A bondade dos linchadores. Artigo de Santiago Alba Rico

Fonte: Unsplash

Mais Lidos

  • Gabinete de Mendonça ouviu Vorcaro "a pedido da defesa"

    LER MAIS
  • Crise no STF após divulgação de conversas entre Moraes e Vorcaro: como chegamos até aqui?

    LER MAIS
  • “Os revolucionários não fazem revoluções, os reformistas não reformam, e a extrema-direita está crescendo”. Entrevista com Pablo Stefanoni

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

04 Setembro 2026

“São nas situações excepcionais que a ética universal realmente importa; é nelas que a moral, na ausência de orientação política, decide a diferença entre o bem e o mal ou, se preferirmos, entre os Evangelhos e o Mein Kampf”, escreve Santiago Alba Rico, filósofo, escritor e ensaísta, em artigo publicado por Público, 31-08-2026.

Eis o artigo.

Entre 1880 e 1950, mais de 4 mil negros foram linchados nos estados do sul dos Estados Unidos. O linchamento não era um crime; era um ato de justiça popular do qual participavam mulheres e crianças e que era celebrado com orgulho e entusiasmo. As vítimas, acusadas com ou sem fundamento, eram conduzidas a golpes até a praça pública e ali queimadas ou enforcadas. Depois, tiravam-se fotografias dos cadáveres, ao lado dos quais os cidadãos posavam sorridentes, e essas imagens transformavam-se em cartões-postais que, em seguida, eram enviados, acompanhados de algumas frases, a parentes e amigos distantes. Alguns desses postais podem ser encontrados na internet.

Vejo, por exemplo, o cadáver carbonizado de Will Stanley pendurado em um poste, mais indefeso do que nunca, observado por uma multidão satisfeita; ao pé da foto, pode-se ler o texto escrito por um tal Joe, cúmplice do linchamento, para comunicar a notícia ao pai: “Este é o churrasco que desfrutamos ontem à noite. Estou à esquerda, com uma cruz acima. Seu filho, Joe”. Era 30 de julho de 1915, e 10 mil pessoas haviam se reunido na praça principal de Temple (Texas) para contemplar a fogueira.

Em outro cartão-postal, vejo os cadáveres de Virgil Jones, Robert Jones, Thomas Jones e Joseph Riley, enforcados em 31 de julho de 1908, em Russellville (Kentucky). Do peito de Riley, com o pescoço quebrado e vestido com um macacão azul, pende uma placa de advertência: warning. Ou vejo ainda os corpos seminus de Elias Clayton, Elmer Jackson e Isaac McGhie, trabalhadores de circo em Duluth, linchados em Minnesota no dia 15 de junho de 1920. Uma multidão de homens brancos, vestidos em trajes de domingo, elegantes e alegres, posa ao redor deles como se se tratasse de um casamento ou de uma festa de formatura.

Os linchadores, não nos esqueçamos, eram gente de bem: pais responsáveis, trabalhadores honestos, vizinhos solidários. Eram cidadãos exemplares que se sentiam inseguros, ameaçados e em perigo e só pretendiam restaurar os valores da civilização, maculados pela presença invasiva daqueles negros selvagens. O negro lhes causava dano: visual e culturalmente, constituía em si mesmo uma agressão moral. Pouco importava se eram realmente culpados do estupro ou do roubo de que eram acusados.

O negro era o próprio Mal. Matar o negro era purificar os pecados do mundo. Matar o negro não era um crime; não era sequer um pecado; não era sequer uma falta; era uma restauração do bem comum que todos juntos deviam celebrar. Era, sim, o triunfo da comunidade por meio de um ato coletivo de justiça.

É impossível não evocar essa espécie de “moralidade do mal” quando o fascismo retorna às nossas vidas. Penso nos israelenses que sobem à colina de Sderot, com uma cesta de piquenique, para contemplar os bombardeios sobre Gaza, mas também nos cidadãos de Ceuta que se reúnem para impedir a entrega de alimentos aos imigrantes, incendiar suas barracas e agredir seus corpos; e que se manifestam exigindo do governo o descumprimento da lei e a expulsão desses “invasores” famintos e descalços.

Não vou negar o atoleiro em que se converteu uma crise ao mesmo tempo geopolítica, institucional e humanitária. O fato se de tratar de um verdadeiro atoleiro, facilitado pela inação do governo, explica em parte a reação dessa gente de bem que, estimulada por partidos e dirigentes irresponsáveis, considera legítimo e razoável renunciar à ética comum, aquela que ensinam aos filhos em casa, e transformar-se em um bando fascista.

Há alguns meses, escrevi um artigo no qual, citando Gramsci, mostrava-me preocupado com essa “transformação molecular”. A partir da hipótese de um naufrágio no mar, Gramsci descrevia um processo muito frequente: o de uma pessoa que, em condições excepcionais, convence a si mesma, da forma mais honesta e sincera, de que o canibalismo não apenas é necessário, mas também legítimo e moral. Ora, são nas situações excepcionais que a ética universal realmente importa; é nelas que a moral, na ausência de orientação política, decide a diferença entre o bem e o mal ou, se preferirmos, entre os Evangelhos e o Mein Kampf.

Convém ser humilde e estar alerta para não cair brandamente do lado mau; isso pode acontecer com qualquer um. Nós humanos somos seres sociais, não morais. Gostamos de estar juntos e, juntos, fazemos o bem e fazemos o mal, talvez pela mesma razão: o prazer da sociabilidade. Por isso, a política é tão importante, pois busca administrar a sociabilidade humana em favor do bem comum. O que chamamos de “república” é justamente isso: a autogestão regulada da sociabilidade humana, à margem da moral, em defesa da igualdade, da liberdade e da fraternidade.

Contudo, o simples fato de “estar juntos” não garante nada; desse prazer também participam as máfias, as seitas, os festejos, as milícias fascistas e as assembleias constituintes. Diante do neoliberalismo, impõe-se, sim, um retorno à ideia de comunidade; mas diante da comunidade negativa, quando a política recua, resta apenas confiar na sobrevivência disruptiva da moral. Como diz o velho ditado, às vezes, é melhor estar só do que mal acompanhado.

A moral é sempre uma decisão individual, imprevisível e, em geral, inútil. Quando seres sociáveis se unem para fazer o mal, não basta a ética da responsabilidade nem um programa político razoável que quase ninguém escuta. Passamos a depender do exercício individual da ética dos princípios, na qual ninguém pode nos “representar” nem substituir. Há situações que exigem, de fato, um gesto moral individual.

Em A Mocidade de Lincoln, filme de John Ford, de 1939, o futuro presidente dos Estados Unidos, um jovem advogado do interior, dirige-se pelo nome a um vizinho que se juntou a uma turba linchadora: “às vezes, fazemos coisas juntos que nos envergonhariam se as fizéssemos sozinhos”, diz ele. O jovem Lincoln consegue que um indivíduo, imerso em uma comunidade negativa, recupere o sentido moral, de modo que sua vergonha pessoal arrasta todos os demais a desistirem de sua ação criminosa.

Após atravessar muitas tempestades, é muito provável que a crise de Ceuta dê o golpe final nas esperanças de continuidade de um governo de coalizão nas próximas eleições. Politicamente, Ceuta, periferia ambígua de uma Espanha já muito sacudida, marca o limiar da vitória do Partido Popular (PP) e do Vox, a vanguarda consciente da mais sombria antipolítica. Mas é também por Ceuta que o fascismo entra definitivamente na Espanha como normalização da “moralidade do mal”: como comunidade negativa normalizada, como defesa honesta do linchamento.

Dizia Bertolt Brecht em seu Galileu: “triste o país que precisa de heróis”. Nada é mais triste e perigoso do que esse outro mundo possível, expelido pela história da Espanha, no qual a política, derrotada pelo fascismo, tem de ser substituída pela moral. Nele, ai!, é necessária uma moralidade especial para não linchar espontaneamente um negro.

Leia mais