87 anos do início da Segunda Guerra Mundial e a ascensão da extrema-direita. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 05 Setembro 2026

87 anos depois, o que a história da Segunda Guerra Mundial e a memória do nazismo ainda podem nos ensinar sobre o avanço da extrema-direita? No Brasil, como discursos que prometem soluções simples para problemas complexos conseguem transformar medo e insatisfação em força política? E qual é o papel da religião e das Big Techs nessa disputa?

Enquanto cientistas alertam para o avanço das mudanças climáticas, por que o negacionismo ainda encontra espaço na política? E quando o planeta entra em emergência, quem sofre primeiro? E, diante de tantas incertezas, onde ainda podemos encontrar esperança? Será que o futuro já está definido ou ainda podemos escolher o mundo que queremos construir?

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

87 anos do início da Segunda Guerra Mundial

Primeiro de setembro de 1939. A última mensagem da Rádio Polonesa anunciava: as tropas do exército nazista invadiram Varsóvia, capital da Polônia. Esse foi o marco inicial da Segunda Guerra Mundial, que duraria até 1945 e causaria a morte de dezenas de milhões de pessoas, em campos de extermínio alemães, batalhas e bombardeios.

A memória de apenas 87 anos atrás deixa uma ferida aberta e um alerta para o mundo contemporâneo: a insensatez de tentar criar novas realidades pela força armada. Em artigo publicado por Katholisch, o editor do portal de notícias alemão DW, Christoph Strack, destacou a importância dessa data: “Este dia, amplamente ignorado na Alemanha, permanece como um lembrete constante. Um lembrete perturbadoramente relevante. Este dia não é uma comemoração ritualizada de tempos passados, algo a ser desempoeirado ano após ano”, afirma Christoph.

Para o editor, esse momento também deveria servir para fortalecer laços entre os dois países, mas essa relação é muitas vezes negligenciada. Christoph ainda destaca como essas efemérides deveriam fazer com que os povos buscassem a paz e cita o discurso do ex-presidente alemão, Joachim Gauck, realizado em 2014, na marca de 75 anos do início da Segunda Guerra.

Na ocasião Gauck falou do sofrimento horrível do povo polonês, imposto pelo Reich alemão, e chamou a Polônia de "laboratório" para a mania racial de Hitler. Além disso, fez uma advertência sobre a instabilidade da paz na Europa, referindo-se ao ataque da Rússia à Crimeia, e consequentemente à Ucrânia.

“A história nos ensina que concessões territoriais muitas vezes apenas aumentam o apetite dos agressores. Sim, é um fato: a estabilidade e a paz em nosso continente estão mais uma vez em perigo”.

Ascensão da extrema-direita global

A ascensão da extrema-direita é um fenômeno global. Do ocidente ao oriente, vemos governos e políticos agindo de maneiras semelhantes, utilizando do populismo de direita para crescer e se eleger.

O jornalista argentino, Pablo Stefanoni, vem alertando sobre esse crescimento há anos. Para ele, o desenvolvimento mais significativo ocorreu entre 2021 e 2026. Em entrevista ao site Brecha, ele destaca que em grande parte do mundo ocidental essas forças suplantaram e ultrapassaram as da direita tradicional.

“Agora essas forças fazem parte do panorama político institucional de uma forma nunca vista desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não são mais uma anomalia do sistema: são parte integrante dele. Considerá-las uma moda passageira seria um erro, porque mesmo que sejam afastadas do poder ou nunca o alcancem, elas têm um peso considerável, como é o caso no Brasil com o movimento de Bolsonaro ou na França com Marine Le Pen. Elas alteraram permanentemente as fronteiras da política”.

Cada vez mais imersos nos cerne da política institucional, a extrema-direita opera através de uma “máquina de guerra” ideológica, como explica Stefanoni: “Eles têm fundações, veículos de comunicação, instituições; influenciadores os disseminam, magnatas da tecnologia os financiam, mas não há um manipulador puxando os fios, um vilão apertando botões ou uma estrutura central. Talvez seja ainda pior: existe uma espécie de ecossistema em funcionamento que se reproduz em quase todos os lugares, um ecossistema descentralizado”, graças em grande parte à internet e às redes sociais.

Negacionismo climático da Extrema-direita

Existe um futuro que já começou. Ele aparece nas enchentes, nas secas, nas ondas de calor e nos incêndios que atingem diferentes regiões do planeta. E, cada vez mais, também aparece na disputa por água, território e energia. Mas será que ainda é possível escolher outro caminho?

O alerta climático é cada vez mais difícil de ignorar. Um novo relatório da Organização das Nações Unidas afirma que a temperatura média do planeta deve ultrapassar, nos próximos anos, o limite de 1,5 grau Celsius estabelecido pelo Acordo de Paris. A projeção aponta para um pico entre 1,8 e 2 graus acima dos níveis pré-industriais.

O documento aponta que ultrapassar os 1,5 grau aumenta os riscos de eventos extremos e pode levar o planeta a pontos de inflexão difíceis de reverter. Mas há uma diferença importante: ultrapassar temporariamente esse limite não significa que toda possibilidade de ação tenha desaparecido.

Segundo o relatório, se houver uma resposta imediata para reduzir as emissões massivas de CO2, o excesso de temperatura pode ser limitado e posteriormente reduzido. Ou seja: a crise climática não elimina completamente a possibilidade de escolha.

Só que essa transição precisa ser questionada. De que adianta substituir combustíveis fósseis por novas tecnologias se, para isso, novos territórios forem sacrificados?

O medo e a escolha de de manter a esperança

Depois de falar sobre política, clima e futuro, chegamos a uma pergunta que pode parecer simples, mas não é: como responder ao medo diante de um mundo marcado pela incerteza?

O psicanalista Massimo Recalcati lembra que o medo não é algo que simplesmente desaparece. Ele faz parte da experiência humana e se torna ainda mais presente em momentos de guerra, instabilidade e incerteza sobre o futuro.

Para Recalcati, a questão não é escolher entre ter medo ou não ter medo. A questão é o que fazemos com ele. A política pode transformar a insegurança em agressividade e conflito, mas também pode reconhecer essa vulnerabilidade e buscar respostas sem transformar o outro em inimigo.

E é justamente aí que a esperança aparece. Não como a promessa de que os problemas vão desaparecer, mas como a possibilidade de responder a eles de outra maneira.

Essa ideia também aparece no artigo publicado pelo ClimaInfo, de João Talocchi e Délcio Rodrigues sobre o futuro do Brasil. Os autores afirmam que o país vive um momento raro: temos condições para fazer grandes escolhas.

IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.