A fé é a sedução do Senhor, não uma doutrina ideológica

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28 Agosto 2026

"A fé não é uma parte, uma área ou um momento do ser humano, mas envolve e abrange toda a personalidade, a vida em sua totalidade, e é por isso que ela é o elemento fundamental de integração da pessoa humana."

O artigo é de Tomás Muro Ugalde, teólogo basco, publicado por Religión Digital, 24-08-2026.

Eis o artigo.

A primeira leitura do profeta Jeremias tem grande encanto e uma força vibrante: Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir… Fará bem-vindo lermos hoje a Palavra do profeta Jeremias.

O tema central de hoje poderia ser: Sigamos a Cristo porque ele nos impactou profundamente, ele nos cativou.

01. Seguimos o Senhor porque ele nos seduziu / seduz

"Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir", ouvimos o profeta.

Seduzir [1] significa uma forte atração que chama ou convida alguém a "deixar-se de si mesmo por outra pessoa, por outra realidade". Seduzir é dominar ou cativar o espírito, a alma. Seduzir é exercer poder sobre alguém ou deixar-se dominar por um grande fascínio e atração.

Existem realidades na vida que exercem grande atração, grande encanto e sedução: a beleza física e espiritual, a arte (emoção estética), o sentimento de pertencimento a uma cultura-nação (onde se nasceu), a sexualidade, a vocação religiosa, o "chamado" ao matrimônio ou à vida religiosa, a fé, os valores de algumas pessoas, etc.

Jeremias sentiu-se fascinado e seduzido pelo Senhor.

Sinto-me chamado, seduzido por Jesus Cristo?

01. A fé é uma paixão infinita.

A  é o ato (atitude) que permeia toda a personalidade. A fé é uma sedução, e se não o for, torna-se mera aceitação de uma doutrina, de uma ideologia.

A não é uma parte, uma área ou um momento do ser humano, mas envolve e abrange toda a personalidade, a vida em sua totalidade, e é por isso que ela é o elemento fundamental de integração da pessoa humana.

A fé é o ato mais central da existência humana.

A fé dá unidade e significado — direção — a todas as preocupações e atividades da pessoa humana. Vive-se "por" e "em direção a" algo ou "por" e "em direção a" alguém. Faz-se coisas "por" algo que é muito valioso, absoluto, para cada um.

Essa maneira de entender a fé é essencialmente um comentário sobre Dt 6,5: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças.

02. Fé e Religião

É por isso que e religião não são a mesma coisa.

O bispo anglicano, J.A.T. Robinson, [2] disse que a religião é uma área delimitada da vida. A religião é uma parte de nossas vidas, mas não as abrange por completo. A religião é uma “província delimitada” na vida de um ser humano.

Em nossas atividades diárias, funcionamos sem depender da : família, trabalho, escolhas políticas, lazer, compras, viagens, etc., mas aos domingos praticamos a religião e vamos à missa; e fazemos o mesmo em outros momentos da vida: no nascimento: batismo; na morte: funeral, etc. Na vida cotidiana, funcionamos "perfeitamente" sem fé e com um pouco de religião de forma mais "esporádica".

No entanto, a fé é um ato — uma atitude — que ocorre no âmago do ser e constitui o centro da pessoa. [3] A fé é uma paixão infinita pela graça e pelo amor de Deus.

A é o ato mais central e pessoal da mente e do coração. Quando alguém crê (fé), essa fé permeia toda a sua vida, todos os seus pensamentos e todas as suas ações. O crente (fé) vê e vive toda a sua vida sob a perspectiva de Jesus Cristo: vida, morte, doença, família, etc.

Quantos exemplos de fé cristã absoluta houve ao longo da história! São Paulo a caminho de Damasco (da vida), Santo Agostinho, Inácio de Loyola, que, após o acidente militar em Pamplona, ​​durante sua longa convalescença, se converteu, e essa fé mudou radicalmente o sentido de sua vida e seu modo de viver. Francisco Xavier, e certamente você também.

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Natureza passiva da fé.

Por isso, a fé não é uma conquista do ser humano que se adquire como alguém que obtém um diploma acadêmico.

A fé não é algo ativo, não é uma atividade do homem... A fé tem um "caráter receptivo e passivo". Nós acolhemos a fé em nossas vidas.

Alguns exemplos.

O que faz um casal jovem — ou nem tão jovem assim — para se conhecer, se apaixonar e amar um ao outro? Eles simplesmente se entregam a esse fascínio enorme, a esse "tsunami", a essa sedução que os arrebata na forma de beleza, encontro, afeto, amor... Sabemos que mais tarde teremos que organizar esse tsunami, mas, em princípio, acolhemos o que nos vem.

O que faz um jovem – que atividade – quando descobre a sua pertença a um povo, a um grupo étnico, e decide dedicar a sua vida a uma causa sociopolítica e patriótica como essa? A sua vida torna-se impregnada dessa realidade: a pátria. (Já sabemos disso amplamente).

Milhares de vezes passamos pela bela igreja românica ou renascentista da nossa cidade sem sequer pensar duas vezes, e então, um dia, percebemos que se trata de um esplêndido "ícone" que nos fala de um vasto mundo cristão, um universo de significados repleto de valor. O que fizemos para provocar essa "revelação"? Nada além de acolher o que nos é apresentado (turistas e estrangeiros, cuidado!).

Quando São Paulo “caiu do jumento”, mais do que do cavalo, ele foi seduzido por Cristo, assim como tantos outros na história.

Que atividade fizemos para que um pôr do sol, ao contemplarmos o horizonte, ou uma noite profunda nos falem e nos chamem?

Quando uma pessoa com doença terminal vê a imagem da Virgem de sua cidade em sua mesa de cabeceira ou olha para sua aliança de casamento, ela se abre e absorve inúmeras memórias e experiências que provavelmente evocam mais paz do que todas as teologias da história.

Aqueles que compreendem a passividade do apaixonar-se, o poder inspirador da arte, a força avassaladora da natureza, começam a compreender a fé. Talvez seja por isso que é difícil ser crente numa civilização tão frívola quanto o capitalismo. Tudo o que o capitalismo toca torna-se objeto de consumo, mas não de admiração ou misticismo.

Assim, a é o estado de ser possuído (seduzido) por uma preocupação fundamental. [4]

A fé não é uma questão de decisão deliberada sobre o que eu quero ou vou acreditar. é ser possuído pelo Espírito, nas palavras de K. Rahner, pela plenitude. Acreditar é sentir-se abraçado e preenchido por Deus.

Sedução

A sedução é uma força “não racional” que “arrasta” os seres humanos. “Irracional” não significa que não seja valiosa ou boa, muito menos que o que é não racional seja ruim; quero dizer, sim, que a fé não depende, pelo menos não exclusivamente, da razão, mas da sedução.

03 Seguir a Cristo é ser vencido e seduzido por sua bondade, por sua salvação.

A sedução cristã é ser subjugado pela profunda graça, justificação e serenidade que nos vêm do Senhor Jesus Cristo.

O fascínio do Senhor vem de abraçar o mistério supremo da vida, de compreender o significado de tudo o que a vida coloca em nossas mãos, do amor, da entrega, da oração e da contemplação.

Na vida, especialmente em certas idades, nos faz bem sentir e viver segundo o chamado sedutor do Senhor. Pouco mais podemos fazer, e nos faz bem viver como disse o profeta Jeremias:

A tua palavra era como fogo ardente dentro de mim (Jeremias 20,9). Que possui algo do calor de Emaús.

[1] Sedução vem do latim: seducere onde se- significa separado ou fora e ducere significa conduzir). Seu significado original era "conduzir alguém para o lado". A sedução nos leva "para fora de nós mesmos" e, com sorte, em direção a algo ou alguém positivo.

[2] JAT Robinson, Sincere to God, Barcelona, ​​​​1968.

[3] Tillich, P. Dinâmica da Fé, 10.

[4] Tillich, P. Dinâmica da fé, 99.

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