Aposta global em eletrificação pode prolongar uso de fósseis, alertam ONGs

Foto: Wikimedia Commons

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26 Setembro 2026

Novo relatório da IEA diz que mundo pode alcançar meta de 35% de eletrificação até 2035, mas entidades cobram que sejam as renováveis a atender demanda.

A reportagem é de Aldem Bourscheit, publicada por ((o))eco, 24-09-2026.

A eletrificação da economia é a grande aposta da presidência da 31ª Conferência do Clima da ONU (COP 31), que este ano será realizada na Turquia sob a inédita dobradinha entre o país euro-asiático e a Austrália. Tanto é que a presidência dupla solicitou um relatório sobre o assunto para a Agência Internacional de Energia (IEA). O documento, divulgado na terça-feira (22), indica que a meta de 35% de eletrificação até 2035 é "praticamente alcançável". Entidades civis, no entanto, alertam que parte do ganho se perderá, caso não sejam as energias renováveis as responsáveis por alimentar parte da demanda por eletricidade.

A preocupação reside no fato de que o relatório apresenta um cenário em que a geração de gás natural poderia aumentar em cerca de 2.000 TWh até 2035, de acordo com a matriz energética baseada nas políticas atualmente estabelecidas. Além disso, o documento prevê um cenário em que a energia nuclear retorna com força, podendo passar dos cerca de 3 GW atuais para mais de 40 GW até 2035.

Para a Climate Action Network (CAN), rede com mais de 2.500 organizações em mais de 130 países, não basta olhar para o quanto o consumo se tornou elétrico. A meta "35 por 35", proposta pela presidência da COP31, só trará ganhos reais para o clima se for impulsionada por energia renovável sustentável. "E isso não inclui energia nuclear ou combustíveis fósseis", diz a rede.

Para a gerente de transição energética da CAN, Janet Milongo, o quanto o mundo se afasta do uso de petróleo, carvão e gás natural também deve ser considerado para se avaliar o sucesso da eletrificação. "Precisamos questionar o que gera essa eletricidade, quem tem acesso a ela, quem detém a infraestrutura e se ela está ajudando as comunidades a se afastarem dos combustíveis fósseis", pontuou.

A 350.org reforçou que a nova demanda deve ser atendida por renováveis e acompanhada da saída de cena dos combustíveis fósseis. A organização lembrou ainda que Turquia e Austrália defendem a eletrificação sem a mesma força com que pedem um menor uso de carvão, petróleo e gás.

"A Conferência deve liderar medidas para um futuro movido a energias renováveis, e não prolongar o sistema de combustíveis fósseis que está impulsionando a crise", defendeu Fenton Lutunatabua, líder do Programa para o Pacífico e Caribe da 350.org. "Não há espaço para mais expansão dos fósseis, ponto final".

A coalizão europeia Beyond Fossil Fuels alertou que, sem regras claras, a meta pode ampliar o uso de fósseis sob o rótulo de "ação climática". Isso aconteceria, por exemplo, se novas térmicas a gás fossem instaladas para atender ao maior consumo de carros, aquecimento e fábricas eletrificadas.

"Devemos garantir que a agenda de eletrificação não ocorra em detrimento da transição urgente para longe dos combustíveis fósseis", disse o ativista Duygu Kutluay à Beyond Fossil Fuels. "Como anfitriã da COP31, a Turquia tem a responsabilidade de promover ambas as agendas em conjunto".

Já o World Resources Institute avaliou que a eletrificação pode reduzir emissões e deixar países menos expostos a crises e oscilações nos preços de petróleo e gás. Mas ressaltou que isso depende de eletricidade mais limpa e acessível, redes de transmissão reforçadas e eficientes — que percam menos energia.

"O sucesso será medido não só pela rapidez com que a eletrificação cresce, mas também pela capacidade de reduzir as contas mensais, ampliar o acesso a serviços essenciais e criar oportunidades econômicas para trabalhadores e comunidades", ponderou Nick Wayth, diretor global do Centro Polsky do WRI para a Transição Energética.

Eletrificação é destaque em NY

O debate sobre eletrificação ganhou força nesta semana em Nova York, na Assembleia Geral da ONU e na Climate Week, em meio à alta dos preços dos combustíveis fósseis — agravada pela crise no Estreito de Ormuz — e ao crescimento do consumo por carros, refrigeração, indústrias e data centers.

Foi nesse cenário global que a IEA lançou o relatório Electrification, produzido a pedido de Turquia e Austrália. O documento aposta que, com tecnologias disponíveis e reforço de políticas públicas, é economicamente viável saltar de 23% para 35% a fatia da eletricidade no consumo global de energia até 2035, na linha do que propôs a presidência turca da COP31.

Segundo a IEA, a demanda por eletricidade aumentou mais de 3% ao ano entre 2015 e 2025 — o dobro do crescimento da demanda geral de energia. Isso resulta do aumento da demanda por refrigeração, eletrodomésticos, bens manufaturados, serviços digitais e inteligência artificial (IA). Reflete também a rápida expansão da eletrificação do transporte, com veículos elétricos (VEs) representando quase 25% das vendas de carros novos em 2025, ante menos de 1% em 2015.

A IEA estimou que uma eletrificação mais rápida reduziria o consumo mundial de petróleo em cerca de 18 milhões de barris diários e que os países importadores economizariam mais de US$ 400 bilhões anuais em combustíveis fósseis, até 2035. Outro cálculo apontou que as emissões de transportes, prédios e indústrias cairiam cerca de 40% no período.

O problema é que a Agência considera diferentes combinações de fontes de geração, incluindo a nuclear e as fósseis, como alertaram as organizações da sociedade civil.

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