Rodrigo Nunes: ‘Extrema direita se tornou profissão de influencer’

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08 Outubro 2026

“O bolsonarismo está se expandindo cada vez mais para além de Bolsonaro”. É assim que o filósofo, pesquisador e escritor Rodrigo Nunes resume o processo de enraizamento da extrema direita no Brasil. Autor de O transe e a vertigem, Nunes avalia que, mesmo com uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a única coisa que a esquerda vai “conseguir manter é a presidência”, ao citar como o Congresso foi povoado por conservadores expressivos a partir de 2018.

A reportagem é de Lucas Salum e Maria Teresa Cruz, publicada por Jornal Brasil de Fato, 01-10-2026.

“Os movimentos políticos da última década vão na direção dos extremos”, resume, ao pontuar que as jornadas de junho de 2013 deram início a uma mobilização difusa em pautas e lideranças, que pavimentaria a estrada para a eleição de Jair Bolsonaro.

O movimento vivido no Brasil, em contextos diferentes, acontecia em outros lugares do mundo, muito em virtude de uma crise do neoliberalismo, que começa a se apresentar ainda em 2008. “Em grande medida, a ascensão da extrema direita, que a gente começa a verificar justamente a partir de 2016, tem dois marcos: o Brexit e a primeira eleição do Trump”, pontua.

Para ele, o bolsonarismo se consolidou como “uma força social interclasses” que não depende de um único indivíduo. “O fato de ser o Bolsonaro é relativamente contingente. Calhou de ele ser a pessoa certa no lugar certo”, opina.

Rodrigo Nunes reforça que a grande pauta do bolsonarismo é o STF. Além disso, observa um esvaziamento do campo progressista e um aparecimento de lideranças conservadoras a reboque do bolsonarismo. “Lula é o maior líder da história política recente do país, está concorrendo com um candidato fraquíssimo e pode ser que perca. Isso dá a real dimensão do que está acontecendo. A direita tem potenciais candidatos para vencer eleições até 2070. A esquerda não”, aponta. “2030 começa no dia 1 de janeiro de 2027. Isso quer dizer que não apenas é preciso preparar a sucessão, mas construir uma nova base social, que não seja apenas a memória dos dois primeiros governos Lula”, considera.

Economia da atenção

Nunes também avalia que a extrema direita ganhou tração com o crescimento das plataformas digitais, nas quais encontra eco e propulsão na chamada “economia da atenção”.

“A extrema direita virou carreira também, virou uma carreira profissional para muita gente. A adesão à extrema direita oferece hoje a possibilidade de uma carreira como influenciador, como empreendedor político que transforma o seu capital atencional, o seu capital mediático em capital político e em capital econômico, ao mesmo tempo pela monetização dos canais no YouTube, no perfil do Instagram, pela venda de palestras e produtos”, pontua o filósofo.

Ele avalia que a direita movimenta-se mais ao extremo e acerta nesta decisão de ocupar esse espaço, já que encontrou convergência. Por outro lado, Rodrigo Nunes observa que a esquerda vem caminhando em direção ao centro, quando deveria tensionar o espectro político na direção contrária e deixar bem claro que “tem duas opções bastante diferentes aqui”.

“Então, já há muito tempo, desde o início da década passada, eu defendo que o movimento para a esquerda tem que ser caminhar mais à esquerda e não mais em direção ao centro, como infelizmente a esquerda brasileira, o campo hegemônico da esquerda brasileira tem feito nesse mesmo período”, critica.

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