Como o uso de celular impacta a população que tem mais de 60 anos?

Foto: Jacob McGowin/Unsplash

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04 Setembro 2026

Renata Maria Silva Santos comenta riscos de fraudes e de isolamento, e defende investir em letramento digital de idosos.

A reportagem é de Maria Teresa Cruz e Raquel Setz, publicada por Brasil de Fato, 02-09-2026.

Quando se fala em pessoas grudadas no celular, a imagem que vem à cabeça é de jovens. Mas pessoas com 60 anos ou mais já são usuárias assíduas de smartphones. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2025, 74,5% dessa população afirmou usar celular, contra menos de 45% em 2019. A pandemia da Covid-19 pode ser encarada como um importante fator desse processo, que gerou quadros depressivos e de muita ansiedade, mas há outros aspectos sociais, como as formas de se manter conectado com redes de apoio e a solidão na velhice.

A terapeuta ocupacional Renata Maria Silva Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (INCP-UFMG), explica que, embora o acesso à tecnologia traga benefícios, como o aumento da autonomia diária e a redução dos sentimentos de solidão, ele também funciona como uma faca de dois gumes, expondo os idosos a novos riscos, como a nomofobia, que é a ansiedade de ficar desconectado, e golpes financeiros e até românticos.

“A nomofobia está ligada diretamente ao medo da falta de conexão. Já a dependência de telas é esse uso que a gente costuma chamar de problemático. Ele não está relacionado somente ao medo de ficar desconectado para resolver qualquer tipo de necessidade para as atividades de vida diária. É aquele uso mais descontrolado, quando a pessoa realmente perde o controle do uso do equipamento”, explica ao BdF Entrevista, diferenciando os dois conceitos.

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Nesse cenário “mais descontrolado”, é possível observar um quadro de “retroalimentação da solidão”. “A pessoa começa a se envolver muito via celular e perde a parte presencial, aquelas trocas importantes, a atividade física, quando você tem a produção de substâncias que são benéficas para o organismo, que aumentam a sensação de prazer, de querer retornar para aquele evento, de estar em contato com outras pessoas”, avalia.

É nesse momento, segundo Santos, que a pessoa acaba ficando mais suscetível a quadros de uso excessivo de celulares e pode virar vítima de crimes virtuais. A vulnerabilidade a fraudes virtuais ocorre porque os criminosos agem de forma estratégica sobre fragilidades emocionais e a falta de vivência digital dessas pessoas.

“Os golpistas exploram esses comportamentos humanos universais: o medo, a afeição, a urgência”, destaca a pesquisadora. O patrimônio financeiro acumulado ao longo da vida e o isolamento social tornam os idosos alvos mais visados por criminosos. “O golpista detecta as fragilidades e vai atuar exatamente em cima daquilo que está em falta na vida da pessoa. Então a pessoa com pouca leitura do ambiente digital, leitura social do ambiente digital”, aponta.

Renata Maria Silva Santos avalia que uma das formas de reduzir esses riscos e promover uma relação mais saudável de idosos com as telas é investir em letramento digital de forma paciente e estruturada, idealmente por meio de políticas públicas. Segundo a pesquisadora, isso dará autonomia ao idoso.

“O letramento, ensinar, realmente mostrar como funciona, como a pessoa deve proceder nas diferentes plataformas, isso é importante, mas sem infantilizar, para que a pessoa idosa realmente queira aprender, queira buscar conhecimento”, conclui a terapeuta ocupacional.

Confira a entrevista completa abaixo:

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