Quarenta centímetros de barro e fratura. Entrevista com Daniele Menozzi

Foto: Jose Cruz/Agência Brasil

09 Outubro 2026

Em meados de outubro de 1717, dom Pedro de Almeida e Portugal, conde de Assumar, recém-nomeado em Lisboa, atravessava Guaratinguetá a caminho de Vila Rica. A Câmara mandou os pescadores ao rio. O governador queria peixe na mesa.

Desceram o Paraíba do Sul durante horas sem tirar nada da água. No porto de Itaguaçu, João Alves lançou a rede e recolheu o corpo de uma imagem de barro, sem a cabeça. Lançou outra vez, e veio a cabeça. Depois disso os peixes encheram as canoas.

Os três levaram os pedaços a Silvana da Rocha, mãe de um deles, irmã de outro, mulher do terceiro. Ela juntou as duas partes com cera e guardou a imagem numa caixa de madeira.

A cena só foi escrita em 1757, na folha 98 do primeiro Livro do Tombo da paróquia de Santo Antônio. Quarenta anos de reza antes do papel.

Há no Apocalipse de João uma passagem que nenhuma campanha cita. A mulher vestida de sol é perseguida; a serpente vomita atrás dela um rio, para arrastá-la; a terra socorre a mulher, abre a boca e engole o rio. Os comentadores leem ali, antes de Maria, um povo em fuga. Em Guaratinguetá o rio devolveu a mulher. E quem a recolheu da água não foi o trono.

Em 1904, com autorização de Pio X, dom José de Camargo Barros coroou a imagem. A coroa veio do paço, ouro com vinte e quatro brilhantes maiores e dezesseis menores, e com ela um manto azul. O que o país vê de Aparecida, desde então, é o rosto e as mãos.

Daniele Menozzi é professor emérito de História Contemporânea na Scuola Normale Superiore de Pisa e sócio correspondente da Accademia dei Lincei, estuda há meio século a conversão da fé cristã em instrumento de governo. Em Il potere delle devozioni mostrou que uma devoção se torna apetecível ao poder na medida exata em que se difunde, e nomeou os políticos que hoje exibem símbolos religiosos depositados há séculos na memória cristã.

Em 16 de julho de 1930, Pio XI a declarou padroeira do Brasil, atendendo a pedido dos bispos. Em 31 de maio de 1931, a imagem deixou o santuário pela primeira vez e foi de trem até o Rio, então capital. O cardeal Sebastião Leme leu o decreto diante de uma multidão. Ao lado do altar estava Getúlio Vargas, havia sete meses no poder, sem voto que o legitimasse.

Em Sacro Cuore, Menozzi reconstruiu como a consagração de uma nação a um culto servia ao projeto de restaurar cristãmente a sociedade até chegar ao Estado confessional. Pouco importa o regime, diz ele na entrevista, e pouco importam os homens que detêm o poder; o que conta é a soldagem entre a autoridade espiritual e a civil.

A soldagem resistiu bem. Nos anos da ditadura, a padroeira foi saudada em celebração pública como patrona da chamada revolução de 1964.

Em 30 de junho de 1980, o general Figueiredo assinou a lei que declara feriado nacional o dia 12 de outubro “para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil”. Era o dia exato em que João Paulo II desembarcava no país. Quatro dias depois, o papa consagrou a basílica nova.

Treze meses mais tarde, em 22 de novembro de 1981, oito mil pessoas se reuniram no pátio do Carmo, no Recife, onde em 1695 a cabeça de Zumbi fora exposta para que o povo visse. Cantava-se a Missa dos Quilombos, de Pedro Casaldáliga, Pedro Tierra e Milton Nascimento. Dom Hélder Câmara saudou Maria por um nome africano, Mariama. Dom José Maria Pires, único arcebispo negro do país, passou dali em diante a assinar dom Zumbi.

A censura federal vetou quatro faixas do disco. Em julho de 1982 veio a público que Roma enviara duas cartas à CNBB reprovando a celebração, e os bispos foram advertidos canonicamente.

A mesma Virgem, duas vezes, em pouco mais de um ano. Numa, a coroa. Na outra, o tambor e a carta.

Em maio de 2007, a V Conferência do episcopado latino-americano reuniu-se em Aparecida, e quem presidiu a redação do documento final foi o cardeal Jorge Mario Bergoglio. Ali tomou forma a fórmula que ele levaria para o pontificado, a de uma Igreja pobre e para os pobres.

Voltou em 24 de julho de 2013, já papa, debaixo de chuva, e prometeu a duzentas mil pessoas que estaria de novo em Aparecida em 2017, no tricentenário.

Em setembro de 2016, nos jardins do Vaticano, inaugurou uma pequena estátua de bronze da padroeira. Disse que não sabia se conseguiria cumprir a promessa, e que ao menos a teria ali, mais perto. Pediu que ela protegesse o Brasil naquele momento triste. O tricentenário passou sem ele. Francisco morreu em abril de 2025 sem ter voltado.

Em 25 de setembro deste ano, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada quebrada, sem a cabeça, junto à Cruz do Chilão, em Cuiabá, lugar que a Arquidiocese descreve como ponto de encontro entre a tradição católica e a cultura dos povos de matriz africana. A nota de repúdio pediu apuração. Não há responsável conhecido.

Três dias depois, dois candidatos ergueram juntos uma imagem da padroeira num ato de campanha em São Paulo. Dois dias mais tarde, o presidente recebeu outra das mãos de um apoiador, diante das câmeras.

O projeto que de fato propôs trocar “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” é de dezembro de 2007, e foi assinado por um deputado pastor que invocava a laicidade do Estado. A Comissão de Educação e Cultura o rejeitou. Está arquivado desde agosto de 2008.

Padroeiro não se decreta em Brasília. O título é da Igreja e foi dado em 1930. O que o Estado brasileiro fez em 1980 está em três palavras do artigo 1º, culto público e oficial. Em Chiesa e diritti umani, Menozzi mostra que a entrada de uma festa religiosa no calendário civil traduz o equilíbrio político alcançado, em cada época, entre os dois poderes. O de 1980 está datado.

O 12 de outubro já era das crianças desde um decreto de 1924, cinquenta e seis anos antes da lei do culto oficial. Quando Figueiredo assinou, quase nove em cada dez brasileiros se diziam católicos. No Censo de 2022 são 56,7%, e na faixa dos dez aos catorze anos, a das crianças a quem o dia pertence desde 1924, são 52%. O feriado não tem por que cair. O que não se sustenta num Estado laico é a palavra oficial.

No nicho do santuário, atrás do vidro, a imagem tem quarenta centímetros. O manto cobre quase tudo. A cera que uma mulher derreteu em 1717 continua lá dentro, segurando a cabeça no corpo.

A entrevista foi concedida por e-mail ao mestre e doutorando do Programa de Pós-Graduação (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em auctoritas sacrata pontificum Thiago Gama.

Daniele Menozzi (Foto: Reprodução YouTube).

Eis a entrevista.

Em Il potere delle devozioni o senhor mostra que a piedade popular não é matéria inerte que o poder se limita a recolher, mas um recurso que só se torna politicamente disponível sob certas condições. A devoção brasileira nasce de baixo, em 1717, quando três pescadores retiram do rio Paraíba do Sul uma pequena imagem de terracota escura, em dois pedaços. Que condições tornam uma devoção desse tipo disponível ao uso político, e o que, numa devoção popular, resiste à captura e nunca se deixa instrumentalizar por inteiro?

A relação entre devoção popular e poder político é complexa, inclusive porque entre esses dois termos entra em jogo um terceiro fator, a autoridade eclesiástica. São os responsáveis pelo governo da Igreja que desempenham papel determinante tanto no reconhecimento oficial de uma forma de piedade quanto na sua ressignificação ao longo do tempo.

Em linhas gerais, eu diria que, na era da sociedade de massas, uma devoção se torna apetecível para os detentores do poder político na medida em que é difundida. O êxito dela torna desejável a sua instrumentalização para ampliar o apoio popular. A dificuldade da captura política está, depois, na relação de uma devoção com os valores evangélicos. O Evangelho representa uma inversão dos critérios com que habitualmente operam os agentes políticos.

O senhor trabalhou, em La Chiesa e le immagini, sobre o estatuto da imagem na tradição católica. Aqui o objeto de culto é uma imagem pequena, de terracota, escura, retirada de um rio por homens paupérrimos, e a cor dessa imagem foi lida ao longo do tempo de modos opostos, ora como sinal de proximidade com os pobres e com os escravizados, ora como detalhe puramente material que não se deveria enfatizar. Lendo em conjunto esse livro e o que o senhor escreve em Li avrete sempre con voi, como o senhor julga a relação entre a materialidade do objeto devocional e a construção posterior do seu significado social?

A veneração das imagens, que não pertence a todas as confissões cristãs, já que a reforma protestante, por exemplo, a interpreta como um incentivo à superstição, oferece uma oportunidade relevante, a de identificar num artefato aspectos que facilitam ao fiel a passagem do dado material à dimensão espiritual.

Esse processo em geral se liga aos elementos mais propriamente visuais do objeto devocional (basta pensar na valorização de Nossa Senhora Desatadora dos Nós por parte do papa Francisco). Mas obviamente qualquer aspecto da imagem pode ser posto em operação com essa finalidade.

No caso brasileiro, dois elementos parecem significativos, a pobreza do artefato, acentuada pela fratura em dois pedaços, enquanto a cor a vincula aos escravos, e a pobreza daqueles que a encontraram. Torna-se imediata, então, a remissão da devoção por essa imagem a um dos temas que, desde o Concílio Vaticano II, representam referência central para a reforma eclesial, o de uma Igreja pobre e para os pobres.

Em 31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro, então capital, o cardeal Sebastião Leme proclama solenemente Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil diante de uma multidão imponente, e ao lado do altar está Getúlio Vargas, no poder havia sete meses como chefe de um governo provisório sem legitimação eleitoral. A imagem deixa pela primeira vez o seu santuário e viaja de trem até a capital. Depois de ter reconstruído, em Sacro Cuore, como a consagração de uma nação a um culto funciona como instrumento de restauração cristã da sociedade, o senhor reconhece nessa cena o mesmo dispositivo, e o que muda quando a nação consagrada é uma república e o chefe de Estado é um poder de fato em busca de reconhecimento?

O projeto de restauração cristã da sociedade, que caracterizou a Igreja Católica da metade do século XIX à metade do século XX, tem como objetivo a construção, nos vários países, de um Estado confessional.

Diversas formas de piedade, em particular o culto ao Sagrado Coração, são mobilizadas em apoio a esse objetivo. Mas nesse desenho entra também o incentivo a um culto nacional específico que manifeste aos olhos da opinião pública a conformação do ordenamento público de um determinado país à doutrina católica.

Essa perspectiva se traduz na identificação de um referente celeste como padroeiro especial de uma nação. Não é por acaso que o Código de direito canônico de 1917 incentive a proclamação de padroeiros nacionais. Pouco importa o regime, republicano ou monárquico, e pouco importam os homens que detêm o poder. O que aparece como relevante é a soldagem entre autoridade espiritual e autoridade civil na homenagem comum a uma figura elevada a símbolo da nação. A cerimônia prefigura a formação de um Estado cristão.

O 12 de outubro brasileiro mantém juntas pelo menos quatro memórias sobrepostas, a chegada de Colombo às Américas, a aclamação de Pedro I como imperador em 1822, o encontro da imagem no rio e, por fim, a festa litúrgica da padroeira. Depois de “Giudaica perfídia”, onde o senhor mostrou com que lentidão a liturgia deposita e retém conteúdos históricos muito além do momento que os produziu, como o senhor lê a construção de uma data que condensa memórias tão heterogêneas, e qual dessas memórias, a seu ver, acaba por governar as outras?

As memórias que se sedimentam numa mesma festa litúrgica entram na polissemia que caracteriza todos os símbolos. Cada uma dessas memórias encerra um significado que pode ser valorizado em relação ao momento em que a festa se celebra.

Nisso desempenham papel importante os detentores do poder, religioso e político, porque orientam a opinião pública para o aspecto que, naquela conjuntura, consideram preferível sublinhar. Mas permanece sempre, nas comunidades eclesiais, um espaço de autonomia para reelaborar o sentido da celebração de um aniversário.

Em suma, todos os atores públicos podem recorrer às memórias depositadas nos aniversários, para fazer emergir da polissemia delas os temas que julgam funcionais às necessidades e aos projetos que consideram decisivos numa determinada situação. Tornam-se depois cruciais, para a socialização dessas escolhas, os meios de comunicação de massa.

Nos anos da ditadura militar a padroeira do Brasil é incorporada ao cerimonial do regime e saudada em celebrações públicas como padroeira da chamada revolução de 1964. Em Chiesa, pace e guerra nel Novecento o senhor reconstruiu o caminho lento e conflituoso rumo a uma deslegitimação religiosa dos conflitos. O que significa, dentro desse caminho, que uma figura mariana seja alçada a patrona de um golpe militar, e por que justamente a devoção mariana se presta com tanta facilidade a essa operação?

Do ponto de vista histórico, o culto mariano foi caracterizado por uma forte plasticidade. A Rainha da paz e a Senhora das vitórias (militares) convivem ao longo do tempo, fornecendo, conforme o caso, legitimação religiosa a exigências específicas em que se encontram as comunidades eclesiais.

No fundo, até a devoção mariana por excelência, o Rosário, esteve ligada à vitória da frota cristã em Lepanto contra os turcos, e foi depois evocada em apoio a batalhas em que os católicos se empenhavam contra inimigos sucessivamente identificados como os “novos turcos”, por exemplo os partidários da Revolução Francesa ou o comunismo.

Eu diria, porém, que nas últimas décadas, em conexão com a aquisição progressiva da consciência do nexo indissolúvel entre paz e Evangelho, o uso belicista do culto mariano se tornou cada vez mais inoponível.

É verdade que a componente católica do nacionalismo cristão americano não deixou de mobilizar a Virgem em apoio aos desígnios imperiais belicosos da atual administração dos Estados Unidos, mas é muito significativo que, na oração a Maria pela paz, Leão XIV, um papa americano, invoque a ajuda dela para que os fiéis aprendam o exercício da não violência.

A lei que institui a festa nacional é assinada pelo general Figueiredo em 30 de junho de 1980, ou seja, no mesmo dia em que João Paulo II chega ao Brasil, e poucos dias depois, em 4 de julho, o papa consagra a nova basílica de Aparecida. O regime militar estava então em fase de abertura controlada e em relações difíceis com uma parte do episcopado. O que cada uma das duas partes obtinha daquela coincidência, e o gesto papal deve ser lido como aval, como indiferença à conjuntura política local, ou como reivindicação de um terreno próprio?

O pontificado de João Paulo II foi caracterizado pela reproposição de um estreito entrelaçamento entre catolicismo e nação. Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja tinha enveredado por um caminho de atualização eclesial baseado na valorização dos direitos humanos subjetivos. O pontífice polonês sublinhou que era preciso, ao lado dessa linha e com a mesma determinação, promover também os direitos das nações.

Na visão dele, de fato, a religião constitui um traço distintivo e inapagável das identidades nacionais. Parece-me que aqui encontram explicação os gestos realizados na viagem ao Brasil de 1980.

Independentemente do regime e dos seus representantes, o papa considera que a promoção do nexo entre nação e catolicismo constitui o caminho que, no mundo contemporâneo, a Igreja deve tomar para reforçar a sua presença.

Em I papi e il moderno o senhor lê o catolicismo contemporâneo através da estratégia dos pontífices diante da modernidade. A viagem papal, inaugurada em escala planetária justamente por Wojtyla, parece um instrumento de governo antes mesmo de ser um ato pastoral, e o santuário nacional é o seu ponto de ancoragem natural. Na sua leitura, quanto a revalorização das devoções populares sob aquele pontificado foi projeto deliberado de recristianização, e quanto foi resposta defensiva à perda do enraizamento territorial da Igreja?

Na visão do papa Wojtyla incide fortemente a trajetória do catolicismo polonês, que ele leu através do filtro da própria biografia. Uma nação como a polonesa, que sofreu ao longo da história diversas tentativas de cancelamento, pôde resistir à potência das forças desagregadoras porque tirou da fé religiosa o alimento espiritual de uma resistência que no fim se revelou vitoriosa.

Daí ele extraiu a convicção de que a proposta do nexo entre catolicismo e nação constitui a resposta adequada ao problema que julga central no catolicismo contemporâneo, o desenvolvimento de uma secularização que aos olhos dele aparece, com uma análise na verdade um pouco simplista, como um secularismo voltado a apagar a dimensão religiosa da esfera pública. Nessa ótica, o projeto global de reconstrução cristã da sociedade e a valorização dos enraizamentos nacionais da fé católica se integram plenamente.

Em "Crociata" o senhor segue a vida longa de uma ideologia de combate que atravessa dois séculos e chega até o pontificado de Francisco. No Brasil, hoje, a padroeira nacional é invocada em chave abertamente belicosa por setores da direita religiosa e, ao mesmo tempo, contestada por parte do mundo evangélico, que na mesma imagem vê um ídolo. O senhor reconhece nesse uso contemporâneo ela estrutura ideológica que reconstruiu, ou estamos diante de algo novo, nascido da concorrência entre confissões num mercado religioso aberto?

No âmbito cristão, a sacralização dos conflitos passou da dimensão propriamente bélica, típica das cruzadas medievais, para confrontos em que já não se assume o recurso à violência das armas, e em que se utiliza o caráter performativo da linguagem da guerra santa. Está na base disso a convicção de que assim é possível obter ampla mobilização popular.

Quem recorre a ela acredita ganhar, desse modo, o apoio necessário para alcançar determinados objetivos políticos e por vezes também religiosos. Trata-se de uma retórica com usos múltiplos por parte dos mais díspares atores públicos do mundo contemporâneo.

Não encontro, portanto, novidades particulares na situação brasileira. A verdadeira novidade seria introduzir no discurso público uma proposta de libertação da linguagem em relação às incrustações religiosas que remetem à sacralização dos conflitos, para favorecer, inclusive pelo uso das palavras, uma convivência civil pacífica.

O texto da lei brasileira declara o 12 de outubro feriado nacional destinado ao culto público e oficial da padroeira. Nestas semanas, em plena campanha, voltou a circular o Projeto de Lei 2.623/2007, que propunha substituir na lei a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” e que foi rejeitado quanto ao mérito e arquivado em 2008. À luz de Chiesa e diritti umani, como o senhor avalia a posição de um Estado que mantém no próprio ordenamento o culto oficial de um símbolo confessional, e a proposta de circunscrevê-lo seria um avanço da laicidade ou uma declaração de guerra simbólica disfarçada de técnica legislativa?

A inserção das festividades religiosas no calendário civil oficial dos Estados tem uma história longa. Começa na era do reformismo setecentista, quando os governos, reivindicando autonomia em relação à Igreja para fixar a lista dos dias festivos, procedem à redução deles. O separatismo liberal avoca depois ao poder político a competência exclusiva na matéria. Mas, quando se apresentam formas de colaboração entre os dois poderes, a inclusão de uma solenidade religiosa nas festas civis traduz os equilíbrios políticos alcançados entre eles em cada ocasião. O mundo contemporâneo está cada vez mais orientado para a laicidade, e nesse quadro a distinção entre os dois calendários, o religioso e o civil, aparece como meta desejável.

Aliás, desse modo seria bem mais fácil aos católicos desmistificar a sacralização do poder que com muita frequência se liga às cerimônias civis. As celebrações da religião política da nação muito pouco têm em comum com o Evangelho.

Neste ano o 12 de outubro cai no meio de uma campanha eleitoral, e não é difícil prever que o santuário será destino de candidatos e cenário de imagens destinadas à difusão imediata. Olhando a história longa que o senhor estudou, o que acontece a uma devoção quando ela entra no calendário eleitoral, perde ou ganha capacidade de agregação, e um culto consumido desse modo pode ser devolvido aos seus fiéis, ou trata-se de um desgaste sem retorno?

O percurso dos cultos é cárstico. Ao longo do tempo eles podem se atenuar, até quase desaparecer das práticas sociais, mas depois ressurgem em consequência de redescobertas ressemantizadoras que os tornam correspondentes a novas necessidades sociais.

Ligam-se à dimensão simbólica da vida humana, cujos itinerários, tanto na sociedade civil quanto na Igreja, são imprevisíveis. Mas o conhecimento histórico das instrumentalizações políticas das devoções é um antídoto indispensável para avaliar as manipulações e as distorções a que os detentores do poder submetem a religião.

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