Os católicos em tempos de Papa Francisco. Entrevista com Marco Marzano

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06 Janeiro 2016

Uma viagem entre os católicos em tempos de Papa Francisco: foi o que fez Marco Marzano, professor de sociologia da Universidade de Bergamo e autor de diversas monografias sobre o mundo católico para o jornal Il Fatto Quotidiano: dez capítulos publicados no jornal dirigido por Marco Travaglio que percorreram pelo comprimento e pela largura a Igreja e o mundo católico, não se valendo de estatísticas oficiais e oficiosas, ou de estudos e pesquisas mais ou menos sérias e confiáveis, mas indo diretamente in loco, nas paróquias, nos seminários, nos grupos, nas sacristias, encontrando párocos, seminaristas, religiosas, leigos comprometidos, famílias, casais, pessoas divorciadas, homossexuais.

A reportagem é de Luca Kocci, publicada na revista Adista Notizie, n. 45, 26-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O resultado é um afresco em cores vivas da Igreja Católica real em tempos de Papa Francisco, que já se tornou também um livro (Inchiesta sui cattolici al tempo di Francesco) publicado no dia 18 de dezembro junto com o jornal Il Fatto Quotidiano.

"O projeto – explica Marzano para a Adista – nasceu do desejo de contar a evolução do catolicismo italiano em tempo de Francisco, longe dos palácios e das suas intrigas. Indo, portanto, às periferias católicas para descrever a situação real da Igreja italiana de base. Dando voz a 'histórias menores', isto é, às narrativas de pessoas desconhecidas, cuja história é contada na primeira parte de cada um dos 10 microensaios."

Eis a entrevista.

Muitas questões abordadas na sua investigação estiveram entre os temas que foram discutidos no Sínodo dos bispos sobre a família, concluído no mês de outubro passado, começando pelo ponto nodal dos divorciados recasados. O que emergiu a partir da sua investigação?

Acima de tudo, o anacronismo de uma norma que considera o divórcio como fonte do máximo dos escândalos. Nas nossas sociedades, os pecados percebidos como principais e mais graves certamente são outros. Sobre isso, assim como sobre outros temas, a Igreja parece não querer ceder ao primado da consciência individual sobre a norma eclesial. Na realidade, a tolerância em relação aos divorciados é muito ampla, e a desconfiança em relação à norma é ainda mais: quase ninguém mais acredita que a exclusão dos divorciados da comunhão é consequência de uma lei justa. No entanto, mesmo aqui, como em outros campos, o sofrimento das pessoas excluídas é real.

A investigação começa por uma história de vida.

Trata-se de um casal de divorciados recasados que, na sua primeira união, estavam com pessoas muito distantes da Igreja e da vida religiosa. Foi justamente se encontrando que, em vez disso, redescobriram a importância e a beleza de um sincero caminho espiritual. E é justamente agora que são excluídos dele.

Uma história realmente paradoxal. Quanto às pessoas e aos casais homossexuais, ao contrário, é tudo mais claro?

Os gays fiéis individuais, às vezes, são acolhidos e, às vezes, não. Os casais nunca são acolhidos. A homossexualidade nunca foi oficialmente reconhecida como uma tendência compatível com a formação de um núcleo familiar. Sobre isso, recebemos algumas cartas bonitas, intensas e dramáticas. Uma dificuldade a mais para lidar com tal questão decorre do fato de que, se o fizesse, a Igreja deveria fazer as contas também com um gigantesco problema interno dela: o da homossexualidade do clero.

Nessa investigação, você também abordou o ponto crucial do celibato eclesiástico.

E se desencadeou um verdadeiro alvoroço. Eu recebi dezenas de cartas, diferentes das que foram publicadas no livro. Foram postadas no meu blog, e lá eu recebi uma infinidade de comentários. O mesmo ocorreu no Facebook. Milhares de compartilhamentos e comentários, muitos aguerridos e agressivos. Eu refleti sobre o que aconteceu e compreendi uma coisa que não estava clara para mim: a pureza sexual dos padres, para muitos, é um elemento realmente decisivo da sua sacralização e, portanto, da santidade da Igreja. Para muitos fiéis, a Igreja é santa se o clero for casto, ou seja, se se mantiver fiel à promessa de não ter uma vida sexual e afetiva, e, portanto, desse modo, se assemelha a Jesus, torna-se semidivino. Há a necessidade de refletir mais sobre isso.

Nesse cenário, como você acha que o Papa Francisco está se movendo?

É difícil de dizer. Parece-se intuir uma vontade reformadora, mas que custa a se traduzir em decisões concretas. Talvez, o campo mais promissor seja o dos divorciados, sobre o qual o Sínodo sobre a Família trabalhou e que deve ser objeto de uma próxima exortação apostólica. Sobre outros, parece-me que tudo está em silêncio. Sobre a homossexualidade, o Sínodo não deu nenhum passo, nem mesmo tímido. O mesmo aconteceu no que se refere às mulheres. Mesmo apenas a ideia do diaconato feminino não encontrou qualquer consenso. A Igreja Católica custa a se reformar e reage a cada sopro de novidade com um novo enrijecimento. Nessa situação, muitas vezes, os fiéis fazem por conta própria e se descobrem capazes de autonomia e de inteligência, compreendem que não precisam tanto das hierarquias para viver uma vida cristã plena e satisfatória, sob a insígnia daquela autenticidade tão importante para nós, "modernos".

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