Relatório da ONU alerta para a falência hídrica global

Foto: Rafael Peier/Unplash

Mais Lidos

  • Declaração de Flávio Bolsonaro sobre mudanças na Constituição preocupa juristas

    LER MAIS
  • A classe média decidirá a eleição. Artigo de Frei Betto

    LER MAIS
  • 'Mais um golpe de Estado': crescem os temores com as promessas de Flávio Bolsonaro de 'redemocratizar' o Brasil

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

09 Outubro 2026

"Estudo da Universidade das Nações Unidas afirma que muitos sistemas de água não voltarão ao normal e propõe trocar a gestão de crise pela gestão de falência."

A informação é publicada por EcoDebate, 06-10-2026.

Lagos encolhendo, aquíferos em declínio, geleiras desaparecendo e cidades afundando: o relatório do UNU-INWEH mostra por que o termo “crise hídrica” ficou pequeno. Durante gerações, a humanidade acreditou que a água doce era um recurso infinitamente renovável. Bastaria esperar a próxima estação de chuvas para que rios, lagos e aquíferos voltassem aos níveis históricos. Ao empurrar o planeta além dos limites do ciclo hidrológico global, porém, destruímos essa margem de segurança.

Um estudo publicado pelo Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) muda a forma de enxergar o problema. Segundo o relatório, o termo “crise” já não descreve a realidade vivida por bilhões de pessoas. Entramos na “Era da Falência Hídrica Global”.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

Conduzido pelo cientista Kaveh Madani, o estudo alerta que ultrapassamos pontos de não retorno em diversos ecossistemas essenciais. Veja a seguir as cinco principais revelações do documento, que redefinem nossa relação com a água e exigem uma transformação urgente na governança do planeta.

Esqueça o termo “crise”: muitos sistemas de água faliram e não voltarão ao normal

Rotular a escassez atual como “crise” ou “estresse hídrico” alimenta a falsa esperança de que uma chuva mais forte basta para restaurar o padrão do passado. O estudo, revisado por pares e publicado na revista científica Water Resources Management, distingue com precisão os três conceitos:

  • Estresse hídrico: pressão elevada sobre o sistema, com impactos ainda temporários e reversíveis.
  • Crise hídrica: choques agudos e momentâneos, que podem ser superados com intervenções emergenciais de curto prazo.
  • Falência hídrica: estado pós-crise permanente, resultante da extração contínua de águas superficiais e subterrâneas acima da taxa de recarga natural. O resultado é a perda irreversível, ou extremamente dispendiosa de recuperar, do capital natural.

Para traduzir esse colapso em termos econômicos, os pesquisadores recorrem a uma analogia financeira. Ao longo de décadas, a sociedade gastou toda a “renda” hidrológica renovável, gerada a cada ano pelas chuvas, pelos rios e pelo derretimento da neve.

Além disso, liquidou as “poupanças” acumuladas durante milênios em aquíferos profundos, geleiras e zonas úmidas. Quando a poupança acaba e a infraestrutura natural colapsa, a insolvência é inevitável.

“Este relatório diz uma verdade desconfortável: muitas regiões estão vivendo além de seus meios hidrológicos, e muitos sistemas hídricos críticos já estão falidos”, afirma Kaveh Madani, diretor do UNU-INWEH e autor principal do estudo.

Os dados da bancarrota: lagos desaparecendo, geleiras derretendo e cidades afundando

As evidências já estão visíveis em todo o globo. Muitas vezes, os danos ocorrem em silêncio, debaixo dos nossos pés, até que a infraestrutura urbana rache e o solo ceda sob as cidades. O relatório reúne dados alarmantes sobre a degradação dos ecossistemas de água doce:

  • 50% dos grandes lagos do mundo perderam volume desde o início da década de 1990, o que afeta diretamente 25% da população mundial, que depende deles para sobreviver.
  • 410 milhões de hectares de zonas úmidas e pântanos foram destruídos nos últimos 50 anos, área equivalente a quase toda a União Europeia. A perda anual em serviços ecossistêmicos é estimada em US$ 5,1 trilhões.
  • 70% dos principais aquíferos do planeta apresentam declínio contínuo em suas reservas de longo prazo.
  • 2 bilhões de pessoas vivem em terrenos que estão afundando (subsidência do solo) por causa do bombeamento excessivo de água subterrânea. Em algumas metrópoles e deltas, o rebaixamento chega a 25 cm por ano.
  • Mais de 30% da massa de geleiras desapareceu em várias regiões desde 1970. Prevê-se que diversas cordilheiras de baixa e média altitude percam totalmente suas geleiras funcionais nas próximas décadas.

A agricultura no centro do problema: o custo das secas criadas pelo ser humano

A falência hídrica não é obra do acaso nem mero azar meteorológico. É resultado direto de escolhas de gestão, de modelos de consumo e da destruição ambiental. O relatório consolida o conceito de “seca antropogênica”: déficit hídrico causado por sobre-exploração, desmatamento, salinização do solo, poluição e mudanças climáticas, e não por simples oscilações naturais do clima.

A produção global de alimentos está no centro desse cenário:

  • A agricultura irrigada responde por cerca de 70% de todas as retiradas globais de água doce.
  • A água subterrânea garante 50% da água potável doméstica e mais de 40% da água usada na irrigação em todo o mundo.
  • 3 bilhões de pessoas e mais de 50% da produção global de alimentos estão concentrados em regiões onde o armazenamento total de água está em queda ou se tornou instável.
  • Mais de 170 milhões de hectares de lavouras irrigadas enfrentam estresse hídrico alto ou muito alto, e a salinização já danificou cerca de 100 milhões de hectares de terras agrícolas.
  • O custo econômico direto dessas secas provocadas pelo ser humano é estimado em cerca de US$ 307 bilhões por ano.

Impactos desiguais: como a perda de água gera desigualdade e conflitos

A falência hídrica é, antes de tudo, uma questão de justiça social, segurança e geopolítica. A degradação dos recursos hídricos não atinge todos da mesma maneira. Os lucros do consumo predatório ficaram concentrados nas mãos dos atores econômicos mais poderosos, enquanto a conta da escassez recai sobre os mais vulneráveis.

Pequenos agricultores, povos indígenas, moradores de assentamentos informais, mulheres e jovens suportam o peso desproporcional do colapso. As consequências também não se limitam às fronteiras locais. Elas circulam pelo planeta por meio do comércio internacional, da volatilidade nos preços dos alimentos e das migrações forçadas.

  • Cerca de 75% da humanidade vive em países classificados como inseguros ou criticamente inseguros em termos de água.
  • 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso a serviços de água potável gerenciados de forma segura.
  • 3,5 bilhões de pessoas não dispõem de saneamento básico adequado.

“A falência hídrica está se tornando um motor de fragilidade, deslocamento e conflito. Gerenciá-la com justiça, protegendo as comunidades vulneráveis e compartilhando de forma equitativa as perdas inevitáveis, é agora central para manter a paz, a estabilidade e a coesão social”, afirma Tshilidzi Marwala, reitor da Universidade das Nações Unidas e subsecretário-geral da ONU.

Gerir a falência e usar a água como ponte para a paz

Diante de um sistema hidrológico insolvente, tentar “voltar ao normal” é uma impossibilidade física. Para o UNU-INWEH, reconhecer a falência hídrica não é um ato de desespero nem de desistência, mas de honestidade intelectual e política. É o primeiro passo para estancar os prejuízos e reorganizar a sociedade dentro dos limites reais da natureza. Para passar da ineficaz “gestão de crise” à necessária “gestão de falência”, o relatório aponta quatro diretrizes estratégicas:

  1. Superar o emergencialismo: abandonar soluções temporárias de curto prazo e investir em adaptação estrutural aos “novos normais” hidrológicos.
  2. Mudar a perspectiva econômica: deixar de tratar a água apenas como setor de impacto a jusante (downstream), voltado ao consumo final e à mitigação de danos, e reconhecê-la como setor de oportunidade a montante (upstream). Isso significa investir na proteção da fonte, do ciclo hidrológico, dos solos e do capital natural que a produz.
  3. Usar a água como instrumento diplomático: aproveitar a dependência humana compartilhada da água como recurso neutro de cooperação, capaz de aproximar governos, setores produtivos e ideologias em um mundo geopoliticamente fragmentado.
  4. Revisar as agendas multilaterais: usar marcos internacionais decisivos para redefinir as regras da governança hídrica global, como a Conferência da ONU sobre a Água de 2026 (co-sediada por Senegal e Emirados Árabes Unidos), o encontro de 2028 e o prazo final dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em 2030.

O relatório é um chamado à honestidade e ao realismo

A ciência é clara: nenhuma tecnologia consegue re-inflar aquíferos cujas estruturas rochosas colapsaram e se compactaram, nem reconstituir no curto prazo as geleiras milenares que derreteram. O passado hidrológico ficou para trás.

Aceitar a falência, porém, abre espaço para agir com realismo. Isso significa conter a degradação do capital natural que resta, redirecionar investimentos e adaptar instituições e economias à capacidade real da Terra.

O déficit com o planeta cresce a cada dia de negação. Estamos prontos para declarar essa falência e reorganizar nossas economias, ou vamos continuar emitindo cheques sem fundo contra o futuro da vida na Terra?

Referência:

Madani K. (2026) Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era, United Nations University Institute for Water, Environment and Health (UNU-INWEH), Richmond Hill, Ontario, Canada, doi: 10.53328/INR26KAM001

Leia mais