28 Agosto 2026
Em um texto dirigido a Deus, Jeremias lamenta a terrível mensagem que deve entregar ao povo e culpa Deus por tê-lo enganado e o arrastado violentamente para essa missão. Iniciando a parte final da carta aos Romanos, Paulo os exorta – como um sacrifício – a uma vida que não se conforme com os tempos, mas que saiba viver plenamente a novidade do Evangelho.
Dirigindo-se primeiro a Pedro, em contraste com aquele que é a “rocha” fundamental, ele é descrito como sendo semelhante a Satanás, alguém que impede Jesus de seguir o caminho, colocando-se em seu caminho. Depois, aos discípulos, é dito que, para ser verdadeiramente um discípulo, não basta apenas seguir Jesus, mas também negar a si mesmo e avaliar sensatamente o valor da própria vida.
O comentário é de Eduardo de la Serna, comentando o evangelho do 22° Domingo, ciclo A, publicado por Religión Digital, 27-08-2026.
Eduardo de la Serna é padre argentino e membro do Grupo de Padres na Opção pelos Pobres.
Eis o comentário.
Leitura do livro do profeta Jeremias 20:7-9
Resumo: Em um texto dirigido a Deus, Jeremias lamenta a terrível mensagem que deve entregar ao povo e culpa Deus por tê-lo enganado e o arrastado violentamente para essa missão.
No livro do profeta Jeremias, encontramos uma série de textos autobiográficos que muitas vezes — e talvez não com total precisão — foram chamados de “Confissões”, título inspirado por Santo Agostinho. Na realidade, são um lamento progressivo a Deus pela situação violenta que o profeta enfrenta por causa de seu ministério (cf. 11,18–12,6; 15,10–21; 17,12–18; 18,18–23; 20,7–18).
Como sua mensagem é muito dura (os babilônios se aproximam ameaçadoramente, e Jeremias anuncia “destruição” e “terror” como castigo de Deus por ter abandonado sua aliança), ele é duramente criticado, maltratado e, por vezes, sua morte é desejada. Podemos dizer que Jeremias sofre muito em sua vida, e isso se deve a Deus, que o chamou como profeta para anunciar a desolação. É nesse contexto que o texto litúrgico deve ser lido.
O lamento de Jeremias, neste caso, encontra-se em 20,7-18 e na liturgia apenas a primeira parte é lida.
A primeira coisa que o profeta afirma, num texto dirigido a Deus (abrindo assim um novo horizonte, visto que geralmente nos textos proféticos é Deus quem fala por meio do profeta), é que Deus o “seduziu” (pe titanî). O verbo indica o uso da força contra uma vítima, particularmente a força sexual (cf. Ex 22,15; Jó 31,9), mas também se refere ao engano (Dt 11,16; Sl 78,36; Pv 1,10; que também pode ser sexual, cf. Jz 14,15; 16,5), como o dos falsos profetas (1 Rs 22,19-23; Ez 14,9).
O verbo reaparece no v. 10, e ali a conotação parece novamente sexual, embora neste caso não seja Deus quem age contra ele, mas sim os inimigos. O verbo “apoderar-se” (hazaq) também é usado no sentido de violência sexual (Dt 22,25; 2 Sm 13,11; Pv 7,13). O responsável por essa violação do profeta é Deus, que o incumbiu de profetizar contra o povo. E é precisamente esse povo que perpetra violência contra o profeta.
À violência soma-se o escárnio. O profeta deseja não ter que pregar, pois o que deve dizer é desagradável, mas não pode permanecer em silêncio. O texto apresenta, assim, um Deus enganador (em outra das “confissões”, ele o chamou de “miragem”, 15,18), em quem é impossível confiar e que não é melhor do que os “amigos” de Jeremias, que o traem. A angústia do profeta é total, e ele parece dirigir seu lamento desesperado a Deus, pretendendo movê-lo a agir em seu favor. Sua crise interior é evidente porque ele sente dentro de si uma incapacidade de permanecer em silêncio sobre o que deve dizer ao seu povo em nome de Deus. O conteúdo da pregação, feita com “gritos” e “choro” (gritos de angústia), é “violência” e “destruição”.
O Deus que se revela como um “fogo consumidor” (Êx 24,17; Dt 4,24; 9,3; Is 33,14) recebe essa imagem em Jeremias, que fala da sua palavra (Jr 5,14; 23,29). E esse fogo é aceso em seu coração (a sede de suas decisões) e arde em seus ossos, em seu ser mais profundo. É impossível escapar.
Leitura da carta de São Paulo aos cristãos de Roma 12,1-2
Resumo: Iniciando a parte final da carta aos Romanos, Paulo os exorta – como um sacrifício – a uma vida que não se conforma com os tempos, mas que sabe viver plenamente a novidade do Evangelho.
Como em muitas das cartas de Paulo, após uma seção inicial "teórica" ou doutrinária, segue-se uma seção "prática" ou exortativa. Esta seção é frequentemente introduzida pelo verbo "exortar" (parakalô) (cf. 2 Coríntios 10,1; Filipenses 4,2; Efésios 4,1; 1 Tessalonicenses 4,1). Contudo, surge uma questão neste caso — uma questão sobre a qual diferentes estudiosos divergem em suas respostas — visto que a comunidade romana não foi fundada por Paulo, e que não os conhecia nem o conhecia.
Que autoridade Paulo alega ter sobre os romanos para exortá-los a um modo de vida específico? O que Paulo realmente sabe sobre os romanos para aconselhar ou exigir um comportamento particular? É provável que o que o apóstolo exorta seja um comportamento bastante geral, como uma clara consequência de tudo o que ele tem dito (e que, por vezes, parece inspirado pelo que ele disse em cartas anteriores, considerando que Romanos é a última carta de Paulo).
Em termos estritos, parakalô possui diversos significados importantes: exortar, encorajar, pedir, convidar, solicitar, consolar, dar coragem, confortar… mas não se trata de “ordenar”, “exigir”, “compelir” ou “obrigar” (daí também o vocativo “irmãos”, muito frequente nas seções exortativas das cartas); a linguagem é igualitária. É a atitude de um pai ou de uma mãe (cf. 1 Coríntios 4,14-15; 2 Coríntios 6,13; 12,14-15; Gálatas 4,19; 1 Tessalonicenses 2,7, 11; cf. Filemom 8-9). Se Paulo falou de graça (Romanos 1-11), agora ele falará de “graça em ação”.
O convite para oferecer “os corpos” deve ser entendido – como em 6,13 – no sentido de oferecer a si mesmo (cf. 1 Coríntios 6,20; Filipenses 1,20). E essa doação de si é apresentada como um “sacrifício vivo [thysian], santo [hagian] e agradável [euareston] a Deus”. Sacrifício geralmente é animal (o verbo tem sua raiz em fumaça, aludindo à parte da oferta que era queimada para os deuses).
Paulo nunca se refere à morte de Cristo como um “sacrifício”, mas usa o termo – como aqui – para se referir à vida dos cristãos (cf. Filipenses 2,17; 4,18). Aqui, ele a descreve como viva (o que é uma contradição, visto que sacrifício é morte), santa e agradável a Deus. Essa vida, entendida dessa maneira, é apresentada como “liturgia espiritual” (logikên latreias). O termo grego “logikós” (cf. 1 Pe 2,2) pode ser entendido como algo “apropriado” (em relação a Deus, como é o caso; o termo vem de logos e pode significar “razoável”). Latria é propriamente serviço a Deus (não necessariamente litúrgico, cf. 1,9). Mas esse serviço é descrito como “logikós”; o cristão é chamado a viver sua vida de maneira racional, com a fé e a graça de que Paulo falou nos capítulos anteriores.
Para ilustrar isso, Paulo usa dois elementos, um negativo (não se conformem) e um positivo (sejam transformados). “Conformar-se” é um verbo incomum (encontrado apenas aqui e em 1 Pedro 1,14). Refere-se a adotar um molde, um padrão preestabelecido (sysjêmatizô), e tem uma conotação moral.
Significa conformar-se a um modelo que, neste caso, é avaliado negativamente, e refere-se a “este tempo” (aiôn). Este tempo, neste caso, não se refere a um elemento temporal, mas a um modo de vida “dos contemporâneos” (cf. 8,18; 2 Coríntios 4,17). Por estar “em Cristo”, o cristão pertence a uma “nova era” (cf. 8,1-2; 2 Coríntios 5,17; Gálatas 6,15).
Ele então apresenta a mesma ideia, mas de uma perspectiva positiva: a transformação através da renovação da mente. Para não se "conformar" aos tempos, é preciso ser "transformado" (metamorphousthe) por uma mudança fundamental, uma renovação (anakainôsis) que se presume ser contínua, ao longo da vida. A "mente" (nous) é importante — e frequentemente aparece ao lado de logikós — e Paulo a utilizou em 11,34, citando Isaías 40,13, onde o termo hebraico ruah (= espírito) foi traduzido para o grego como "nous", mente.
Paulo falou da "mente de Deus", da interioridade de Deus, da maneira divina de julgar e ver a história. Nesse caso, isso permitirá reconhecer (dokimazô, julgar, avaliar, saber reconhecer ou distinguir o verdadeiro do falso) "a vontade de Deus" (cf. 2,18; Filipenses 1,10). Visto que Paulo — ao longo da carta — confronta a Lei, ele não se refere a ela como “a vontade de Deus” (cf. 1 Tessalonicenses 5,21): “Examinem tudo; retenham o que é bom”.
Os três elementos afirmados a respeito do sacrifício são repetidos aqui: o que é bom, o que agrada a Deus (repetido tanto ali quanto aqui) e o que é perfeito. “Bom” (o único dos três com artigo definido) parece ser o que atrairá os outros (cf. 12,9, 17, 21; 13,3, 4). “Perfeito” (teleios) alude precisamente à nova era (cf. 1 Coríntios 2,6; 13,10; Filipenses 3,15). É precisamente a essa plenitude de vida que ele exortará seus leitores.
+ Evangelho segundo São Mateus 16,21-27
Resumo: Dirigindo-se primeiro a Pedro, em contraste com aquele que é a "rocha" fundamental, ele é apresentado como Satanás, alguém que impede Jesus de seguir o caminho, colocando-se em seu caminho. Em seguida, aos discípulos, é dito que, para ser um verdadeiro discípulo, não basta apenas seguir Jesus, mas também negar a si mesmo e avaliar sensatamente o valor da própria vida.
Já discutimos a primeira parte deste texto em detalhes em um artigo bíblico sobre “Pedro” que pode ser encontrado em nosso primeiro blog. Apresentamos aqui os pontos principais e remetemos os leitores a esse artigo para obter mais detalhes.
Este texto deve ser lido em paralelo e de forma antitética com a leitura do Evangelho da semana passada (“tu és Pedro…”), visto que se complementam. O padrão é claro:
O papel de Pedro na Igreja, abordado no Evangelho da semana passada, foi-lhe dado porque ele se deixou inspirar por Deus; por isso, foi proclamado "bem-aventurado", e a metáfora da rocha é a de um alicerce sobre o qual se constrói. Mas neste caso — e sem dúvida, o papel de Pedro pode ser interpretado em ambas as direções — ele não se deixou inspirar por Deus, mas pelos seus próprios pensamentos, e neste caso, ele é uma "pedra de tropeço". A expressão "Sai do caminho!" (hypage) é a mesma que Jesus dirigiu ao diabo durante as tentações (4,10).
Obviamente, a referência a Satanás é metafórica; ele lhe diz "saia da minha frente" (ou "vá para trás de mim", vade retro), com o que o convida a ter a atitude do discípulo, que caminha atrás do mestre e não fica à sua frente, impedindo o caminho de Jesus, que é o caminho para a cruz.
“Então”, Jesus se dirige a todos, propondo um critério diferente daquele que guia Pedro: “tomar a cruz”, que é — evidentemente — o que o motivou a falar, usando critérios humanos. Isso é o que deve ser feito por aqueles que “vão atrás” de Jesus, aqueles que o seguem (e não aqueles que estão à frente). Não apenas Jesus será morto (é interessante que ele não diga que será na cruz), mas a cruz é o que deve ser carregado por aqueles que desejam ser discípulos.
O termo “negar” (aparneomai) é encontrado apenas uma vez na Bíblia grega, num contexto de rejeição da idolatria (Isaías 31,7), e fora disso, apenas nos Evangelhos Sinópticos, mas geralmente referindo-se às “negações” de Pedro (26,34, 35, 75). Pedro é — neste caso — o completo oposto do que Jesus afirma aqui; ele é quem nega Jesus, não quem nega a si mesmo; Pedro nega a cruz.
A segunda parte do texto é bastante semelhante à de Marcos. Parece ser uma série de ditos de Jesus agrupados em torno de um único tema: seguir Jesus. Aqueles que se comprometem a seguir Jesus (“se alguém quiser”) devem “negar a si mesmos”, “tomar os seus fardos” e “seguir”. Seguir um mestre que se aproxima cada vez mais da morte é o destino que aguarda seus discípulos.
Salvar a própria vida e perdê-la, e depois ganhar e perder o mundo ou a própria alma/vida, é um paralelo claramente antitético. Trata-se de avaliar o que é mais valioso: arriscar ou perder a própria vida e permanecer ou não fora da vida que Jesus proporciona. Ganhar a própria vida significa ser capaz de arriscá-la. Trata-se de um encontro inesperado, uma descoberta. Perder ou encontrar a "psique" (alma/vida) não deve ser entendido no sentido dualista típico do mundo grego. Trata-se da própria vida. O "mundo" (não deve ser entendido no sentido joanino, onde se refere a um ambiente perverso e hostil para Jesus) aparece aqui como aquilo que impede o discípulo de seguir Jesus. O significado é escatológico.
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