Esquerda tem medo do próprio horizonte revolucionário, e por isso será exterminada pela extrema-direita.
O artigo é de Alexandre Francisco, advogado, mestre em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
A população brasileira decretou, no dia 4 de outubro de 2026, a morte da esquerda. A esquerda moderada. A esquerda que faz a gestão neoliberal do capitalismo. Uma esquerda que, sem sombra de dúvidas, se acomodou no poder.
Eis o resultado. Um campo político que fala a língua do mercado com sotaque social. Que promete responsabilidade fiscal antes de prometer dignidade. Que pede desculpas pela própria existência.
O eleitor percebe. Pode não saber nomear, e mesmo assim sente. Entre a cópia e o original, escolhe o original. Entre quem administra a sua precariedade e quem promete incendiar tudo, escolhe o incêndio. Assistimos ao Brasil pegar fogo na mão da extrema-direita. Fogo na Amazônia!
A extrema-direita oferece ao menos um inimigo, uma raiva, um sentido. A esquerda oferece uma planilha e tem um medo voraz de se radicalizar, ou seja, o pêndulo não está equilibrado.
Radical vem de raiz. Ser radical não é gritar mais alto, nem quebrar vitrines. É ir à raiz das coisas. Nas últimas décadas, a esquerda brasileira aprendeu a fazer o contrário. Aprendeu a permanecer na superfície, a administrar. Gerir; conciliar. Gerir a pobreza sem tocar na riqueza, conciliar o trabalhador com o banco, o sem-terra com o agronegócio, a periferia com a polícia que entra nela atirando. Gerir. Conciliar. Gerir de novo.
Carl Schmitt, insuspeito de qualquer simpatia progressista, dizia que o político nasce da distinção entre amigo e inimigo. A esquerda esqueceu essa lição. Quer ser amiga de todos. Do empresário, do pastor, do latifundiário, do centrão. Quem é amigo de todos não representa ninguém. E quem não representa ninguém perde. Talvez não tenhamos visto o trem vindo em nossa direção, ou, incrédulos, tenhamos achado que ele nunca chegaria.
Walter Benjamin escreveu que, em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo que quer se apoderar dela. A tradição da esquerda já foi apoderada. Virou memória de museu, foto de comício antigo, camiseta vermelha guardada no armário até a próxima eleição.
O fracasso, então, não é um fim. É um convite. Um convite a voltar à raiz. Um convite a disputar o real, e não apenas o voto. A revolução brasileira precisa estar no horizonte. Sem isso, nada mudará de forma significativa.
Ou a esquerda aceita o convite, ou continuará perdendo para quem teve a coragem de ser radical do lado errado. Quantas derrotas ainda serão necessárias? Quantos mortos?