29 Agosto 2026
As gravações propagandísticas reúnem vídeos de drones ucranianos perseguindo e matando soldados russos, apesar das reservas de muitos analistas.
A reportagem é de Luke Harding, publicada por The Guardian e reproduzido por elDiario.es, 27-08-2026.
Os vídeos de drones kamikaze ucranianos perseguindo militares russos até matá-los se tornaram todo um gênero das redes sociais nos últimos 18 meses. Muitos analistas os consideram desumanizantes e ofensivos, mas para muitos ucranianos representam uma propaganda potente e um lembrete do destino cruel que aguarda um número importante de soldados russos na invasão de Vladimir Putin.
A ideia original dos vídeos é de Robert Brovdi, chefe das forças de drones da Ucrânia e fundador dos Magyar's Birds (Os pássaros de Magyar, nome que vem de seu codinome). A 414ª brigada de ataque aéreo de Brovdi tem sido pioneira na divulgação de vídeos do campo de batalha, gravados por drones e conhecidos como yoblyks, acrônimo que combina a raiz de uma palavra ucraniana de baixo calão com uma forma diminutiva carinhosa.
Todos os dias, um editor militar conhecido pelo pseudônimo Catman revisa, nas primeiras horas do dia, os vídeos da jornada anterior e seleciona vários para uma compilação de dois minutos com música mística ou eletrizante. Pela internet também circula um vídeo mais longo intitulado Os yoblyks da semana.
Os vídeos cumprem uma importante função de propaganda para desmoralizar os russos comuns e tornar visível o custo real da guerra iniciada pelo Kremlin sem provocação, diz Catman para defender seu trabalho. "Meu objetivo é mostrar aos russos que eles vão morrer se forem mobilizados na Ucrânia, que é uma passagem só de ida e que a morte os espera", explica.
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Catman reconhece que os vídeos são montados deliberadamente para zombar das vítimas. Às vezes se veem soldados russos lançando gravetos contra os drones na tentativa de desviá-los, ou caindo enquanto fogem correndo. Embora os vídeos não mostrem o momento da morte, o último quadro é um close no rosto de um soldado. "Temos o ditado de que o riso mata o medo, nosso trabalho é rir desses inimigos e mostrá-los indefesos, isso eleva o moral das nossas forças", diz Catman. "É impossível para mim sentir pena deles; isto é uma guerra, não um filme".
Geralmente, os soldados russos morrem enquanto caminham ou se deslocam de moto rumo à frente. Alguns não têm consciência do perigo que os drones representam, explica Catman, e parecem ter sido enganados por seus comandantes. "Eles têm um treinamento breve, muitos morrem apenas duas semanas depois de se alistar", diz.
Catman descreve a maioria dos soldados como "simples animais de carga" com ordens de transportar combustível ou provisões para posições expostas do exército russo. Outros carregam cabos de comunicação: os oficiais da retaguarda estão tendo dificuldade para contatar a frente desde fevereiro, quando Elon Musk vetou o acesso da Rússia ao serviço de internet fornecido por seus satélites Starlink.
Outro membro do Magyar's Birds sustenta que os vídeos oferecem provas contundentes do engano constante que os soldados russos sofrem sobre os perigos que os esperam. "Nos vídeos se vê que muitos deles nem sequer se escondem", diz. "Usam seus rádios, muitos deles são enganados com a mentira de que tudo vai dar certo, de que estão se dirigindo às suas posições e de que estão totalmente a salvo".
O arquivo da brigada é composto por cerca de 3.600 vídeos. Em apenas dois deles aparecem mulheres, com seus uniformes de combate e seus fuzis de assalto. "Para mim não há diferença, são todos inimigos", diz Catman.
Os vídeos também desempenham um papel importante na verificação das baixas dos soldados russos. Entre mortos e feridos, são mais de 30 mil baixas por mês, segundo dados de Kiev (no entanto, cada lado esconde seus próprios números de baixas, e não existe uma contagem oficial).
Brovdi diz não ter reservas em publicar vídeos que, no Ocidente, poderiam ser considerados de mau gosto e moralmente questionáveis. "Deus não permita que algum dia tenham que sofrer dor, nós, que na Ucrânia experimentamos dor física real nesta guerra, nunca vamos concordar com essa forma de ver as coisas", explica.
Em suas publicações diárias, Brovdi emprega uma linguagem que alguns poderiam considerar desnecessária. Como chamar os soldados russos de "vermes" bicados por "pássaros". "Tudo mudou quando a guerra começou; havia um desejo de humilhar o inimigo o máximo possível, não com as palavras de sempre, mas com outras novas", diz Brovdi. "Era inevitável que os jargões técnico-militares e os neologismos como yoblyk se infiltrassem no meu discurso, já existiam antes da IA".
Os vídeos também deram origem a subgêneros de trolling. Às vezes, a partir das fotos que algumas mulheres russas publicam da despedida de seus maridos quando partem para a "operação militar especial" de Putin: os ucranianos identificam esses homens e respondem às publicações originais com imagens captadas pelos drones que terminam com suas vidas.
Segundo Catman, os yoblyks têm uma grande audiência. Também dentro da Rússia. "Lá se sabe muito pouco sobre os soldados desaparecidos", diz. "Algumas pessoas fazem buscas e capturas de tela; as mães ou esposas publicam então mensagens dizendo que algo de ruim aconteceu com seus entes queridos".
Nos canais do Telegram, blogueiros russos simpatizantes da guerra publicam imagens de soldados ucranianos morrendo em combate. Outros vídeos mostram o assassinato de soldados ucranianos desarmados e prisioneiros de guerra (um crime de guerra). Pela internet russa também circulam falsificações geradas por IA de militares ucranianos criticando os comandos de seu exército.
Anatolii Loza, um voluntário ucraniano capturado e encarcerado pela Rússia (libertado graças a uma troca de prisioneiros), diz não ver nada de errado nos yoblyks. "O direito internacional não se aplica ao assassinato de combatentes no campo de batalha", diz. "Os russos vêm atirar em nossos soldados e civis, usam uniforme e merecem seu destino".
Segundo Olena, esposa de Loza, as atitudes na Ucrânia se endureceram após a primavera de 2022, quando soldados russos mataram centenas de civis e deixaram seus corpos nas ruas de Bucha e Mariupol. "Não me parecem vídeos informativos", diz sobre os yoblyks. "Eu já estou furiosa com a Rússia".
Na sede do Magyar's Birds, Catman sustenta que o humor negro é essencial em tempos de guerra. "É importante que nosso próprio povo diga que não estamos nos limitando a sobreviver", explica. "Temos que demonstrar que estamos avançando e que estamos contra-atacando com força o inimigo".
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