Reconstruir a maioria democrática. Artigo de Frei Betto

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12 Outubro 2026

"O resultado do primeiro turno de 2026 mostra que o eleitorado brasileiro continua em disputa. E talvez essa seja justamente a oportunidade. Em vez de transformar a eleição em uma guerra entre dois Brasis irreconciliáveis, é possível entendê-la como um alerta de que nenhuma democracia permanece sólida quando grandes parcelas da sociedade deixam de acreditar que o sistema político representa suas aspirações", escreve Frei Betto, escritor, autor do romance sobre a Amazônia “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros

Eis o artigo.

O primeiro turno da eleição presidencial de 2026 deixou um sinal político de que o Brasil continua profundamente dividido, mas essa divisão não se explica apenas pela velha oposição entre ricos e pobres, direita e esquerda, Nordeste e Sul. O comportamento das diferentes classes sociais revela uma transformação mais complexa e coloca para a democracia brasileira um desafio que vai muito além desta eleição.

Lula chegou ao segundo turno com 45,16% dos votos válidos, mas teve cerca de 3,4 milhões de votos a menos do que no primeiro turno de 2022. Perdeu votos em todas as regiões, com quedas particularmente expressivas no Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste. Em 714 municípios onde havia vencido em 2022, foi superado agora por Flávio Bolsonaro.

Dentro desse quadro, chama atenção o comportamento das classes sociais. Os levantamentos que segmentam o eleitorado mostram uma realidade menos intuitiva do que a imagem tradicional de Lula como candidato exclusivamente dos mais pobres. Há recuperação ou preservação de apoio em segmentos da classe A e entre os eleitores da base da pirâmide, enquanto a classe C aparece como espaço particularmente disputado e, em determinados recortes, de perda de apoio.

Isso faz sentido quando se observa a situação econômica percebida pelo brasileiro. A classe C não é simplesmente “pobre”. É formada em grande parte por famílias que ascenderam socialmente, conquistaram bens, ampliaram o consumo, entraram no mercado formal ou passaram a ter expectativas de estabilidade. É justamente por isso que sua relação com a política tende a ser mais exigente, ela não quer apenas proteção contra a pobreza; quer crescimento, emprego, crédito, segurança, serviços públicos que funcionem e a sensação de que o futuro será melhor que o presente.

Pesquisas recentes ajudam a compreender essa insatisfação. Embora indicadores como emprego e renda tenham apresentado melhora, uma parcela significativa da população continua percebendo dificuldades financeiras. Pesquisa citada pela Folha de S. Paulo mostrou que 49% dos brasileiros relatavam dificuldades com a renda, enquanto 82% das famílias tinham algum tipo de dívida. O custo dos alimentos, o endividamento e a percepção sobre o poder de compra apareceram como fatores capazes de neutralizar parte dos resultados econômicos positivos do governo.

Há, portanto, a lição importante de que não basta a economia melhorar, é preciso que as pessoas sintam que ela melhorou.
O eleitor da classe C não necessariamente rejeita políticas sociais. Ao contrário. Mas pode rejeitar a ideia de que sua única relação com o Estado deve ser a de beneficiário. Ele quer autonomia, oportunidade e previsibilidade. Quer que o filho possa estudar, o emprego pague melhor, a casa esteja segura, o supermercado não assuste e o esforço da família seja capaz de produzir alguma ascensão.
Essa mudança de expectativa ajuda a explicar por que uma política democrática precisa falar simultaneamente com a base mais pobre e com a classe média. A democracia não se fortalece dividindo o país entre “nós” e “eles”. Fortalece-se quando diferentes grupos sociais conseguem reconhecer seus interesses no mesmo projeto nacional.

O fortalecimento da democracia não depende apenas da vitória eleitoral de Lula. Depende da capacidade de construir uma cultura política em que adversários sejam reconhecidos como legítimos, instituições possam ser criticadas sem serem destruídas, resultados eleitorais sejam respeitados e políticas públicas sejam avaliadas por seus resultados, e não apenas pela identidade de quem as propõe.

Nesse sentido, a perda de apoio na classe C deveria ser compreendida não como um problema meramente eleitoral, mas como um convite à reflexão. Se milhões de brasileiros sentem que a política tradicional não responde às suas expectativas, abre-se espaço para discursos de indignação, ressentimento e soluções simplistas. Dessa brecha é que a direita se aproveita. A resposta democrática não pode desqualificar esse sentimento. Deve escutá-lo.

Isso exige uma agenda que combine redução da pobreza com mobilidade social; responsabilidade fiscal com investimento; crescimento econômico com distribuição de oportunidades; segurança pública com respeito aos direitos; combate à corrupção com instituições independentes; e políticas sociais que protejam os vulneráveis sem condená-los à dependência permanente do Estado.

O desafio é reconstruir uma maioria que não seja apenas eleitoral, mas social e democrática.

Para isso, é preciso conversar com a classe E sem abandonar a C; com a C sem hostilizar a A; com o Nordeste sem esquecer o Sul e o Sudeste; com quem vota no governo e com quem vota na oposição. A democracia só se torna realmente forte quando deixa de ser percebida como propriedade de um grupo.

O resultado do primeiro turno de 2026 mostra que o eleitorado brasileiro continua em disputa. E talvez essa seja justamente a oportunidade. Em vez de transformar a eleição em uma guerra entre dois Brasis irreconciliáveis, é possível entendê-la como um alerta de que nenhuma democracia permanece sólida quando grandes parcelas da sociedade deixam de acreditar que o sistema político representa suas aspirações.

Fortalecer a democracia, portanto, significa devolver ao cidadão a sensação de que sua voz produz consequências concretas — no salário, na escola, na segurança, na saúde, no emprego e na perspectiva de futuro.

Dia 25 de outubro vote na democracia! Vote Lula! Vote 13!