"Se cedermos ao medo, a democracia morrerá." Entrevista com Zygmunt Bauman

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

29 Março 2016

Há anos, o filósofo polonês Zygmunt Bauman adverte contra o medo, o mais sinistro dos demônios aninhados nas cidades abertas em que vivemos. Os atentados de terça-feira passada em Bruxelas, assim como os de Paris, reúnem no abraço mortal do terrorismo aquela insegurança do presente e aquela incerteza do futuro que ele, o teórico da sociedade líquida, identificou no nosso DNA. Isso, sim, o assusta.

A reportagem é de Francesca Paci, publicada no jornal La Stampa, 26-03-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Repetimos que, em Bruxelas, foi atingido no coração da Europa: é isso, professor Bauman, ou se trata de propaganda jihadista que não devemos fomentar?

O "coração" que os terroristas tentam atingir é aquele onde abundam as telecâmeras, sempre sedentas por sensações novas e chocantes para garantir atenção máxima por alguns dias. Há um número dez maior de pessoas mortas em algum lugar entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio que não tem qualquer chance de obter a visibilidade dos ataques de Nova York, Madri, Londres, Paris ou Bruxelas. É nessas últimas cidades, ao contrário, que os rumores adquirem a força dos trovões. Custos mínimos – um bilhete de avião, uma kalashnikov, um explosivo caseiro, a vida de um punhado de desesperados – correspondem a horas intermináveis de espaço grátis na TV e picaretadas contra os valores democráticos por parte dos governos que deveriam protegê-los.

A nova geração de terroristas usa os benefícios da "sociedade líquida"?

É o princípio inspirador da sua estratégia desde o início: dispondo de recursos limitados, dedicaram-se a provocar o seu inimigo, teoricamente forte, mas, na realidade, extremamente vulnerável. Os terroristas aprenderam rapidamente a arte de apontar para cima e maximizar os lucros diminuindo as despesas – ou seja, utilizando o zelo míope com que o adversário entrou no jogo.

Os terroristas consideram a Europa como uma comunidade unida muito mais do que os europeus?

Por ironia do destino, os terroristas conseguem acertar golpes capazes de repercutir em toda a União Europeia. Poderíamos dizer que são o mais poderoso fator unificante entre os membros de uma União Europeia que, de outra forma, vê se desfazerem muitas das suas costuras. O medo, o desperdício de recursos cada vez maiores na construção de muros, o emprego de um número crescente de homens para a segurança e custosos gadgets para a espionagem na vã esperança de evitar o próximo atentado: tudo isso está ocorrendo não só nos lugares atingidos, mas também muito mais longe, nos países da Europa de "segunda velocidade" que o terrorismo não tem nenhuma intenção de atacar, tendo calculado sobriamente custos e benefícios.

Os terroristas não são estrangeiros. Eles cresceram nas cidades europeias: por que eles odeiam os europeus?

Ao contrário da infame afirmação de Victor Orban, para o qual "todos os terroristas são migrantes", quase todos os terroristas são "indígenas". Os espertos, astutos e ferozes conspiradores que inspiraram o terrorismo podem viver longe, em países estrangeiros, mas a sua mão de obra é recrutada entre os jovens discriminados, humilhados e vingativos que crescem em nosso meio, sem futuro. Mantê-los em condição de privação é uma forma de cooperar com o terrorismo: seguindo a lógica do olho por olho, ampliamos o campo que os líderes terroristas mostraram que sabem usar bem.

O Islã radical está preenchendo o vazio das ideologias do século XX?

Não podendo garantir aos seus correligionários vidas fantásticas, os fundamentalistas islâmicos lhes oferecem o melhor bálsamo alternativo à dignidade humana mortificada: uma morte repleta de sentido. Muitos (mas estes muitos são uma pequena minoria dos muçulmanos que vivem na Europa) cedem à tentação, não tendo outros caminhos para a dignidade humana.

Podemos realmente nos salvar multiplicando os muros?

Construir muros para manter os migrantes fora dos nossos quintais recorda a história do antigo filósofo Diógenes, que rolava para a frente e para trás no barril em que vivia nas ruas da nativa Sinope. À pergunta sobre o porquê do seu estranho comportamento, ele respondeu que, vendo os vizinhos ocupados em blindar as portas e em desembainhar as espadas, ele esperava fazer a sua contribuição para a defesa da cidade contra o avanço das tropas de Alexandre da Macedônia.

O senhor está preocupado com a civilização ocidental?

A única mas grave razão para estar preocupado é a felizmente pequena possibilidade de que a Europa abandone os seus valores e se curve ao código de conduta dos terroristas. Seria o suicídio da casa da moralidade e da beleza, onde nasceu a ideia de liberdade, igualdade e fraternidade.