Deus, Pátria, Família e Mentira: os pilares de um passado irreal e jamais realizado. Entrevista com Paulo Schiller

Movimento político de viés nazifascista do Brasil dos anos 1930, tríade integralista do século XXI mantêm-se de pé com a adição de um quarto pilar, a mentira

Foto: João Canizares/Agência Pública

Por: Cristina Guerini | 31 Agosto 2026

O crescimento da extrema-direita no Brasil na última década trouxe à tona, novamente, os ideais integralistas embalados em um discurso conservador e sem nenhuma reserva de fazer referência aos regimes totalitários da primeira metade do século passado. Mas há um elemento, não dito, que é essencial para compreender tais palavras de ordem.

“Os políticos que defendem a expressão ‘Deus, Pátria e família’ costumam com frequência ser contradições vivas desses termos: agem como quem não acredita em preceito religioso ou em Deus algum, não hesitam em entregar a soberania nacional a países estrangeiros e exibem vidas familiares tumultuadas, cheias de conflitos. Assim, mentira se aplica à expressão como o invólucro que a contém: funciona, sim, como o quarto elemento que abraça a tríade”, explica o psicanalista e escritor Paulo Schiller, em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas UnisinosIHU.

Na prática a invocação desse ideário e seu campo semântico tem a ver com uma nostalgia de um tempo imaginado e jamais realizado (ou realizável). “A direita propõe a ‘política da eternidade’ sempre com o projeto de um retorno a um passado ideal em que a nação era pura e não havia corrupção”, pontua o entrevistado.

Diante este contexto, a psicanálise ocupa um papel diferente das ciências sociais ou da história para compreender tais fenômenos, que se volta, precisamente, para as relações humanas. “A psicanálise não deve entrar nesse debate pela mesma vertente que os cientistas políticos e sociais, economistas e historiadores. A psicanálise pode contribuir por meio de sua especificidade: a psicanálise é uma clínica e é a partir dela que devemos examinar se ela tem algo a oferecer”, ressalta Schiller. “Como diz Freud, é na família que se origina a submissão do indivíduo ao grupo, a entrega da liberdade em nome de uma hipótese fantasiosa de que há “um outro” que sabe o que é melhor para nós”, complementa.

Paulo Schiller | Foto: Renato Parada/AltaRes (Imagem cedida por Todavia Editora).

Paulo Schiller nasceu em São Paulo. É psicanalista, médico e tradutor, conhecido por verter do húngaro escritores como Sándor Márai e Imre Kertész, entre outros.

Confira a entrevista.

IHU – Gostaria de começar a entrevista fazendo uma breve digressão e perguntando se não seria mais preciso acrescentar ao tripé conservador extremista – “Deus, pátria e Família” – um quarto descritor, precisamente, a “mentira”. Por que a mentira é um elemento central nessa dinâmica?

Paulo Schiller – Os políticos que defendem a expressão “Deus, Pátria e família” costumam com frequência ser contradições vivas desses termos: agem como quem não acredita em preceito religioso ou em Deus algum, não hesitam em entregar a soberania nacional a países estrangeiros e exibem vidas familiares tumultuadas, cheias de conflitos. Assim, mentira se aplica à expressão como o invólucro que a contém: funciona, sim, como o quarto elemento que abraça a tríade. Segundo Umberto Eco as duas características fundamentais dos regimes fascistas são a promoção da mentira e da violência.

IHU – Parece haver, nos projetos da extrema-direita, uma espécie de cancelamento do futuro, na medida em que se convoca um passado imaginado e nostálgico que, a rigor, nunca existiu. Em que se ampara o projeto político da extrema-direita?

Paulo Schiller – O escritor búlgaro Georgi Gospodinov diz que os líderes de extrema-direita são traficantes de nostalgia. A direita propõe a “política da eternidade” sempre com o projeto de um retorno a um passado ideal em que a nação era pura e não havia corrupção. Esse passado mítico nunca existiu de fato, mas a fantasia de uma volta a uma época sem manchas é sedutora. Assim, pautas e programas voltados para o futuro têm um caráter secundário. Duplicam, de certa forma, a indiferença e o descuido que essas mesmas pessoas têm pelos seus filhos (o futuro) em casa.

Livro "A paixão pela mentira: a família e as tiranias", de Paulo Schiller (Imagem cedida pela Editora Todavia).

IHU – Sua investigação sobre a mentira, em seu livro A paixão pela mentira (Todavia, 2026), parece tratar do fenômeno distante de uma perspectiva moralista, mas precisamente como uma espécie de irmã gêmea da paixão pela violência. Como estas duas coisas dão as mãos no mundo de hoje?

Paulo Schiller – O modo de existência dos governos fascistas se ampara na promoção de um conflito permanente dirigido a quem comprometeu a pureza da instituição religiosa, a família e a Pátria. Em geral se nomeia um inimigo que constitui uma minoria étnica, religiosa ou ideológica integrante do ambiente ou vinda de fora na forma do imigrante.

IHU – Quais são as principais diferenças dos projetos fascistas dos anos 1930 e os atuais do século XXI?

Paulo Schiller – Os projetos fascistas dos anos 1930 tinham objetivos políticos mais claros, como a expansão territorial, um ímpeto colonizador, e a nomeação dos inimigos do regime era bastante clara desde o início. Nos dias de hoje, como os projetos político e econômico são menos claros, pouco enunciados, ganha relevância a pauta de costumes e a exploração do medo por meio da promessa de segurança pelo uso da violência.

IHU – Como a psicanálise pode contribuir para o debate contemporâneo em torno dos regimes totalitários vigentes da atualidade?

Paulo Schiller – A psicanálise não deve entrar nesse debate pela mesma vertente que os cientistas políticos e sociais, economistas e historiadores. A psicanálise pode contribuir por meio de sua especificidade: a psicanálise é uma clínica e é a partir dela que devemos examinar se ela tem algo a oferecer. Meu livro busca justamente o que de certa forma Theodor Adorno identificou na pesquisa relatada por ele em “A personalidade autoritária”. Como diz Freud, é na família que se origina a submissão do indivíduo ao grupo, a entrega da liberdade em nome de uma hipótese fantasiosa de que há “um outro” que sabe o que é melhor para nós.

IHU – Como pensar as dinâmicas das relações pode nos ajudar a compreender aspectos sociais e políticos que são mais amplos?

Paulo Schiller – Todas as histórias familiares abrigam transgressões. Algumas perpetuam violações maiores, perversões que se repetem a cada geração. O encanto por regimes autoritários se deve à autorização das lideranças para que transgressões estejam autorizadas no espaço público, duplicando assim o que acontece no ambiente doméstico.

IHU – A história da família costuma ser vista e contada a partir de uma idealização moral de um passado irreal. Como e por que isso se reflete em perspectivas políticas e ideológicas?

Paulo Schiller – De um modo geral a nossa missão é a de proteger a “reputação” das gerações anteriores. Isso se dá por meio de acontecimentos não contados, segredos, omissões e não ditos. Isso tende a coincidir com o passado idealizado, sem manchas, fantasiado pelos regimes fascistas: eles se servem disso para propor uma volta a esse tempo lendário em que cabe qualquer narrativa, pois ele nunca existiu.

IHU – O que significa dizer, partindo de reflexões que vão de Freud a Calligaris, que a violência e a destrutividade operam como resíduos psicológicos e que emergem em situações de crise? Socialmente, quais as consequências disso?

Paulo Schiller – O que eles querem dizer é que as teorizações históricas, econômicas e sociais não dão conta de explicar tudo. Existe sempre um resíduo que é do campo subjetivo, individual da psicologia ou da psicanálise. Eles se referem à constituição do sujeito a partir de sua história familiar.

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IHU – Embora as perguntas dessa entrevista estejam fundamentadas em seu livro A paixão pela mentira (Todavia, 2026), gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a obra. Como ela foi concebida e é destinada a que público?

Paulo Schiller – O livro nasceu de uma preocupação antiga: por que tantos se encantam por regimes autoritários, antidemocráticos? Hitler chegou ao poder por meio de uma eleição livre. Essa questão foi renovada quando, no início da pandemia, eu vi médicos defendendo drogas sem eficácia para a Covid ou depreciando a importância das vacinas.

Vi pessoas à minha volta apoiando justamente um regime em que elas seriam as primeiras prejudicadas. Por outro lado, sempre desejei escrever um livro que tornasse a psicanálise acessível a um grande universo de leitores leigos. Portanto o livro é dirigido a todos que têm preocupações políticas e uma curiosidade pela clínica psicanalítica.

IHU – É possível sair do estado catártico (em certo sentido confortável) da mentira e mergulhar na vertigem da realidade? Como? Aliás, é desejável?

Paulo Schiller – A mentira propicia uma alienação, um distanciamento de cada um de si mesmo. A lucidez proporciona algo que para muitos é difícil: sustentar-se em uma teoria pessoal única, sem submissão a um outro que sabe o que é bom para cada um de nós. Como dizia Voltaire, a dúvida é incômoda, mas a certeza é ridícula.

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