Tragédia no Nepal: milhões de pessoas podem sofrer com inundações glaciais nos próximos anos, alerta a ONU

Foto: Wikimedia Commons | Jacques Descloitres, MODIS Rapid Response Team, NASA/GSFC

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03 Setembro 2026

Margens inteiras de rios onde vivem milhões de pessoas podem se tornar praticamente inabitáveis, além do impacto na geração hidrelétrica.

A informação é publicada por ClimaInfo, 02-09-2026.

A região do Himalaia corre sério risco de sofrer futuras inundações glaciais, o que afetará a vida de milhões de pessoas. O alerta foi dado ontem (1º/9) por Kanni Wignaraja, subsecretária-geral da ONU e diretora regional para a Ásia e o Pacífico no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). No mesmo dia, o total de mortos pela tragédia no Nepal e no Tibete somou 1.066.

Em 2020, pesquisadores identificaram 47 lagos glaciais potencialmente perigosos no Nepal, na China e na Índia, mas estima-se que esse número seja muito maior, destacam Reuters e The Guardian. Assim, há receio de que margens inteiras dos rios, onde vivem milhões de pessoas, tornem-se praticamente inabitáveis devido aos riscos de colapso dessas estruturas.

"A tecnologia não consegue avançar com rapidez suficiente para evitar perdas ao longo desses enormes sistemas fluviais que captam o excesso de água dos lagos glaciais", disse Kanni. Ela explicou que nenhum país da região depende mais das geleiras para o abastecimento de água e para a geração de renda do que o Nepal, que agora enfrenta "escolhas muito, muito difíceis". Para muitos que vivem às margens dos rios, mudar-se para terrenos mais altos pode não ser financeiramente viável.

A devastadora enchente da semana passada foi desencadeada quando partes de uma geleira perto do pico da montanha Langtang Lirung desabaram e caíram no fundo do vale, provocando um deslizamento de terra que enviou uma onda de inundação pelo rio Trishuli. Já o rompimento de lagos glaciais é um fenômeno diferente. Ele ocorre quando a água do derretimento das geleiras se acumula atrás de uma barreira natural, com a pressão eventualmente resultando em uma ruptura ou transbordamento que provoca uma inundação repentina rio abaixo.

Contudo, as duas ameaças estão aumentando à medida que as mudanças climáticas aceleram o derretimento das geleiras na região, soltando rochas e exercendo mais pressão sobre as barreiras dos lagos glaciais, dizem autoridades da ONU. Além disso, acrescenta Kanni, as montanhas da região são relativamente jovens e, portanto, mais suscetíveis a movimentos tectônicos que podem desencadear colapsos repentinos de geleiras ou de barreiras lacustres.

Enquanto isso, continuam as operações de busca por quase 4 mil pessoas desaparecidas. Mas a "erosão nas margens dos rios, pontes danificadas, falhas nas estradas e interrupções nos serviços de eletricidade e comunicação" dificultam o acesso de equipes de resgate às áreas mais atingidas, principalmente no norte do Nepal, aponta um relatório da ONU. Segundo a organização, cerca de 10 mil famílias foram afetadas pela tragédia, informa O Globo.

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Diversas comunidades nos distritos de Rasuwa e Nuwakot, gravemente atingidos, enfrentam escassez ou falta total de suprimentos, segundo a Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Risco de Desastres do Nepal (NDRRMA, sigla em inglês). Nessas áreas, "há escassez de barracas, o que está gerando dificuldades relacionadas ao abrigo", além da necessidade de suprimentos alimentares, incluindo itens básicos como arroz e lentilha.

Em Katmandu, capital do Nepal, famílias que procuram desaparecidos após as inundações devastadoras da semana passada colocam fotografias numa parede do Hospital Universitário da Universidade Tribhuvan, mostra a Euronews. A parede, com 25 metros de comprimento, está coberta de imagens de nepaleses e estrangeiros, enquanto os familiares se agarram à esperança de encontrar os seus entes queridos com vida.

Lalit Lamichhane, funcionário da alfândega do Nepal, sentiu que ganhou "uma segunda vida" após escapar por pouco da tragédia, relata a CNN Brasil. Ele contou que correu para um terreno mais elevado em uma plantação de milho no dia do desastre; foi resgatado por militares e levado para Katmandu.

No entanto, Lamichhane demonstra um sentimento agridoce, pois lamenta a morte de seu colega e amigo, Nakul Sharma, que trabalhava com ele na Alfândega de Rasuwa, perto da fronteira entre a China e o Nepal. "Sinto uma dor e uma tristeza profundas. Não sei como expressar em palavras a dor de perder um amigo. Perdemos nada menos que 15 amigos, e um deles era o Nakul. Meu coração está repleto de uma tristeza profunda por ter de comparecer à sua cremação hoje para me despedir dele pela última vez", lamentou.

A tragédia no Nepal continua recebendo ampla cobertura da imprensa mundial, com matérias na Reuters, CNN Brasil, UOL, AP, entre outros veículos.

Em tempo

Especialista em meio ambiente radicado em Nova Delhi e Calcutá, na Índia, Soumya Sarkar destaca no The Federal que a tragédia no Nepal foi a quarta em 13 anos em que uma geleira do Himalaia, ou o lago em sua base, rompeu-se e matou pessoas rio abaixo. E foi também a quarta vez que cientistas haviam publicado, em detalhes precisos e públicos, que algo assim era iminente, reforça.

"Nada disso exigia uma bola de cristal. As zonas de alta altitude dos Himalaias estão aquecendo a uma taxa aproximadamente duas vezes maior do que a média global, um efeito bem estabelecido, conhecido como aquecimento dependente da altitude. À medida que as temperaturas sobem, o permafrost, que mantém as encostas das montanhas unidas, derrete, as geleiras recuam deixando para trás gelo instável, e a água do degelo se acumula em lagos represados apenas por rochas soltas e detritos."

Sarkar conclui: "Quatro desastres em 13 anos não são apenas a repetição do azar. É o que acontece quando um consenso científico é documentado, publicado e depois deixado de lado enquanto a física subjacente continua a funcionar, indiferente ao fato de alguém ter agido de acordo com ela. Os Himalaias não estão escondendo informações. Os cientistas têm sido notavelmente precisos quanto a qual lago, qual encosta, qual bacia. A única questão em aberto é se o próximo alerta será considerado antes ou depois do próximo número de mortes. As evidências dos últimos 13 anos sugerem que os governos do Sul da Ásia ainda não decidiram mudar essa resposta."

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