05 Outubro 2026
"Erramos. Erramos no curto prazo porque as pesquisas quantitativas não mediram o movimento brusco que ocorreu em 48 horas. Pela primeira vez, o prazo de 72 horas não foi a piada de sempre dos bolsonaristas", escreve Rudá Ricci, em artigo enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Rudá Ricci, é graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. É diretor geral do Instituto Cultiva, professor do curso de mestrado em Direito e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara e colunista político da Band News. É autor de Terra de Ninguém (Unicamp, 1999), Dicionário da Gestão Democrática (Autêntica, 2007), Lulismo (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto, 2010) e coautor de A Participação em São Paulo (Unesp, 2004), entre outros.
Eis o artigo.
Acordei sobressaltado. Meu celular tocava o alerta da Defesa Civil. Estávamos em risco, dado que o céu desabou nesta manhã aqui em Belo Horizonte.
Nada mais simbólico que este fim de noite. Após as eleições de ontem, o Brasil saiu dos trilhos. É muito pior que 2018. Agora, não teremos o STF ou o Senado para conter os arroubos fascistas do bolsonarismo. Não com a força de antes.
Não foi a "direita" que se legitimou pelas urnas. Foi a extrema-direita. Um extremismo ignorante e raivoso. Muito pior que Milei, esse Peter Pan desengonçado que corre sem rumo pelos pampas.
Aqui, a extrema-direita sai consagrada pela democracia. Os vencedores prometem frear, rasgar, rasurar e moer o regime. É muito pior.
O Nordeste – um território, quem dera, uma instituição – fará o cordão sanitário.
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Erramos. Erramos no curto prazo porque as pesquisas quantitativas não mediram o movimento brusco que ocorreu em 48 horas. Pela primeira vez, o prazo de 72 horas não foi a piada de sempre dos bolsonaristas. Em 72 horas, candidatos ao Senado puxaram parte do país para o precipício. Sabíamos que Brasil decide nos dias finais em quem vota para o Senado.
O Senado brasileiro é esse monstrengo que já foi composto por quem provava ser rico. Não precisava ser amigo de Vorcaro. Tinha que ser o similar dele. Sem saber para que serve, o brasileiro decide aos 43 minutos do segundo tempo em quem votar para o Senado. E foi neste momento que eles agiram.
Erramos porque não soubemos convencer do perigo que agora mergulharemos. Será muito pior que o resultado da pandemia. Erramos porque brincamos de defender uma institucionalidade que o brasileiro não deseja, não se orgulha e que o humilha.
Erramos porque não falamos com quem priorizamos. Falamos por eles ou para eles, mas não lhe demos a voz. Tanto que o Brasil deram uma baciada de votos para uma igual: a jovem negra Ana Elisa, de 21 anos e petista. Ana Elisa é sorridente, humilde, carregada pelo congado e pelas redes sociais.
Rede social nunca esquecemos. Mas, congado é coisa do Brasil Profundo que deixamos para lá, como fazemos ao folclorizar a cultura popular.
Erramos porque não conseguimos falar do futuro. Só falamos do passado que NÓS fizemos PARA os outros. O brasileiro para quem fizemos no passado quer, hoje, um futuro que o orgulhe e lhe dê dignidade. Porém, insistimos em falar do passado porque destacamos a importância que nos damos. Fomos NÓS que construímos para eles.
Eu próprio errei. Inclusive, nas minhas análises. Não percebi a movimentação surda dos que procuravam outras Ana Elisa. Minha filha dizia que votaria nela e eu me perguntava quem era ela. Lembrava vagamente de Caetano Veloso pedindo votos para ela.
Mas, onde eu estava por só conhecer Ana Elisa pelo vídeo de Caetano Veloso? No celular, evidentemente.
Percebi tardiamente - nas últimas 72 horas - que havia um movimento surdo, como um deslizamento, que se dirigia à aventura extremista.
Terei que estudar mais e visitar mais as periferias, numa espécie de humildade etnográfica.
Perceber nas últimas 72 horas o movimento político que as pesquisas do Instituto Locomotiva revelam há anos não me orgulha foi como não ligar os pontos e me fixar num único ponto. Meu erro de leitura indica o erro político que muitos progressistas cometeram.
O primeiro passo é ouvir a voz que o eleitor depositou nas urnas. Eleitor nunca erra. Se não acreditamos nisso, damos razão ao elitismo e ao autoritarismo. Ele disse que erramos e que não criamos empatia. A comunicação falhou, o programa não cativou, os ouvidos estavam tapados.
Será uma longa jornada de volta. Não nos enganemos. Será longo. Por aqui, a tormenta que gerou o alarme virou um pouco mais que um chuvisco.
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