O pequeno zero. Artigo de Fernando Altemeyer Junior

Foto: Jim Gade/ Unsplash

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01 Outubro 2026

"Descobrindo e compreendendo que somos pequenos e frágeis, e sabendo do nosso nada, podemos alegres e confiantes, nos jogar nos braços do Bom Deus, e curtir esse momento de colo divino, em que Deus, com imenso carinho, amor e misericórdia, trata-nos como um pai maternal e nos preenche com Seu amor", escreve Fernando Altemeyer Junior, assistente doutor na PUC-SP, em artigo publicado no seu Facebook, 30-09-2026.

Eis o artigo.

Muitas pessoas marcam nossas vidas e se tornam inesquecíveis. Seus gestos, suas palavras, seus sentimentos, suas lutas e seus sonhos nos inspiram e fortalecem. Além de nossos familiares, há aqueles que passam por nossa vida, ou em nossas leituras, mexendo com nossas entranhas. Não podemos mais viver sem pensar neles. Ficamos matutando a cada dia naquilo que fizeram na prática de suas vidas, como amaram e quais utopias carregaram na mente e no coração. Três dessas pessoas luminosas que tocaram meu coração foram Santa Teresinha de Lisieux, carmelita francesa; Irmã Maria C. Correa Lovera, religiosa paraguaia, das Franciscanas Missionárias de Maria; e dom Luciano Mendes de Almeida, jesuíta, arcebispo de Mariana (MG) e antes bispo auxiliar de São Paulo.

Esses três “santos” penetraram os segredos divinos e mexeram com nossa vida. Pretendo compartilhar aquilo que deles aprendi sobre Deus e o amor aos pequenos.

Santa Teresinha, um grãozinho de areia

Santa Teresinha de Lisieux (1873-1897), nascida com o nome de Marie Françoise Thérèse Martin, desde criança, quis ser pequena e assumiu em suas cartas costumeiramente o uso de curiosos diminutivos. Ela se denominava com frequência de “o pequeno zero”, “grão de areia” e “gota de orvalho”. Para Santa Teresinha, o diminutivo e a pequenez possuíam uma fonte espiritual muito profunda. Sua mística e sua ligação com Deus passavam por esta pequena via. Ela dizia que, se alguém pretendesse subir a “Montanha do Amor”, deveria, como bom alpinista, abandonar o orgulho, a pressa, as vaidades ou grandezas. Quanto mais alta for a montanha, mais humilde deve ser o alpinista. Para o alpinista do amor, a subida deve ser precedida do reconhecimento da pequenez e a fidelidade e disciplina da ascensão se darão por esta serenidade de cada passo. Deus não consegue entrar em um coração fechado ou orgulhoso. Para Santa Teresinha, a pequenez é um meio efetivo e privilegiado de assemelhar-nos a Jesus. Ser pequeno é a porta para ser ainda mais amado e querido por Deus. Santa Teresinha ensinava que, para viver o caminho para Deus, é preciso permanecer como uma criança diante de Deus (cf. Mt 18,1-4).

Na carta 196, ela escreveu: “Apraz a Jesus mostrar-me o único caminho que conduz a fornalha divina, esse caminho é o abandono da criancinha, que adormece sem medo nos braços de seu Pai...” Não é só um reconhecer-se pequena do ponto de vista racional ou mental, como ato lógico e intelectual, que é o primeiro passo, mas, querer ficar pequeno, como identidade e atitude vital. Ou seja, descobrindo e compreendendo que somos pequenos e frágeis, e sabendo do nosso nada, podemos alegres e confiantes, nos jogar nos braços do Bom Deus, e curtir esse momento de colo divino, em que Deus, com imenso carinho, amor e misericórdia, trata-nos como um pai maternal e nos preenche com Seu amor.

Santa Teresinha de Lisieux (1873-1897) (Foto: Reprodução)

Na caderneta amarela, escrita por Madre Inês de Jesus (?-1951), com relatos dos diálogos com Santa Teresinha, nos meses de abril a setembro de 1897, podemos compreender o que ela entendia por ser pequena: “É reconhecer seu nada, esperar tudo do Bom Deus, como uma criancinha espera tudo do seu pai; é não se inquietar com nada, não guardar nada de riqueza. Mesmo entre os pobres, dá-se à criança o que lhe é necessário, mas, logo que ela cresce, seu pai não quer mais alimentá-la e lhe diz: ‘Trabalhe agora, você pode bastar-se a si mesma’. É para não ouvir isto que não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar minha vida, a vida eterna do céu. Fiquei, pois, sempre pequena, não tendo outra preocupação senão a de colher flores, as flores do amor e do sacrifício e de oferecê-las ao Bom Deus para seu prazer” (CJ 6.8). O ato de ser pequeno torna-se uma situação existencial teológica e espiritual profunda.

A imagem teresiana mais bela é aquela do pequeno zero com que Teresinha se autodenomina pessoal e teologicamente. Eis o que escreve em uma carta datada de 9 de maio de 1897, a padre Adolphe Roulland (1870-1934): “De fato, o zero por si mesmo não tem valor, mas, colocado ao lado da unidade, ele se torna poderoso, contanto que fique no lado certo, após e não antes!... É justamente lá que Jesus me colocou e espero ficar aí para sempre... Eu lhe peço, pois, meu irmão, que queira enviar sua bênção ao pequeno zero, que o Bom Deus colocou ao seu lado” (CT 226). Claramente não são masoquismo nem irrelevância invertida. Sem qualquer pessimismo, Santa Teresinha assumiu a realidade de ser alguém que é quebrada, consumida, sabendo que, no céu, o grãozinho ou o zero está destinado a brilhar (cf. CT 74). Ao dizer-se gota de orvalho, disse que o orvalho só existe à noite e, assim que o sol dardeja seus raios, o orvalho destila pérolas, cintila luz e se muda em um leve vapor (cf. CT 141). Santa Teresinha valorizava tanto a pequenez e leveza do orvalho, que até chamava a Sagrada Eucaristia de orvalho (cf. CT 240).

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