Dieta da miséria impressiona e comove Lula. Artigo de Zuenir Ventura

Caravana da Cidadania passa pelo Vale do Ribeira em 1995 (Foto: autoria desconhecida | Acervo Instituto Lula)

Mais Lidos

  • Nossa Senhora Aparecida: patrimônio cultural do povo brasileiro. Artigo de Célio Turino

    LER MAIS
  • Dinheiro, fé e antifeminismo: como a direita disputa o voto das mulheres cristãs em 2026. Entrevista com Tabata Tesser

    LER MAIS
  • Sociólogos analisam como a imagem de Deus é explorada nas campanhas políticas e mobiliza eleitorado de direita no país

    Deus, urnas e extrema-direita: a religião como instrumento político na disputa eleitoral. Entrevista especial com Christina Vital da Cunha e Ricardo Mariano

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

25 Setembro 2026

Como homenagem ao jornalista e escritor recém-falecido, postamos um texto publicado em 1993 no “Jornal do Brasil”, sobre “A Caravana da Cidadania”, liderada por Luís Inácio Lula da Silva.

O artigo é de Zuenir Ventura, publicado por Jornal do Brasil, em 1993, e reproduzido por A Terra é Redonda, 24-09-2026.

Zuenir Ventura (1931-2026) foi jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Autor, entre outros livros, de 1968: o ano que não terminou (Editora Planeta).

Eis o artigo.

Águas Belas, PE – No trevo que leva da BR-423 a Águas Belas, a 95 quilômetros de Garanhuns, Lula encontraria a personagem mais impressionante da primeira etapa da travessia do Sertão – desta vez uma mulher. O grupo que parou o ônibus parecia mais disposto e organizado do que o anterior, aquele que exibiu para a caravana a fila da seca: latas vazias à espera de um carro-pipa.[i]

Em lugar de latas, muitos agora carregam na mão ou mastigavam uma planta que os habitantes do Sul Maravilha só conhecem de foto. Era a palma, um tipo de cactos com menos espinho, que os animais apreciam, mas que Lula, quando teve que provar, achou com gosto de “pneu velho”, como se o novo fosse mais saboroso.

Calango

Aquelas pessoas comendo palma diante dos fotógrafos lembrava outra cena de alguns anos atrás – a do camponês segurando pelo rabo o alimento então na moda por aqui: o calango. Nesse calvário, só os símbolos mudam. Durante esta seca descobriu-se também outra forma de alimento animal. É o chupa-pedra, um peixinho que se agarra ao fundo dos açudes até a última gota d’água – um correspondente animal da palma.

“É a descoberta de sobreviver por meio do que sobrevive na lama”, explica o geógrafo Aziz Ab’Saber, que está acompanhando a caravana. Ele conhece tudo da região. O Professor, como todos os chamam, funciona como assessor de Lula e como sábio dessa tribo mambembe. Tudo se pergunta a ele.

Uma das preocupações na viagem é com a degenerescência dessas formas mais resistentes de alimento, vegetais e animais. Normalmente sereno, Aziz Ab’Saber fica indignado: “Daqui a pouco esses miseráveis vão ser obrigados a comer cadáveres”.

Até os jornalistas, que são pagos para deixar a emoção em casa, se arrepiaram quando numa elevação onde há um cruzeiro assistiram ao nascimento de uma líder. Ali, fora improvisado um palanque com a ajuda do carro de som da caravana. A primeira voz feminina que saiu do alto-falante tinha uma determinação incomum: “Nóis num tá aqui por boniteza. A gente tamus passando fome”.

O vocabulário era de subsistência, como a vegetação daqui, onde nada é desperdiçado. A gramática era estropiada como a roupa que a oradora usava. A semântica era às vezes tão difícil quanto o sentido dessas vidas. Mas aquele discurso – aquele começo de fala principalmente, introduzindo um toque inesperado de agressiva ironia – foi um choque.

Os jornalistas, que em geral aproveitam a hora dos discursos para relaxar – porque são repetitivos – se voltaram para o improvisado palanque.

“O discurso dela é superior ao discurso dos grandes líderes”, disse mais tarde o professor Aziz Ab’Saber, desafiando: “Não sei se o presidente da República é capaz de articular tão bem o seu raciocínio”.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

Grande parte da assistência trazia a cabeça coberta de panos como proteção contra o sol das 10 horas da manhã. Pouco antes, esse sol e a fome haviam derrubado uma das participantes, Sebastiana, socorrida pelo próprio Lula.

Mesmo quem estava atrás podia perceber a firmeza e dignidade do tom daquela voz. Sua dona era uma mulher baixa, de 32 anos, nove filhos, a cor de um índio e a bravura de uma mãe coragem.

Em poucos minutos, Maria do Socorro Lira Feitosa resumiu sua história, a história de sua comunidade, feita de miséria, desemprego e fome. Quando soube da passagem da Caravana da Cidadania, ela resolveu reunir mais de 100 companheiros e formou sua própria “caravana”. Às 11 horas da noite anterior, começaram a descer as oito léguas, ou 24 quilômetros, de serra.

Juntaram folhas de palma, um resto de farinha, alguns tocos de velas e se puseram na estrada, “recebendo o relento da noite”, como ela diz parecendo uma personagem saída de Morte e vida severina. Pararam algumas vezes, descansaram um pouco, mas às 7 horas da manhã já estavam na luta. Foram primeiro à prefeitura, mas o prefeito enxotou-os. Dirigiram-se então para o trevo, onde barrariam a Caravana da Cidadania.

Agora, Maria do Socorro segurava o microfone pela primeira vez e anunciava que, além de providências, como mais vagas nas Frentes de Trabalho, ela “exigia” imediatamente comida e um caminhão para conduzi-los de volta: “Nóis num vorta de apés”, garantiu e ninguém duvidou, inclusive Lula, que improvisou logo uma comissão, nomeando como integrantes o senador Eduardo Suplicy e o deputado Alcides Modesto. Socorro, claro, faria parte também. O pessoal ficaria ali à espera. A Caravana seguiria porque tinha hora marcada em Canapi, a próxima parada.

Os soldados do 9º Batalhão da PM (que “acompanharam” a caravana de Maria do Socorro até o trevo) iam permanecer por mais algum tempo em tensão. O cabo Climério dizia: “O Lula precisa fazer alguma coisa”. Alguma coisa era uma coisa só: que evitasse o saque.

 Maria do Socorro – “quem tem fome tem pressa”[ii]

Naquela manhã, o prefeito José de Julião, do PFL, podia esperar tudo, até o saque da feira-livre ali perto da prefeitura. Cada vez mais isso estava acontecendo nas cidades vizinhas. Ele só não podia contar com aquela cena: Maria do Socorro invadindo seu gabinete.

Acompanhada de um senador, de um deputado e da imprensa, Maria do Socorro não era esperada. A mesa do prefeito estaca cheia de papéis e ele assinava o que parecia ser receitas médicas, uma atrás da outra. Na verdade, eram mesmo receitas. Ele estava autorizando o aviamento, enquanto umas 50 pessoas esperavam em fila do lado de fora.

Quando viu Maria do Socorro entrar, levantou-se surpreso. Dessa vez não havia hostilidade em sua atitude. Mas é possível que o rosto daquele nordestino moreno tivesse ficado mais claro naquele momento.

Percebendo que a situação estava tensa, Eduardo Suplicy assumiu os trabalhos em seu ritmo arrastado, capaz de aplacar qualquer turbulência, o que acabou sendo providencial. Disse que a missão era de paz e falou de seu projeto de renda mínima – um plano complexo cuja explicação ali aumentou a fome mesmo de quem não estava, como Maria do Socorro, por 12 horas sem comer.

O prefeito reclamou da insuficiência de recursos, da dimensão da miséria que o cercava, de uma cidade que, chamada de “a capital do feijão”, há dois anos importava o produto do Paraná. Pelo jeito, não ia resolver nada.

A situação era de fato a que no Sul virou moda chamar de emblemática: a autoridade chorando miséria de barriga cheia na frente da própria miséria. Tive vontade de interrompê-lo: “prefeito Zé de Julião: vosmicê me adesculpa, mas nóis num tá aqui por boniteza”. A frase viraria um bordão politicamente incorreto da caravana de jornalistas. Contra a lentidão baiana, havia sempre um gaiato para dizer: “garçom, nóis num tá aqui por boniteza”.

Como político, Eduardo Suplicy sabia que havia uma providência imediata a tomar: arranjar o caminhão e comprar a comida. Passou uma nota de Cr$ 500 mil a Luiz Haroldo, da comissão: sua contribuição para o fubá. Que outros dessem sua parte.

Na difícil situação de mediador entre a miséria e o poder, o senador Suplicy era o retrato de que, por menos que, por menos que o Brasil tenha mudado, mudou alguma coisa. Há 100 anos, um Matarazzo não ia atrás de Socorro nos cafundós do sertão. Imagine o que diria o senhor conde.

Ninguém pessoalmente aceitou o repto do senador do PT, mas o prefeito não podia recusar uma contribuição insignificante. Determinou então que se comprassem 300 pães para aqueles incômodos famintos.

O prefeito impunha uma condição salomônica: a compra tinha que ser dividida entre as duas padarias da cidade: 150 em cada uma. Depois se soube a razão da equanimidade. Um dos presentes era o dono de uma padaria – o sujeito que ficara no canto, rápido nas contas, tantos pães divididos por tantos miseráveis, tanto; tantos quilos de fubá, tanto. Além de, digamos, padeiro, Evilásio Galego é o secretário de finanças. Zé de Julião não queria mais confusão – a oposição não o acusaria de beneficiar um auxiliar.

 Pão-duro

Evilásio Galego não se coçou. Enfiar a mão no bolso ou dar pão de graça não era com ele. Quando já no carro se soube quem era ele, tive vontade de intervir uma segunda vez: “Ô seu padeiro pão-duro”. Às 11.30 da manhã, Maria do Socorro deixa a prefeitura. Apesar do cansaço e da fome, não explicava por que não aceitara o café e o copo de água que lhe foram oferecidos insistentemente no gabinete. Passaria de novo pela feira-livre e não ia aceitar nem uma fruta. Podia ser orgulho, timidez, pudor. Mas podia ser a decisão de não comer enquanto os companheiros não comessem. Ela não disse.

Lá dentro, Maria do Socorro se comportara com moderação. Teve a delicadeza de não cobrar a expulsão de antes e de explicar ao prefeito que queria apenas ser recebida porque estava lutando por um direito.

Alguém mais xiita poderia acusá-la de um certo abrandamento diante da autoridade – até compreensível porque o senador, o deputado e o repórter daí a pouco iam embora e ela ficaria. Mas não era isso. Maria do Socorro foi respeitosa em meio àquela liturgia de poder, mais quando foi preciso, numa hora crítica, teve a altivez de dizer ao prefeito no mesmo tom decidido do discurso do trevo: “A gente temus pressa porque quem tem fome tem pressa”.

Quando a comissão voltou para prestar contas, os 200 famintos – os 100 de Maria do Socorro mais outros 100 que se agregaram – continuavam lá sob o sol. “O prefeito nos recebeu muito bem”, começou. Mas estava emocionada. O senador pegou o microfone e, como demorasse a anunciar o resultado, houve impaciência. “Num tou aguentando mais”, desabou Sebastiana, a que desmaiara. “Sem nada, num vorto não”, disse um velho seco como um galho de caatinga.

 Abandono

A caravana teve que se retirar antes da chegada dos pães e do fubá. Parece que tudo correu bem, se é que se pode achar que tudo correu bem quando a fome de 12 horas de um cidadão é saciada com pão e fubá.

Não houve tempo para se saber mais de Maria do Socorro. Na volta, ela contou que em criança fora abandonada, mas uma freira a recolhera. Pôde assim estudar um pouco até se casar. “O que aprendi tá dentro, aplico fora”, informou no banco de trás da camionete. Com o pouquinho que estudou, Maria do Socorro Lira Feitosa pôde fazer tudo aquilo naquela manhã: a barriga estava vazia, mas a cabeça não.

A Caravana da Cidadania, liderada por Luís Inácio Lula da Silva, está refazendo o caminho que o presidente do PT percorreu quando, ainda criança, migrou de Garanhuns, em Pernambuco, para São Paulo.

Notas

[i] Edição e notas de Paulo Henrique Fernandes Silveira. Esse texto de Zuenir Ventura foi publicado em duas partes pelo Jornal do Brasil: VENTURA, Zuenir (1993a). Dieta da miséria impressiona e comove Lula, Jornal do Brasil, 3 de maio de 1993, p. 3. Disponível aqui; VENTURA, Zuenir (1993b). Maria do Socorro, líder que o sertão forjou, Jornal do Brasil, 4 de maio de 1993, p. 10. Disponível aqui.

[ii] Dias antes de publicar esses artigos sobre a Caravana da Cidadania, Zuenir Ventura acompanhou Herbert José de Souza, o Betinho, numa visita à Favela do Lixão, em Duque de Caxias, RJ. Lá eles foram recebidos por Dom Mauro Morelli. Esse era o início da Campanha contra a Fome, que teve como lema a frase de Maria do Socorro: “quem tem fome tem pressa”. VENTURA, Zuenir (1993c). Brasil da miséria dá lição de esperança, Jornal do Brasil, 25 de abril de 1993, p. 16. Disponível aqui. No período da pandemia, essa frase também foi utilizada como lema na campanha do MTST em auxílio às comunidades carentes. 

Leia mais