A última jornada dos ninguém. Artigo de José Luis Pinilla

Foto: Anadolu Agency

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19 Setembro 2026

"Quando a política age depois dos mortos, é tarde demais para eles. Pode-se discutir procedimentos, reforçar fronteiras, atribuir culpas, anunciar medidas ou abrir investigações. Tudo isso pode ser necessário. Mas nenhuma decisão subsequente traz uma vida de volta. Nenhuma declaração ressuscita uma criança. Nenhum debate devolve a uma mãe a voz que ela tanto desejava ouvir."

O artigo é de José Luis Pinilla, jesuíta e assistente social, publicado por Religión Digital, 17-09-2026.

Eis o artigo.

Há algo ainda mais doloroso do que contar os mortos: perguntar o que foi feito — e o que não foi feito — para evitar essas mortes. Porque por trás das 145 mortes que a ONG Caminando Fronteras registrou durante a crise de Ceuta, não há apenas uma tragédia humana; há também uma pergunta que permanece sem resposta: o que foi feito para evitar que essas pessoas morressem? A organização contabilizou 78 corpos recuperados em Ceuta e outros 67 em território marroquino. É terrível demais para que alguém se dê ao luxo de ignorar a situação.

E aqui começa a verdadeira dor. Porque uma tragédia desta magnitude não pode terminar com uma contagem de mortos, declarações políticas ou uma sucessão de manchetes que desaparecem rapidamente das telas. A questão permanece muito mais simples e muito mais perturbadora: como é possível que 145 pessoas morram tentando chegar à costa e que, após a tragédia, continuemos a falar mais sobre política, fronteiras, controles e responsabilidades do que sobre as vidas que foram perdidas?

Há também algo particularmente insuportável após uma tragédia: a batalha pela narrativa. Antes mesmo que as lágrimas sequem, começa o esforço para explicar o ocorrido de uma forma que permita a todos se eximirem da responsabilidade. Alguns apontam o dedo para outros — por exemplo, em relação ao tratamento de menores —, alguns falam de fronteiras, outros de crime organizado, outros de decisões externas, outros de circunstâncias inevitáveis. E enquanto as palavras buscam culpados distantes, os mortos permanecem exatamente onde caíram.

Não se trata de uma sociedade democrática não buscar explicações. Pelo contrário: precisamos conhecer os fatos, comparar versões e determinar responsabilidades com base em evidências e garantias. Mas é bem diferente usar a narrativa para diluir o impacto da tragédia, transferir a responsabilidade ou fazer com que ela sempre pareça pertencer ao outro lado, especialmente àqueles com menos capacidade de impor publicamente a sua versão. Quem tem instituições, porta-vozes e meios de comunicação consegue fazer com que sua interpretação alcance um público maior e seja disseminada mais rapidamente. Mas quem morreu no mar não tem porta-voz! Quem perdeu um filho na fronteira não tem direito a uma coletiva de imprensa. E quem vive em situação de vulnerabilidade dificilmente consegue competir pelo significado da sua própria tragédia.

Por isso, devemos ter cautela com narrativas precipitadas. Antes de decidir quem é o culpado, precisamos saber o que aconteceu. Antes de atribuir responsabilidades, precisamos saber quais informações estavam disponíveis, quais decisões foram tomadas e quais alternativas existiam. E antes de transformar uma tragédia em uma discussão política, devemos lembrar algo fundamental: não havia discussões ali, apenas pessoas. Quando a narrativa consegue se sobrepor aos fatos, os mortos podem ser sepultados sob uma avalanche de palavras que falam sobre eles sem ouvi-los.

A Cruz Vermelha e a ONG Sur Sur distribuíram suprimentos básicos de alimentos na última segunda-feira em Ceuta. (Foto: Iván Zambrano/Ep)

Cento e quarenta e cinco. Dito assim, parece apenas um número. Uma cifra que cabe numa linha de jornal e pode desaparecer no dia seguinte sob outra notícia. Mas um número também é uma das maneiras mais eficazes de esconder o lado humano de uma tragédia. Porque 145 não é apenas 145. São 145 vidas, 145 histórias interrompidas, 145 famílias, 145 rostos e vozes que alguém amava e esperava. Quando dizemos "145 mortos", corremos o risco de esquecer que, antes de morrerem, eram pessoas. E que ninguém deveria morrer duas vezes: uma vez debaixo d'água ou numa fronteira, e novamente sob o peso do esquecimento.

Talvez seja por isso que Eduardo Galeano e seu texto comovente, Os Ninguém, nos vêm à mente. Galeano escreveu sobre aqueles seres humanos condenados a existir à margem do nosso olhar, aqueles que têm tão pouco espaço na história que até mesmo sua dor parece insignificante. Ele os chamou de "filhos de ninguém, donos de nada" e escreveu que "eles não têm nome, apenas um número". Há uma terrível relevância nessas palavras quando pensamos naqueles que morrem tentando cruzar uma fronteira. Primeiro, eram pessoas com nomes e sobrenomes; depois se tornam migrantes; mais tarde, corpos; finalmente, uma estatística.

Mas eles não eram ninguém em particular. Eram alguém para alguém. E essa deveria ser uma das questões mais profundas diante de qualquer tragédia: quem pronunciará seus nomes agora? Quem se lembrará de que por trás de cada corpo havia uma história, uma família, uma esperança? O mar não distingue nomes, nacionalidades ou documentos. Nem a morte. Somos nós que estabelecemos essas distinções e que, com muita frequência, acabamos nos acostumando a elas.

O que mais incomoda é que a questão não deveria começar depois da morte, mas antes. Antes que alguém pule na água e quem ou o que o empurre. Antes que alguém se agarre a um colete salva-vidas. Antes que uma multidão desesperada corra em direção a uma fronteira. Onde estavam as políticas capazes de impedir que o desespero chegasse a esse ponto? Onde estavam a previsão, a proteção e os mecanismos capazes de responder a uma situação de tamanha magnitude?

Porque quando a política age depois dos mortos, é tarde demais para eles. Pode-se discutir procedimentos, reforçar fronteiras, atribuir culpas, anunciar medidas ou abrir investigações. Tudo isso pode ser necessário. Mas nenhuma decisão subsequente traz uma vida de volta. Nenhuma declaração ressuscita uma criança. Nenhum debate devolve a uma mãe a voz que ela tanto desejava ouvir.

Movimentação de migrantes em Ceuta, Espanha. (Foto: Anadolu Ajansi)

De uma perspectiva cristã, essa desigualdade é ainda mais insuportável. O Evangelho não fala de seres humanos importantes e seres humanos secundários. O homem ferido na estrada não precisa apresentar seus documentos para despertar a compaixão do samaritano. O samaritano se aproxima porque há um homem ferido. Nada mais. E nada menos. Talvez essa seja a primeira coisa que somos chamados a resgatar: a capacidade de reconhecer que a dignidade de uma pessoa não depende de seu passaporte, sua religião, seu local de nascimento ou da fronteira que tentava atravessar.

É por isso que precisamos de memória. Não uma memória que se transforme em ressentimento, mas uma memória que nos torne mais humanos. Lembrar dos mortos significa reconhecer que eles estiveram aqui, que existiram, e que a morte deles não pode simplesmente se tornar uma estatística. A memória é, de certa forma, o último lar que podemos oferecer àqueles que não têm mais um lar. E orar por eles é também uma forma de pronunciar o nome de Deus quando o mundo já não o pronuncia.

Bécquer escreveu versos que parecem transcender o tempo e nos alcançar com força inabalável: “Meu Deus, como os mortos permanecem sozinhos!” Nós, os vivos, podemos fechar uma tela, mudar de canal, esquecer uma notícia e seguir com nossas vidas. Os mortos, porém, permanecem. Eles não podem voltar. Não podem explicar o que aconteceu. Não podem exigir justiça. Por isso, cabe a nós manter viva a sua memória.

Talvez esta seja a nossa maior responsabilidade: garantir que, além de morrerem, eles não sejam esquecidos. É por isso que escrevo estas palavras com humildade. Que a busca por justiça não seja vingança, mas um compromisso para garantir que ninguém precise arriscar a vida para encontrar um lugar para morar e que tal tragédia jamais se repita.

Porque os "ninguém" de Galeano nunca foram ninguém. Eram nossos semelhantes, outros "eus" como nós, mesmo que não soubéssemos seus nomes. Nenhuma estatística pode responder: o que nós, os vivos, fazemos com a memória daqueles que já não podem falar? 

Podemos virar a página. Ou podemos parar e reconhecer que eles também pertencem à família humana.

Que ninguém morra duas vezes. Que ninguém se torne apenas uma estatística. Que ninguém jamais se torne um daqueles "ninguém" de que Galeano falava.

E quando não houver mais nada a dizer, que ao menos permaneça a oração de Bécquer, atravessando os séculos como um sino em meio ao silêncio:

"Meu Deus, como os mortos ficam sozinhos!"

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