A religião volta ao centro das eleições. Entre Nossa Senhora Aparecida, desinformação e liberdade religiosa, a fé se transforma novamente em instrumento de disputa política. Enquanto o Brasil se aproxima das urnas, diferentes projetos de país entram em confronto. Quais são as pautas sociais que atravessam as eleições de 2026? E como esses temas aparecem nesse debate?
Do outro lado do mundo, a guerra em Gaza também chega às telas do Ocidente. O documentário Naza expõe a destruição, a violência e as marcas deixadas sobre o povo palestino. Entre conflitos e disputas de poder, uma pergunta permanece: como falar em esperança e bem comum quando o ódio e a divisão parecem ocupar cada vez mais espaço?
Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.
Há poucos dias das eleições, uma polêmica tomou conta do cenário eleitoral e colocou em evidência um dos principais artifícios utilizados pela extrema-direita na política: a religião.
Na última quinta-feira, 24 de setembro, uma informação começou a viralizar na internet, alegando que, supostamente, o candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, pretendia retirar o título de Padroeira do Brasil, que pertence a Nossa Senhora Aparecida. Em seguida, o candidato negou que tinha intenção de fazer esse movimento caso fosse eleito.
De acordo com a reportagem de Ludmila Pizarro, publicada pela Agência Pública, a notícia não surgiu inteiramente do nada. Ela explica que essa relação foi feita por conta do Projeto de Lei apresentado pelo então deputado Professor Victório Galli, pastor evangélico e arquivado em 2008. A proposta alterava a lei do feriado de 12 de outubro, trocando “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, conforme a Agência Pública mostrou.
O assunto ocupou as redes sociais e o debate público, se transformando em um dos maiores eventos políticos de 2026. Conforme o monitoramento das redes feito pelo Instituto Democracia em Xeque, as menções ao caso da Nossa Senhora Aparecida tiveram 1,3 milhão de publicações e 12,4 milhões de interações entre 23 e 27 de setembro.
Apesar disso, rapidamente o debate nas redes sociais ultrapassou a “fake news” inicial e se desenvolveu no embate político sobre liberdade religiosa, intolerância, defesa da padroeira e impacto eleitoral.
Enquanto o país segue dividido nas pesquisas, com margens apertadas entre os principais candidatos desde pelo menos 2014, a religião continua sendo tratada como atalho de confiança diante do eleitorado. Essa realidade exposta no bloco anterior desse podcast e descrita nesta frase pela jornalista Manuelle Dias, em reportagem publicada no Jornal da UFRGS, indica um pouco da atual situação da eleição presidencial.
Para os pesquisadores Joanildo Albuquerque Burity e Eduardo Dullo, o uso da religião é impactante, mas não decide sozinho quem será o novo presidente do Brasil. Como sugerem na reportagem: “essa disputa convive com renda, região, memória política e, cada vez mais, com um debate moral que atravessa também o campo religioso, colocando conservadores e progressistas em lados opostos”.
Para a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, em artigo publicado pela Folha de São Paulo, o Brasil vai às urnas dividido entre quem realiza sonhos e quem se vê deixado para trás. Ela explica esse fenômeno através de uma categoria que a pesquisadora define como “classes aspiradoras”.
“A capacidade de aspirar se expandiu dramaticamente entre os brasileiros nas últimas décadas. Essa mudança transformou o país e produziu efeitos não óbvios e contraditórios, cujas consequências políticas ainda não foram plenamente compreendidas, mas certamente vão estar em jogo nestas eleições. Há quase três décadas, venho documentando os sonhos atrelados ao consumo e ao trabalho dos brasileiros. Desenvolvi o conceito de classes aspiracionais para me referir aos segmentos populares que aprenderam a desejar outros futuros, ampliaram as suas expectativas e, agora, querem — e sentem que merecem — mais.
Nessas eleições, Rosana explica que a extrema direita surfa no desejo legítimo de autonomia e o transforma em liberdade individual, algo que foi bastante promovido pela ascensão social dos últimos governos progressistas Na campanha, Flávio Bolsonaro se concentra no poder de compra, no endividamento, no Estado taxador e na violência. Para ela, o desafio da esquerda é de desenhar políticas públicas robustas que preservem o desejo legítimo de autonomia e conforto e ampliem a proteção do Estado às classes aspiracionais.
Já comentado anteriormente neste podcast, o documentário israelense “Naza” está provocando protestos e uma forte reação política. Dirigido pelos jornalistas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, a obra reúne depoimentos anônimos de 24 soldados e integrantes da inteligência israelense que participaram da ofensiva militar na Faixa de Gaza. O filme revela como funcionavam sistemas de vigilância, inteligência artificial e seleção de alvos utilizados pelo Exército de Israel.
O próprio nome do documentário vem de um termo utilizado pelos militares israelenses para indicar a estimativa de “efeitos colaterais” de uma operação. Esses efeitos seriam qualquer civil que pudesse aparecer durante um ataque, independente de humanidade, a ordem final era matar.
Em suas redes sociais, o diretor Yuval Abraham escreveu: “É dever de todo cidadão cujo governo comete crimes saber, e de todo soldado que os testemunhou denunciá-los. Há milhares de soldados aqui que assistirão ao filme e reconhecerão o que é retratado nele de forma pessoal. Mesmo que seja assustador, é seu dever encontrar uma maneira de testemunhar o que você viu”.
“Naza” ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza e recebeu uma ovação de 25 minutos. Na Itália, o documentário chegou aos cinemas em 28 de setembro e levou mais de 60 mil pessoas às salas apenas no primeiro dia. Mais de cem sessões ficaram esgotadas, e o período de exibição, que inicialmente seria de apenas três dias, foi ampliado.
Mas o sucesso nas bilheterias contrasta com a reação dentro de Israel. O governo de Benjamin Netanyahu atacou publicamente o filme e seus diretores. Netanyahu chegou a defender medidas para retirar a cidadania de pessoas que, segundo ele, difamassem soldados israelenses, os chamando de “traidores” A extrema-direita israelense também promoveu ataques contra os cineastas.
Em meio a um cenário marcado por polarização política e disputas em torno de diferentes projetos de sociedade, o Papa Leão XIV defendeu uma mensagem que passa pela paz, pelo diálogo e pela compreensão. Em artigo publicado pela revista Domani, o cientista político italiano Mario Giro, destacou a posição do pontífice diante do avanço da extrema-direita e a defesa de uma igreja que não transforme a religião em instrumento de divisão.
A mensagem do Papa passa pela recusa do ódio e pela defesa do diálogo e da dignidade humana. Em sua viagem recente à França, quando questionado sobre a ascensão da extrema-direita, respondeu: “Não é uma expressão autêntica do cristianismo. Os valores do Evangelho não são sobre ódio e divisão, mas sobre compreensão, compaixão e acompanhamento”.
A questão, portanto, não está apenas em quem ocupa o poder, mas em quais valores orientam a vida coletiva. E essa discussão nos leva a um conceito: o bem comum. Mas o que é o bem comum?
O conceito se originou durante o século 13, quando o frade italiano Tomás de Aquino retomou e reinterpretou o pensamento do filósofo Aristóteles. Na Europa cristã daquela época, o “bonum commune” servia como uma forma de conciliar duas dimensões da vida: a celestial, ligada a religião, e a terrena, ligada à vida em sociedade.
Em entrevista ao jornal francês La Croix, o pesquisador Lino Castex afirma que a crise da modernidade contribuiu para recolocar o bem comum no centro das discussões políticas.
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