Da revolução dos carros elétricos à revolução no campo. Artigo de Alexandre Mansur e Susana Berbert

Foto: Steven Weeks/ Unsplash

Mais Lidos

  • Trump tem dado um apoio muito forte à eleição de governos de extrema-direita e está também chantageando o Brasil, alerta a jornalista

    Eleições 2026 em xeque pelo fascismo americano: os vermes da extrema-direita e sua ameaça constante à democracia. Entrevista especial com Cristina Serra

    LER MAIS
  • Como seria o país de Flávio Bolsonaro. Artigo de Luís Nassif

    LER MAIS
  • “É mais fácil gerar consenso social contra o corpo trans ou migrante do que contra a destruição da biosfera”. Entrevista com Paul Preciado

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

25 Setembro 2026

Assim como a China aproveitou a oportunidade para liderar o mercado de veículos sem combustão, o Brasil tem tudo para ser a nova potência da agricultura regenerativa.

O artigo é de Alexandre Mansur e Susana Berbert, publicado por ((o))eco, 24-09-2026.

Alexandre Mansur é diretor de projetos do Mundo Que Queremos.

Susana Berbert é coordenadora de projetos do Mundo Que Queremos.

Eis o artigo.

Já entendemos que estamos vivendo uma transição acelerada do mercado de veículos a combustão para os elétricos. Se você já não tem um carro elétrico agora, talvez o seu próximo modelo seja de ligar na tomada. Uma volta de carro pela cidade, das capitais até no interior do Brasil, é o suficiente para perceber: são cada vez mais os modelos elétricos e híbridos que dominam o asfalto, levando na lataria nomes de marcas chinesas difíceis de pronunciar. Até pouco tempo desconhecidas por aqui, hoje competem diretamente com Volkswagen, Chevrolet, Toyota e General Motors. Essa transição para os elétricos também está acontecendo para os ônibus urbanos. E começando com os caminhões pequenos e médios das cidades. Tudo isso abrindo espaço no Brasil – e no resto do mundo – para marcas chinesas.

Esse espaço conquistado não é acaso, reflete, antes, uma disputa industrial que a China começou a construir há mais de uma década atrás, quando apostar em veículos elétricos ainda parecia, para boa parte do setor, uma escolha prematura e aventureira. Enquanto montadoras tradicionais seguiam otimizando o motor a combustão, o governo chinês tratou o elétrico como prioridade de Estado: subsídios de longo prazo, investimento pesado em cadeia de baterias, exigência regulatória que forçou escala de produção e uma política industrial que tratava o carro elétrico como a próxima geração do produto. O resultado do posicionamento visionário está nas ruas do mundo inteiro. Um carro elétrico chinês compete em preço com o carro a combustão, e ainda escapa da variável mais instável do orçamento de qualquer motorista: o preço do combustível, refém permanente de conflitos, sanções e decisões geopolíticas que ninguém no posto de gasolina controla. É esse o resultado quando um país entende, antes dos concorrentes, que uma mudança de fundo está em curso e decide liderá-la.

Uma transição acelerada disruptiva pode estar começando a acontecer na agricultura. Assim como ocorreu com a revolução no mercado automobilístico, a nova revolução no campo também é uma combinação de ofertas tecnológicas, configurações econômicas, mudanças geopolíticas e necessidades ambientais. Podemos estar diante de uma nova revolução verde, para uma agricultura sustentável ou regenerativa.

Ao analisar o mercado e as lavouras, há, cada vez mais, sinais claros de que caminhamos para uma transição comparável. Há alguns anos nota-se uma exigência maior do mercado com a origem dos alimentos. Consumidores e países relevantes buscam mais rastreabilidade e origem livre de desmatamento. A União Europeia já regulamenta essa exigência por lei. Ao mesmo tempo, eventos climáticos extremos puxam os investimentos para incorporação de critérios ambientais na análise de risco de crédito rural e oferecimento de seguros. Os próprios resultados produtivos, direto da lavoura, chamam atenção e apontam para necessidade de transição para sistemas de cultivo sustentáveis. A ciência do solo avança em torno de manejo regenerativo, sequestro de carbono e sistemas agroflorestais com dados que mostram aumento da produtividade, diminuição de perdas, resiliência climática e economia com insumos.

Em conjunto, esses sinais apontam para uma direção difícil de ignorar: o movimento de transição existe e já começou. Há, no entanto, tempo de liderá-lo. E o Brasil pode tomar esse posto.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

Ao falarmos de agricultura, estamos diante de um país que já é uma das maiores potências agrícolas do planeta. Detemos conhecimento técnico consolidado, capacidade produtiva em escala, diversidade de biomas e sistemas produtivos e uma quantidade crescente de produtores que já estão construindo, em diferentes regiões e cultivos, a prova de que, em época de eventos climáticos extremos, a produção competitiva e segura encontra-se necessariamente na regeneração ambiental.

O erro, no entanto, seria tratar a agricultura regenerativa como um nicho, um braço do agro tradicional, restrito apenas a produtores de pequena escala ou a um segmento de consumidores dispostos a pagar mais por um produto com apelo ambiental. Essa leitura simplista é a mesma que, na indústria automotiva, tratou por anos o carro elétrico como curiosidade de nicho, até ele se tornar concorrente direto de preço e desempenho. O agro brasileiro tem hoje a oportunidade de evitar esse erro e reconhecer que a agricultura regenerativa é o próximo passo – ou nas palavras do agro: a próxima fronteira – do setor. Antes que a transição seja imposta de fora para dentro por regulação europeia, exigência de fundos internacionais ou barreira comercial, é necessário entender que esse é um caminho posto e que ele pode ser aberto de dentro para fora, a partir da capacidade produtiva que o país já tem.

Mas para isso a compreensão do produtor apenas não basta. É preciso investimento coordenado em pesquisa e extensão técnica voltada a manejo regenerativo, prioridade na liberação linhas de crédito rural e seguros e condições diferenciadas de acesso à mercado. É a mesma lógica que levou a China a subsidiar baterias, exigir escala de fabricantes e construir, em uma década, uma cadeia produtiva capaz de dominar um mercado que ela não liderava.

É justamente essa transformação que a FERA, Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura, busca acelerar. Com uma rede que reúne cerca de 14 mil produtores em todo o Brasil, a FERA lançou a campanha “A Próxima Safra do Agro é Regenerativa”, colocando no centro dessa discussão quem já está fazendo a mudança acontecer: produtores que transformaram seus sistemas de produção e estão colhendo os resultados dessa decisão. São histórias reais de aumento de produtividade, maior eficiência, redução de riscos e fortalecimento da capacidade produtiva das propriedades. Os dados e as experiências que começam a se acumular mostram que existe um terreno fértil para que o setor invista nessa transformação e colha com abundância.

O Brasil já é uma potência agrícola. Agora é preciso liderar essa transformação e posicionar a agricultura regenerativa como a grande vantagem competitiva do agro brasileiro.

Leia mais