resistências na América Latina", organizada pela Fundação Germán Abdala na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA). 

Durante a atividade, o lançamento da Fundação foi realizado como uma iniciativa dos sindicatos da União dos Trabalhadores em Educação (UTE Capital) e da Associação Trabalhadores do Estado (ATE Capital), ambos de Buenos Aires. Participaram do evento dois referentes do pensamento da Pátria Grande, o sociólogo e cientista político brasileiro Emir Sader e o filósofo e cientista político argentino, ex-reitor da Universidade Nacional de General Sarmiento, Eduardo Rinesi. Estiveram presentes o Secretário Geral da Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA), Hugo Yasky, juntamente a Daniel Catalano, secretário-geral das ATE Capitais, os deputados do Parlamento do Mercosul (Parlasur), Daniel Filmus e Victor Santa María, a ex-deputada argentina e colega de Germán Abdala, Marcela Bordenave, e o secretário de Comunicação e Difusão da CTA, Carlos Girotti.

Após o evento, a entrevista foi realizada a caminho da base militar de Aeroparque, na sala de espera do seu aeroporto, onde um avião particular o esperava para voltar para seu país.

Nos últimos meses, o processo de expansão territorial de governos progressistas e revolucionários se estagnou: é esta a conclusão que chega García Linera. "Há um regresso dos setores de direita em países importantes do continente e há uma ameaça de que o mesmo aconteça em outros países. A direita sempre vai buscar sabotar os processos progressistas. Temos de avaliar o que nós não fizemos bem, onde tivemos limitações e tropeços que permitiram que a direita tome o poder hoje". Com um discurso crítico, mas ao mesmo tempo otimista, o vice-presidente considera que o projeto continental dos governos progressistas e revolucionários não esgotou suas energias, nem tão pouco entrou em colapso, mas foi golpeado e sabotado.

García Linera acredita que há um processo revolucionário no continente, que ocorre em ondas, onde existe uma esquerda que não esgotou seu projeto e uma direita que não oferece nada de novo. Ele considera que a situação atual no Brasil e na Argentina é um retorno ao velho. "Quando vier a segunda onda, há de se saber recuperar os erros da primeira. Há de se dar muita importância para a economia no sentido de que se você não tiver uma base econômica que garanta o bem-estar dos mais pobres, não haverá estabilidade e garantia de continuidade. Em segundo lugar, embora um governo tenha de governar para todos, incluindo os seus adversários, nunca há de fazê-lo à custa da base social que lhe levou onde você está e que lhe sustenta. Você não pode mudar de aliados no meio do caminho".

Na linha da autocrítica, o vice-presidente acrescenta mais elementos a serem considerados: "O terceiro fator tem duas faces. Uma é que cada ação social de igualdade e justiça que se faça deve ser acompanhada de processos de politização. A outra face é saber compreender as novas sensibilidades e discursos, formas de organização e comunicação das classes médias emergentes. A quarta lição é sempre realizar uma revolução cultural que acompanhe as transformações econômicas. Há de se modificar a alma íntima da sociedade. Um quinto elemento é o comportamento ético. Um governo deve combinar o dizer com o fazer, o que propõe com o que é. O elemento final é a forma como os regimes democráticos garantem a continuidade das lideranças e não tenho a menor ideia, não encontrei nenhuma solução".

Após a suspensão de Dilma, a Bolívia foi um dos países que deu o seu apoio à presidente. Evo Morales emitiu mensagens através da rede social Twitter, dirigidas a seu par brasileiro. Um deles dizia: "Não ao golpe do Congresso. Defendamos a democracia do Brasil, sua liderança regional e a estabilidade da América Latina". Publicamente, o governo boliviano catalogou o impeachment como um golpe brando. "Qualificamos o golpe como brando porque houve um uso abusivo e manipulado da lei para armar uma trama que levou à destituição de uma presidente. Eles estão acusando-a de algo que todos os governos constitucionais do Brasil têm feito. Se é uma tradição em âmbito nacional brasileiro, por qual motivo a culpam e a processam? Porque ela é uma mulher, do Partido dos Trabalhadores (PT) e ex-guerrilheira".

Embora o secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), Ernesto Samper, não haja descartado que os países membros possam aplicar a cláusula democrática, que condena rupturas ou ameaças à democracia na região, ainda não existem iniciativas para uma reunião de líderes. Para García Linera isto se deve ao fato de que o continente está em um momento de inflexão. "A correlação de forças continentais não é a mais favorável. Antes estávamos em ascensão e podíamos tomar medidas em conjunto. Agora, cada país da região está passando por problemas internos. Assim é difícil de construir um consenso para aplicar este tipo de cláusula democrática que permite restabelecer a ordem democrática e a legitimidade que lhe dá o voto. Quando você tem o Brasil e a Argentina retraídos com suas questões, a Venezuela com problemas, a Colômbia visando os Estados Unidos, é difícil que os países menores possam assumir um papel de liderança no continente".

Na Bolívia, o Movimento ao Socialismo (MAS), ao qual pertence o vice-presidente, também sofreu um revés no resultado das últimas eleições que terminaram com o voto negativo no referendo que procurava determinar se Evo poderia concorrer a um quarto mandato consecutivo entre 2020 e 2025. Por trás da derrota do governo, houve uma campanha encabeçada pelo jornalista Carlos Valverde, que falava do nascimento de um filho entre a empresária Gabriela Zapata e o presidente. Recentemente, Valverde disse que a criança nunca existiu. "Sabemos que o referendo era uma questão muito complicada, colocando em jogo a continuidade da liderança. A campanha de mentiras e difamação nos afetou muito. Há apenas alguns dias veio à tona a verdade sobre o suposto filho. Durante três meses, toda a imprensa se dedicava em falar de Evo e do não cumprimento de suas responsabilidades como pai. Isto nos afetou e agregou para a derrota. Mas temos pela frente quatro anos de gestão que nos permitirão superar este quadro. Pudemos acabar com a infâmia, estamos vivos e seguimos com a nossa gestão de governo".

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