25 Setembro 2026
As mudanças climáticas estão afetando a produção de alimentos no Rio Grande do Sul, desde o calendário de plantio até mesmo o que chega à mesa dos gaúchos.
A reportagem é de Matheus Piccini, publicada por ExtraClasse, 24-09-2026.
Na propriedade da família do produtor de leite Michel de Pive, o clima deixou de ser apenas uma preocupação entre tantas outras da rotina rural. A quantidade de chuva, o calor e a duração das estiagens passaram a interferir diretamente na disponibilidade de pastagem, na alimentação dos animais e na produção de leite. O planejamento da propriedade precisa agora considerar uma variável cada vez mais imprevisível: a sucessão de eventos extremos.
“A principal mudança que a gente percebe é que o clima ficou muito mais imprevisível”, relata Michel. Segundo ele, períodos prolongados sem chuva têm sido seguidos por precipitações intensas em pouco tempo. “Também tivemos dias de calor muito forte, que acabam prejudicando bastante os animais. Para quem trabalha com leite, isso pesa diretamente, porque se falta pasto e água, a produção de leite cai”, afirma Michel.
A experiência do produtor se repete em diferentes regiões do Rio Grande do Sul. Para a extensionista rural da Emater/RS-Ascar, Thaís Michel, o estado vive uma sequência de eventos climáticos adversos, sem que muitas famílias tenham tempo de se recuperar entre um episódio e outro. As enchentes de maio de 2024 atingiram mais de 206 mil propriedades rurais em 456 municípios. A estiagem de 2024/2025 afetou mais de 205 mil propriedades em 310 municípios. Na segunda quinzena de julho deste ano, outro evento atingiu aproximadamente 30 mil propriedades em 101 municípios.
“Na agricultura familiar, a propriedade é, ao mesmo tempo, local de moradia, trabalho, produção de alimentos e geração de renda”, explica Thaís. Por isso, o impacto de um desastre ultrapassa a perda de uma lavoura. Uma ponte destruída, um galpão danificado, uma nascente comprometida ou uma área de cultivo perdida podem representar anos de trabalho e investimento jogados fora.
Produzir ficou mais arriscado
A extensionista Thaís Michel faz levantamento com drone em área afetada pela enchente. (Foto: Emater/RS-Ascar/Divulgação)
A mudança mais evidente está no calendário agrícola. O agricultor prepara o solo, compra insumos e organiza a produção, mas pode não conseguir plantar porque a terra está seca demais ou encharcada. Depois, uma estiagem ou onda de calor pode atingir a cultura em uma fase decisiva.
Para Michel, a imprevisibilidade também tornou mais difícil planejar a atividade leiteira. “Hoje a gente planeja, mas sempre fica com aquela dúvida se o clima vai deixar a gente produzir como esperava”, afirma.
“Quando falta chuva, o pasto não se desenvolve e precisamos comprar mais ração e alimento para os animais”, explica. O resultado é uma combinação que aperta o orçamento familiar: “A produção de leite diminui, mas o custo para manter as vacas aumenta. A renda acaba ficando menor justamente quando as despesas aumentam”.
Os números da Emater dão a dimensão do problema. Durante a estiagem de 2024/2025, a produtividade da soja caiu, em média, 38,44% nas áreas avaliadas, enquanto as perdas nas pastagens nativas e cultivadas chegaram a aproximadamente 40%. Na produção de leite, a redução estimada foi de 61,39 milhões de litros, afetando mais de 15 mil produtores.
Nas enchentes, além da destruição de lavouras e instalações, há erosão, perda da camada fértil do solo, assoreamento e contaminação de fontes de água. Em maio de 2024, mais de 4.500 comunidades rurais tiveram dificuldades para escoar a produção. Na propriedade de Michel, as enchentes podem comprometer diretamente a comercialização. “Estragam pastagens, lavouras e estradas e podem impedir que o leite seja recolhido”, relata.
“Quando uma família é atingida, a preocupação não termina com aquela safra. Ela precisa pensar em como continuará produzindo, como pagará os investimentos realizados e se terá condições de permanecer na atividade”, afirma Thaís.
Dívidas para continuar na terra
Para Douglas Cenci, presidente da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Instituições Financeiras do RS (Fetraf-RS), os eventos climáticos agravaram uma situação financeira que já pressionava os agricultores familiares. Perdas de produção, danos à infraestrutura e degradação do solo reduziram a capacidade de investimento e aumentaram a dependência do crédito.
Segundo Cenci, muitos agricultores acabam tomando novos empréstimos para manter a produção e cumprir compromissos anteriores. A renegociação das dívidas tornou-se uma das principais reivindicações do movimento sindical.
A falta de recursos também aparece na experiência de Michel. “Muitas famílias querem se adaptar, mas não têm recursos para fazer os investimentos necessários”, garante.
O dirigente chama atenção ainda para mudanças na estrutura produtiva. Agricultores estão deixando atividades consideradas mais vulneráveis ou que exigem investimentos que já não conseguem realizar. Alternativas como fruticultura, horticultura e agroindustrialização esbarram na falta de assistência técnica, de recursos e canais de comercialização.
🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google
A Fetraf-RS defende sistemas produtivos mais resilientes, com maior cobertura do solo, diversificação e conservação da água. Mas Cenci alerta: “Se tivermos, no próximo período, um cenário parecido com o que temos vivido nos últimos anos, podemos registrar um grande volume de falências e de êxodo dos agricultores familiares”.
O clima está mais extremo
Calor excessivo reduz a produção de leite. (Foto: Acervo Pessoal/Extra Classe)
Para o meteorologista e especialista em risco climático Glauco Freitas, o problema não pode ser resumido à ideia de que o Rio Grande do Sul ficará simplesmente mais seco ou mais chuvoso. O que ganha importância é a combinação entre aumento das temperaturas, maior variabilidade e ocorrência de eventos extremos.
O impacto sobre a agricultura depende, sobretudo, de quando o fenômeno acontece. Uma chuva concentrada em poucos dias pode ser seguida por longo período sem precipitação. Uma estiagem durante a floração ou o enchimento dos grãos pode comprometer uma lavoura, enquanto chuva excessiva pode impedir plantio ou colheita, e ondas de calor afetam culturas e animais.
Freitas defende investimentos em prognósticos climáticos de médio e longo prazo. Para o produtor, saber se choverá no dia seguinte é insuficiente. Ele precisa de informações para decidir quando plantar, qual cultura escolher e como administrar a água disponível. O meteorologista considera necessário estruturar serviços de inteligência climática aplicada à agricultura.
A adaptação já começou
Apesar das dificuldades, agricultores vêm modificando práticas. Na propriedade de Michel, a adaptação já faz parte da rotina. “Hoje, procuramos fazer mais reserva de alimento para os animais, cuidar melhor das pastagens e garantir água para os períodos de seca”, conta.
O produtor também passou a dar maior atenção à conservação do solo. “Um solo bem cuidado consegue segurar mais água quando chove e sofre menos quando vem uma estiagem”, explica. Outra estratégia é diversificar a produção para reduzir a dependência de uma única atividade.
A Emater orienta famílias a investir em cobertura do solo, rotação de culturas, adubação verde, diversificação produtiva, escalonamento do plantio, proteção de nascentes, reservação de água e recuperação de áreas degradadas.
Para a agricultura familiar, porém, adaptação envolve decisões difíceis para famílias já endividadas. A Fetraf-RS defende uma combinação de assistência técnica, crédito, seguro agrícola e investimentos em infraestrutura e tecnologias de convivência com os eventos extremos.
O medo de perder o que foi construído
Para Michel de Pive, a imprevisibilidade também tornou mais difícil planejar a atividade leiteira. (Foto: Acervo Pessoal/Extra Classe)
Conforme Michel, a maior preocupação está na dificuldade de prever como será o próximo ano. “A gente sempre conviveu com seca, chuva forte e frio, mas agora parece que os extremos estão acontecendo com mais frequência”, afirma.
“O medo é investir uma vida inteira em uma propriedade e, em um ou dois eventos, perder uma parte importante do que foi construído”, diz.
A preocupação também envolve a sucessão rural. “Preocupa ver os jovens sem perspectiva de continuar no campo. Se a produção ficar cada vez mais arriscada e não houver apoio, muitos agricultores vão acabar abandonando a atividade”, projeta Douglas.
Conforme Cenci, a saída de agricultores do campo provoca consequências que ultrapassam as propriedades. Quando uma família abandona uma atividade ou deixa a propriedade, perde-se também conhecimento, diversidade e capacidade local de produzir alimentos.
O que chega à mesa
Os efeitos ultrapassam os limites das propriedades. A agricultura familiar tem papel importante na produção de leite, feijão, milho, mandioca, frutas e hortaliças que abastecem mercados locais, feiras, agroindústrias e programas de alimentação.
Um estudo publicado em 2025 na Revista de Política Agrícola, da Embrapa, analisou 88 estudos científicos sobre os efeitos das mudanças climáticas na produção de alimentos no Brasil. Entre os impactos identificados, estão redução da produtividade, aumento de pragas e doenças, perdas de safras e maior insegurança alimentar.
Entre as projeções reunidas pelo trabalho, estão possíveis perdas de 20% na produtividade do arroz e de 10% na produção de soja, com o Rio Grande do Sul entre os estados potencialmente mais afetados.
De acordo com os últimos relatórios da Emater, os impactos – instabilidade na oferta e alta nos preços – podem ser sentidos principalmente no arroz, feijão, milho, trigo, leite, carnes, ovos, frutas e hortaliças. Os alimentos frescos tendem a responder mais rapidamente, porque são perecíveis e dependem de transporte contínuo. Já a perda de milho e de pastagens repercute posteriormente no leite, na carne e nos ovos, pelo aumento do custo da alimentação animal. O efeito não está apenas na redução da produção: enchentes podem impedir a colheita e o escoamento, enquanto estiagens e ondas de calor reduzem a produtividade e a qualidade. Com eventos mais frequentes, a tendência é ter maior instabilidade na oferta e nos preços, e não necessariamente o desaparecimento de um alimento específico.
Apoio para permanecer na terra
Douglas Cenci, da Fetraf-RS, reunido com produtos. (Foto: Fetraf-RS/Divulgação)
A Emater aposta na adaptação das propriedades e no acompanhamento técnico. A Fetraf-RS cobra políticas públicas capazes de financiar essa transformação. A meteorologia aponta para a necessidade de antecipar riscos e melhorar a informação disponível aos produtores.
Douglas resume o que considera necessário: “Precisamos de apoio para recuperar o que foi perdido, mas também para nos preparar para o próximo evento”. Entre as medidas, cita crédito com condições melhores, seguro agrícola, assistência técnica, acesso à água e investimentos para tornar as propriedades mais resistentes ao clima.
Na ponta dessa cadeia, estão agricultores como Michel de Pive, para quem as mudanças climáticas deixaram de ser uma discussão sobre o futuro. Elas já fazem parte da conta diária da propriedade: na quantidade de pasto disponível, no custo da alimentação do rebanho, na previsão da próxima chuva e na decisão sobre quanto é possível investir.
A agricultura familiar gaúcha sempre conviveu com as incertezas do clima. O desafio agora é que a velocidade e a intensidade dessas mudanças demandam mais do que a capacidade individual de adaptação. Exigem conhecimento, planejamento e políticas públicas capazes de fazer com que permanecer na terra continue sendo uma possibilidade concreta para as próximas gerações.
Leia mais
- Mudanças climáticas devem impactar agricultura do RS nas próximas décadas
- Pesquisa mostra pressões sobre agricultura familiar e reforça debate sobre novo modelo no RS
- Qual o futuro da agropecuária? A agricultura familiar continuará na vanguarda da nossa existência
- Agricultura familiar. População jovem caiu pela metade na maioria das regiões rurais do RS em 20 anos
- Coalizão alerta para impactos do El Niño sobre próxima safra
- Emergência climática exigirá que Brasil repense sua estratégia econômica, incluindo o agronegócio, alerta Paulo Artaxo
- Café, carne, frutas: crise climática afeta inflação de alimentos
- Como a mudança climática afetará a produção de alimentos no Brasil
- Novo Regime Climático: a agricultura não só terá de se adaptar, como também terá de mudar
- Aquecimento tem impactos mais severos na agricultura familiar
- Mudar escolhas alimentares ajuda a combater as mudanças climáticas
- Mudança climática diminuirá a produtividade das principais safras
- Além de impactar a produtividade das lavouras, a mudança climática reduz o valor nutricional dos alimentos
- Sistema alimentar global é a principal causa da perda de biodiversidade