Raízes conservadoras e revolta da classe média com políticas de distribuição de renda ajudam a explicar avanço da extrema-direita em SC.
A reportagem é de Raphael Sanz, publicada por Sul21, 03-09-2026.
Nos últimos anos, Santa Catarina passou a ser considerado um reduto da extrema-direita, em geral, e do bolsonarismo, em particular. Entre os sinais evidentes do cenário político no Estado estão as recentes migrações de dois filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para Santa Cantarina e a facilidade que encontraram para atuar, vislumbrando voos mais altos na política.
O primeiro foi Jair Renan, o filho “zero-quatro” de Jair Messias. Aos 26 anos, ele foi lançado na política pela família. Mudou-se do eixo Rio de Janeiro/Brasília para Balneário Camboriú a tempo de concorrer às eleições municipais de 2024 e receber a benção das principais figuras do bolsonarismo catarinense, entre elas o governador Jorginho Mello (PL), com quem rapidamente fez uma foto de campanha.
Meses antes, o último integrante do clã a entrar na política deu uma declaração explicando que escolheu migrar para Santa Catarina por conta da “honestidade do seu povo”. Na mesma ocasião, aproveitou a deixa para criticar Eduardo Zanatta, vereador petista na cidade (sem parentesco com a deputada bolsonarista Júlia Zanatta, de Criciúma), por uma lei inspirada na atuação do Padro Júlio Lancellotti em São Paulo que proibia arquitetura hostil à população em situação de rua.
“Sabe por que eles (os petistas) falam tão mal de Santa Catarina? Porque somos um povo trabalhador, honesto. Por isso eu saí do Rio de Janeiro e vim para cá”, afirmou o “zero-quatro”. Usando o nome do pai, Jair (Renan) Bolsonaro foi o vereador mais votado na cidade em 2024, com pouco mais de 3 mil votos e cerca de 4,5% do eleitorado da cidade.
Uma ascensão meteórica. Em 2023, foi nomeado assessor do senador Jorge Seif (PL-SC). Curiosamente, uma figura também nascida no Rio de Janeiro que se mudou para Santa Catarina. Em Itajaí (ao lado de Balneário Camboriu), ascendeu politicamente junto com o bolsonarismo em 2018, tendo sido secretário nacional da Pesca do governo Bolsonaro. Jair Renan foi eleito vereador praticamente no mesmo ano em que se mudou para Balneário Camboriú. Agora, dois anos depois, concorre a deputado federal por Santa Catarina.
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O experimento bem sucedido com um despretensioso “zero-quatro” colocou a migração para Santa Catarina no radar dos irmãos. Flávio, senador e candidato à presidência, não precisaria tanto do Estado. Eduardo, que fugiu para os EUA, tampouco. Mas Carlos Bolsonaro, o “zero-dois”, vislumbrou entre os catarinenses o trampolim político perfeito. De vereador a senador.
Em 2024, ele foi eleito com 130 mil votos (o mais votado) para o seu sétimo mandato consecutivo como vereador no Rio de Janeiro. Aquele pleito registrou uma recuperação da sua popularidade entre os cariocas, talvez catapultada nos redutos mais extremistas pelos processos que o pai respondia na Justiça e que culminariam, mais tarde, na prisão de Jair Messias. Mas em eleições anteriores, como na de 2020, ainda que eleito, Carlos perdia expressão nas urnas. O cálculo é simples: para alçar voos mais altos é preciso um céu de brigadeiro. E Santa Catarina ofereceria essas condições.
No fim de 2025, Carlos Bolsonaro renunciou ao mandato de vereador no Rio de Janeiro e anunciou seu novo domicílio em São José, na região metropolitana de Florianópolis. Neste ano, concorre ao Senado ao lado de Caroline de Toni (PL), na chapa do governador Jorginho Mello (PL).
Mal começaram as campanhas e os irmãos já deram razão aos críticos que apontavam um certo racha no bolsonarismo catarinense por conta das suas presenças desde o ano passado. Jair Renan distribuiu um panfleto de campanha sem a presença de Caroline de Toni, pedindo votos para Esperidião Amin (PP). O problema é que Amin está na chapa de oposição a Jorginho Mello pela direita, e concorre ao Senado ao lado de João Rodrigues (PSD), candidato que tenta desbancar o atual governador.
Panfleto de Jair Renan que causou alvoroço entre os bolsonaristas (Foto: Reprodução).
Não pegou bem entre a chapa “puro sangue” construída por Jorginho Mello a duras penas, perdendo os apoios do MDB (maior partido do Estado) e do senador Esperidião Amin, o político mais influente de SC.
Curiosamente, a candidata “esquecida” no panfleto é reconhecida aliada da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF), que, por sua vez, vem protagonizando com os filhos de Jair uma batalha interna no clã pelo espólio político do patriarca, hoje preso por tentativa de golpe de Estado.
O caso mais famoso desse imbróglio foi o da deputada estadual Ana Campagnolo, oriunda da Brasil Paralelo e a mais votada nas eleições de 2022. “Lança fora, tanto do partido quanto da coligação, Caroline De Toni, o quadro mais preparado e bem posicionado entre os nossos atuais representantes eleitos”, declarou Campagnolo para, em seguida, ser cobrada publicamente por Flávio Bolsonaro.
“Caso não possa fazê-lo [apoiar Carlos], vou compreender, mas também compreenda se eu te pedir pra não usar mais minha imagem nem a de Jair Bolsonaro. Posso contar com você?”, disse Flávio à parlamentar catarinense.
A repercussão negativa fez com que a assessoria de Jair Renan dissesse à imprensa que o material foi produzido por um apoiador, sem o consentimento da campanha. O próprio candidato, na sequência, declarou apoio a De Toni e lealdade às decisões do PL.
Carlos Bolsonaro também irritou os bolsonaristas de Santa Catarina logo no lançamento da sua campanha ao Senado. No primeiro dia de campanha eleitoral, o “zero-dois” divulgou um vídeo muito pessoal. Falou da filha e da sua infância no Rio de Janeiro ao lado do pai e dos irmãos. Não mencionou o estado que “escolheu” para viver. A pecha de “forasteiro” passou a ser explorada pelas outras chapas, sobretudo quando imprimiu parte do seu material em gráfica carioca.
Afrânio Boppré (PSOL) foi o primeiro a criticar Carlos Bolsonaro. Disse que as cadeiras catarinenses no Senado não podem ser “entregues a uma família do Rio de Janeiro que vive nas páginas policiais e na companhia de milicianos”.
O apoio não é unânime nem dentro do PL. Os meios de comunicação têm falado sobre uma “divisão” na legenda em Santa Catarina justamente por conta da composição atual da chapa. Há um setor que preferia não dar guarida aos irmãos Bolsonaro e a radicais do Novo para ter uma chapa mais bem amarrada entre os grupos políticos catarinenses, com o MDB e o PP de Esperidião Amin. Perderam.
Para Renan Santos, que tenta candidatar-se à presidência pelo Missão, partido que promete fazer uma oposição de ultradireita ao bolsonarismo, Carlos quis ir para Santa Catarina “porque é fácil”. Sua opinião é de alguma maneira comum a vários setores da direita. “Santa Catarina é uma eterna bucha de canhão para os Bolsonaros. O estado é só usado como um estoque de votos por eles. Se o Carlos tivesse preocupado em fazer uma cadeira para salvar o pai, que concorresse por outro estado, mas não. Ele quer Santa Catarina porque é fácil”, declarou em entrevista ao ND Mais.
Pesquisa Quaest divulgada em 24 de agosto mostra que realmente está “fácil” para a chapa “puro sangue” bolsonarista. Jorginho, com 50% das intenções, pode ganhar ainda no primeiro turno. E mesmo que haja uma disputa em segundo turno, sua vantagem para João Rodrigues segue folgada. A disputa ao Senado, no entanto, é liderada por Esperidião Amin, com 19% das intenções de votos, nada fora do esperado pelos analistas políticos.
A questão é que neste ano serão eleitos dois senadores. E Carlos Bolsonaro está em segundo lugar, com 16% das intenções de votos, 3% a mais que Caroline De Toni, a aliada de Michelle, supostamente esquecida por Jair Renan, que possui grande prestígio entre as elites locais, em especial aquela ligadas ao agronegócio. Correndo por fora, Décio Lima (PT) tem 9%.
A reportagem ouviu, de maneira anônima, duas candidaturas da oposição de esquerda para saber se eles compartilham da visão sobre as facilidades encontradas pela família Bolsonaro no Estado. Ambas as candidaturas deram explicações semelhantes: reconhecem a facilidade bolsonarista, mas defendem que o Estado está “em disputa”. Em termos políticos e eleitorais afirmam que desde a ascensão do bolsonarismo e da extrema-direita tem sido cada vez mais difícil fazer política. Seja por conta da falta de diálogo nos parlamentos, seja pelo assédio judicial praticado por figuras da extrema direita contra seus opositores.
Mas há um terceiro fator de importância nessa história: um caldo de cultura extremista que, em qualquer lugar do mundo, fertiliza o terreno para o crescimento da extrema direita e que, em Santa Catarina, está enraizado na própria história do estado.
Para compreender melhor a construção histórica desse caldo de cultura conservador e as disputas em torno da identidade do estado, entrevistamos Richard Althoff, professor de história e autor do canal História Mané, no YouTube, onde realiza um trabalho de conscientização acerca do passado autoritário de Santa Catarina.
“Comecei a montar o meu canal por ter essa angústia com o que acontece no Estado. Além de ser historiador, também vejo esses discursos racistas em pessoas próximas. É senso comum, é naturalizado”, desabafa.
Ele explica que tudo começou na própria formação de Santa Catarina. O Estado ficava numa área de disputa territorial com outras potências e, por isso, ainda nos tempos do Império, o Estado Brasileiro distribuiu terras para diversas comunidades imigrantes chegadas de uma Europa que vivia os auges da eugenia na ciência e na industrialização na organização socioeconômica.
Essa distribuição de terras perdurou até a promulgação da Lei de Terras, em 1850. Depois disso, as áreas passaram a ser vendidas a preços irrisórios para esses imigrantes, e somente para eles. O professor aponta que esse processo era parte das “políticas de branqueamento da população brasileira” e fez com que Santa Catarina tivesse menos latifúndios e uma maior proporção de classe média branca em relação a outros estados do Brasil.
“O modelo de desenvolvimento era a Europa, então isso era uma política de Estado vista como um embate entre civilização e barbárie. O indígena, o negro, o caboclo já não serviam. O Império precisava de soldados e agricultores. A ordem era trazer o ‘progresso europeu’. Foi feito um acordo com companhias de colonização. As famílias vendiam as poucas terras na Alemanha e compravam quase dez vezes mais aqui, era uma grande vantagem e um risco calculado. O Sul do Brasil foi o laboratório desse ‘novo tipo de brasileiro’”, resume.
As colônias chegavam e precisavam dar conta de duas tarefas: ocupar e proteger o território. Assim, diversos agricultores e soldados oriundos de guerras europeias, como as das unificações da Itália e da Alemanha, eram trazidos ao Sul do Brasil.
“Os germânicos chegam como política de Estado e, nesse contexto, se veem incumbidos da tarefa de desmatar as terras que ganharam e expulsar os povos indígenas delas. É aí que entra a figura dos bugreiros a partir de 1880, por exemplo, os grupos armados que exterminavam os indígenas da região. Em termos de identidade política local, citaria a ideia de que somos um povo ‘ordeiro e trabalhador por sermos de origem’. Ou seja, nós, alemães, somos de origem, enquanto os outros, os ‘brasileirinhos’, os ‘caboclos’, seriam pessoas sem origem e que não gostam de trabalhar”, explica Althoff e, em seguida, faz uma referência crítica à famosa frase estampada no portão de Auschwitz: “o trabalho liberta”, associada diretamente à ética protestante do trabalho.
Ele defende que esse tipo de extremismo é um discurso que até hoje favorece os empresários locais: “Vão alegar que apesar de não oferecerem os melhores salários, o Estado vai ter alguma segurança (porque aqui bandido não se cria), os serviços públicos funcionam minimamente e que basta o trabalhador aceitar o modelo calado, sem se sindicalizar, sem questionar, que vai cair um salarinho e será possível viver com pouco. Essa característica de se viver com pouco está ligada ao histórico do colono-operário, que apesar de ser mal remunerado na fábrica, tinha uma roça para complementar o sustento. O patronato adora esse discurso. E é daí que vem o discurso, por exemplo, do casal que viralizou na internet em 2025 dizendo que quem vem para Santa Catarina tem que vir para trabalhar, se adaptar à tradição local e não pode votar na esquerda”.
Para Althoff, ocorre uma endogamia programada, uma tentativa de “preservação da linhagem racial e cultural” ao longo desse processo no sentido de manter a cultura alemã hegemônica em detrimento da integração com o restante do país. “Para a população formada dentro dessa mentalidade, o brasileiro pode até ser educado e civilizado, mas nunca vai ser igual”, exemplifica.
O neoconservadorismo que conhecemos vai chegar com o fim da ditadura militar, a partir dos anos 1980, quando essa população de origem germânica, o “povo de origem”, começa a ter uma revalorização identitária. Diferente do Rio Grande do Sul, Santa Catarina teve 12 governadores com sobrenome alemão ao longo da República, o que demonstra a representatividade dessa comunidade. Ela está na política e, consequentemente, está contemplada pelas políticas públicas. Essa hegemonia foi questionada no governo Vargas, na década de 1930, sendo duramente reprimida em meio às disputas oligárquicas regionais.
“Entre as famílias de industriais do Vale do Itajaí, vamos ter a predominância política dos Konder, do histórico governador Adolfo Konder. Só que na troca de oligarquias que demarcou a ascensão do varguismo, os Ramos, latifundiários da região de Lages de origem luso-brasileira, passam a ser privilegiados pelo novo governo – representando uma quebra na hegemonia germânica. Nereu Ramos foi nomeado interventor por Vargas e usou seu poder repressivo. Isso, aliado aos ideais que vinham da própria Alemanha, reforçando o orgulho da germanidade, fomentou o crescimento das ideias nazistas por aqui como uma espécie de resposta ou defesa a esse cenário, muito embora fossem poucos os alemães efetivamente filiados ao nazismo alemão”, explica Althoff.
Imagem de arquivo da sede do Partido Nazista ao lado da Ação Integralista em Rio do Sul (SC). Reprodução: Livro O punhal Nazista no coração do Brasil, Obra da Delegacia de Ordem Política e Social do Estado de Santa Catarina. (Foto: Capitão Antônio Lara Ribas ? Santa Catarina: Imprensa do Estado, 1943).
Dois anos antes de Vargas, em 1928, é criado o Partido Nazista em Timbó, à época um distrito de Blumenau, hoje um município emancipado. Era o primeiro partido Nacional-Socialista fora da Alemanha. Só alemães podiam participar, e havia muitos que vinham para a região trabalhar na montagem das primeiras indústrias catarinenses, como em indústrias de todo o mundo. Na Alemanha, os nazistas deixavam as pretensões de tomar o poder por uma revolução para ingressarem no parlamento, onde de fato tomariam o poder anos depois. Por isso a criação de partidos nazistas em diferentes países, com o objetivo de agregar os votos dos alemães fora da Alemanha em favor daquele projeto.
“Não existia a ideia do ‘alemão de Blumenau’ como vemos hoje. Alemão era quem nascia na Alemanha, embora propagandistas do reich quisessem o apoio dos teutobrasileiros. Os filhos e netos de alemães que simpatizavam com o partido fundado em Timbó iriam aderir ao Integralismo a partir de 1934, que já existia como uma versão brasileira do fascismo. Era uma bolha cultural. Então, quando chega essa adaptação, os simpatizantes não nascidos na Alemanha começam a aderir. O próprio lema ‘Deus, pátria e família’, que já existia no fascismo italiano, é apropriado pelo integralismo naquele momento e repaginado na atualidade pelo bolsonarismo”.
Em 1935, Nereu Ramos é nomeado interventor e no ano seguinte os integralistas elegem dezenas de prefeitos para as principais cidades do Estado. Quando o interventor olha para a situação, não tem dúvidas: o verdadeiro perigo não é o nazismo alemão, mas a sua adaptação brasileira, muito mais popular. E, naquele contexto, numa versão mais próxima do hitlerismo, que buscava um diálogo com o correlato europeu.
“Começa uma forte repressão aos núcleos integralistas. A campanha de nacionalização do ensino é reforçada. Mais tarde, no contexto da Segunda Guerra Mundial, essa repressão fica ainda mais forte e generalizada. Pega toda a coletividade alemã e italiana, mesmo aqueles que não tinham necessariamente aderido às ideias nazifascistas. Embora houvesse ‘quinta-colunistas’, muitos abusos foram cometidos contra colonos inocentes, apenas por falar alemão ou italiano. Esse fato gerou silêncio, trauma e profundo ressentimento”.
Personagens históricos citados pela reportagem. O ex-governador Adolfo Konder (esq), o ex-interventor varguista Nereu Ramos (cen) e o agente nazista Franz Stangl, que encontrou refúgio no Brasil dos militares (Fotos: Reprodução).
Em 1945 Vargas deixa o poder, essa repressão cessa e muitos nazistas fogem para a América do Sul, sobretudo para a Argentina, onde foram acolhidos diretamente, mas também para o Brasil, onde muitas vezes viviam sob identidades falsas. Com o advento da ditadura militar de 1964, alguns desses antigos nazistas alemães vão trabalhar na indústria nacional contratados para monitorar operários considerados subversivos. Um dos principais exemplos é o do Franz Stangl, que dirigiu os campos de extermínio de Sobibor e Treblinka na Polônia e depois veio trabalhar na VolksWagen.
“Ou seja, os militares viram que os nazistas eram eficazes em perseguir comunistas e gostaram. E isso vemos nos discursos do Bolsonaro na atualidade sobre a cavalaria americana ter sido eficaz em matar os indígenas de lá, ou que a ditadura militar devia ter matado 30 mil comunistas, e assim por diante. Então a relação vem desse anticomunismo que começa com o Plano Kohen redigido pelo Olímpio Mourão, que era um militar integralista (sem parentesco com Hamilton Mourão, general da reserva, ex-presidente no Governo Bolsonaro e senador pelo RS). O Brasil se alinha aos EUA e segue sua cartilha no contexto da Guerra Fria. Durante o regime militar veremos o fortalecimento desse anticomunismo a partir da Escola das Américas e da Operação Condor e, após a redemocratização e a chegada dos governos progressistas, nas décadas recentes, esse ideário evolui para o que chamamos de antipetismo mas que não atinge exclusivamente o PT. Há uma tentativa de abolir a própria Constituição Cidadã de 1988, que tem como premissa a promoção da igualdade”, conclui o professor.
Com o processo de redemocratização que iniciou nos anos 1980 e gerou a Constituição Cidadã de 1988, essa identidade exclusivamente alemã e italiana de Santa Catarina começou a ser questionada. A elite organizada nos partidos do chamado centrão teria entendido que não era mais possível impor seus desejos à força e começava a investir na valorização das diferentes identidades estaduais, visando também a sua exploração turística e adesão eleitoral.
Ganham relevância as festas dos colonos europeus, como a Oktoberfest trazida de Munique após as enchentes de 1983 no Vale do Itajaí, há uma revalorização da figura do “manézinho”, cidadão natural de Florianópolis com sotaque açoriano, muito conectado à pesca artesanal, e os setores de esquerda começam a pautar eventos históricos como a guerra do Contestado (uma luta dos caboclos e posseiros pela terra, considerado gérmen dos futuros movimentos dos sem terra, cuja origem é a região Sul), a Novembrada (episódio central para a queda do regime militar) e a valorização das comunidades negras e indígenas.
Mas os herdeiros daquele integralismo do passado não desapareceram. Entre o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990 começam a surgir editoras e publicações neonazistas não apenas em Santa Catarina, como em outros estados, que exploram esse antigo ressentimento com um “governo federal interventor”. Em 1987 é criadaa editora Revisão, no Rio Grande do Sul, por Siegfried Ellwander Castan. Industrial gaúcho e ideólogo neonazista, ele publicou mais de 30 livros, entre eles um que virou um best seller no Brasil dos anos 90: “O holocausto judeu-alemão, os bastidores da mentira do século”.
“Esse livro vai estar em todas as apreensões de material nazista que a polícia faça na região Sul”, brinca o entrevistado. Na atualidade, junta-se a ele, por exemplo, “A Grande Substituição”, de Renaud Camus (2012), que será um best seller para a nova extrema direita com narrativa supremacista ao mencionar um plano global para substituir as populações brancas do Norte global por negros e imigrantes.
No caso de células sulistas, também se destacam as obras “O Sul é meu país”, de Celso Deucher, e “A República Gaúcha dos Pampas”, de Irton Marx.
Objetos apreendidos durante investigação contra célula nazista em SC no ano de 2022 (Foto: Polícia Civil/Divulgação/Arquivo).
“O Irton Marx foi um sujeito que nos anos 80 queria fazer essa separação do Rio Grande do Sul e estabelecer o alemão como língua oficial. A narrativa, carregada de ressentimento da Era Vargas, dizia que teriam tido subtraído o direito de se orgulhar das origens, seriam historicamente oprimidos e economicamente explorados pela União. Apesar de escrito para o RS, também seduziu muita gente em SC. Até hoje isso é valorizado. O movimento separatista ‘o Sul é o meu país’ tem seus presidentes catarinenses, Adílcio Cadorin e Celso Deucher”, explica o historiador.
O entrevistado conclui apontando dois últimos personagens que considera importantes na difusão das ideias nazistas em Santa Catarina: Wandercy Pugliesi, o professor da piscina com a suástica, e Altair Reinehr, também professor publicamente associado ao neonazismo desde os anos 1990.
O primeiro chegou a ser denunciado após imagens aéreas mostrarem sua propriedade para todo o Brasil em 2014. Em 2020, quase saiu candidato a vereador de Pomerode, com a suástica ainda estampada no quintal. Em 2021, fez uma obra borrando a simbologia e teve a sua ação arquivada pelo Ministério Público. Já Altair Reinehr é pai da deputada federal Daniela Reinehr (PL-SC), que concorre a reeleição.
A piscina com suástica de Wandercy Pugliesi em Pomerode (SC) (Foto: Polícia Civil/Divulgação).
É nesse contexto que chegamos a 2002, quando os catarinenses votaram em peso pela primeira vitória de Lula para a presidência. Naquela ocasião, o stado foi o que, proporcionalmente, deu mais votos ao petista. E tanto Althoff como as candidaturas de esquerda consultadas acreditam que isso tenha sido fruto da disputa em torno da identidade catarinense durante a redemocratização, bem como da percepção ruim sobre os governos Collor e FHC, associados então à direita.
Antes da vitória lulista, as camadas médias estavam alinhadas às esquerdas no Sul e Sudeste. Em Santa Catarina, a esquerda governou quase todas as prefeituras das grandes cidades à exceção de Lages. Mas já no primeiro governo Lula foi havendo uma inflexão e o PT perdeu todas as eleições depois de 2002. Essa camada média do Estado já tinha migrado para uma direita inflamada pelos meios de comunicação e sua pauta “anticorrupção” ainda no primeiro mandato de Lula.
A principal explicação é econômica e está nas próprias políticas de distribuição de renda que agradaram as camadas mais pobres e desagradaram as classes médias. Os entrevistados concordam com a ideia de que a imagem da “empregada doméstica dividindo aeroportos e universidades com a patroa” se misturou com todo o arcabouço oriundo do extremismo na região e, através dos discursos em torno da segurança pública, dialogaram com a velha narrativa de ressentimento.
A conclusão é unânime: o bolsonarismo soube, de alguma forma, canalizar essa frustração e juntar as diferentes narrativas de ressentimento, seja as comuns a todo o país ou as exclusivas do Estado, num mesmo líder e projeto político.