Hélder Câmara, ''o bispo dos pobres''

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Mai 2015

"É um dia de grande felicidade para todos. Estamos no tempo da Páscoa, período de alegria por excelência. Este ano, porém, a Páscoa é ainda mais alegre, porque damos início oficialmente ao processo de beatificação de Dom Hélder". Fernando Saburido, arcebispo de Olinda e Recife, iniciou assim, no domingo, a missa com que se deu início ao processo que poderia levar o antecessor, Hélder Câmara, aos altares.

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada no jornal Avvenire, 05-05-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A celebração – simples e participado, ao estilo do "dom" (título com que, no Brasil, são indicados os bispos) dos pobres – foi realizada na igreja do Santíssimo Salvador de Olinda. A mesma onde se encontra o túmulo de Dom Câmara. Um sepulcro humilde, como a casa de Recife onde o pastor morreu, no dia 27 de agosto de 15 anos atrás.

Ele tinha 90 anos de idade e, por mais de 68, como sacerdote e depois como bispo, tinha sido uma das vozes com maior força profética da Igreja brasileira. No entanto, em uma entrevista ao jornalista francês Roger Bourgenon, o próprio Dom Hélder tinha afirmado: "Ser um profeta não é uma missão rara. O Espírito chama a todos a sê-lo". Certamente, ler a realidade à luz do Evangelho nem sempre é fácil. Especialmente quando a história se torna tumultuada e fosca.

Câmara, depois de 12 anos como bispo auxiliar no Rio de Janeiro, foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife no dia 12 de março de 1964: 18 dias depois, os militares esmagaram com o seu punho de ferro as instituições democráticas, inaugurando uma ditadura que prolongaria por 21 anos.

A partir da chegada na arquidiocese – no dia 11 de abril – Dom Hélder se encontrou diante de uma população paralisada pelo medo. Uma pressão que, a partir daquele primeiro discurso, pronunciado de improviso no aeroporto, o novo arcebispo conseguiu atenuar com a força não violenta e libertadora da esperança. "Sou uma criatura humana que se considera irmão de graça e de pecado dos homens de todas as raças e línguas. Um cristão que se dirige a outros cristãos, mas com um coração aberto a todos os homens, de qualquer fé e ideologia. Um bispo da Igreja Católica que, à imitação de Cristo, não vem para ser servido, mas para servir", disse ele à multidão reunida debaixo da chuva para acolhê-lo. Uma síntese dos 20 anos de ministério posteriores à frente da arquidiocese.

Como notam os biógrafos, Dom Hélder não chegava a Olinda e Recife com um "programa" preciso. Ele só sabia que era necessário "desarmar os espíritos". E assim o fez. Mas não pregando a hipócrita tranquilidade do "não se envolver". Mas testemunhando a paz evangélica que denuncia a injustiça, mas recusa odiar o opressor. Uma escolha arriscada. Que custou ao arcebispo a hostilidade dos setores ultraconservadores e dos militares ao poder.

"O bispo vermelho", chamavam-no. Pouco importa que Dom Câmara se limitasse a seguir a linha indicada pelo Concílio Vaticano II – do qual tinha participado ativamente – e pelas conferências dos bispos latino-americanos de Medellín e de Puebla. A opção pelos pobres e a defesa dos direitos humanos eram sinônimo de subversão.

"A santidade consiste em saber enfrentar os desafios com fé. Dom Hélder fez isso maravilhosamente. Em particular, quando desenvolveu a teoria da não violência evangélica, que desarmou tantos ânimos", sublinhou José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba, durante a missa de Olinda.

Como amigo pessoal de Câmara, Dom Pires foi a primeira testemunha a ser ouvida pelo tribunal de cinco membros, constituído formalmente no domingo. A este último caberá, agora, um longo processo de coleta e de análise das inúmeras testemunhas. Só no Estado de Pernambuco, onde se encontram Olinda e Recife – lembrou o arcebispo Saburido – serão ao menos 50. A estas, soma-se a vasta produção escrita pelo pequeno – mas apenas em estatura – Dom Hélder.