28 Agosto 2026
A última tendência viral acontece no plano físico: jovens que se reúnem para competir com gestos e poses que remetem ao meme e evocam a origem da cultura 'ballroom'.
A reportagem é de Marita Alonso, publicada por El País, 26-08-2026.
Nos últimos dias, é provável que você tenha ouvido um conceito: farmar aura. Se você não pertence à geração Z e já viu algum dos vídeos que ilustram essa tendência, é bem possível que sua primeira reação tenha sido de perplexidade. Nesses encontros, os participantes se reúnem no espaço público para competir entre si com poses, gestos, piruetas e olhares baseados no repertório do viral e do meme. O objetivo é ser engenhoso, conseguir referências reconhecíveis e, de certo modo, surpreender o adversário. Mas, mesmo assim, é preciso ver para entender. E foi isso que fizeram Rosalía e Loli Bahía quando, durante sua recente estadia no México, se aproximaram para dar uma olhada em uma dessas batalhas e, claro, foram flagradas pelas câmeras dos presentes.
Para entender o sentido desse fenômeno, convém observar, em primeiro lugar, o próprio termo. Farmar vem da cultura gamer e se refere a repetir uma série de ações para ganhar pontos, obter recursos ou experiência. Já o 'aura' remete ao carisma, ao estilo, à presença ou à capacidade de gerar admiração. Esse último conceito se tornou muito popular nas redes e no universo streamer, embora possa lembrar aquela qualidade intangível da arte que, segundo Walter Benjamin, estava sendo aniquilada pelas cópias em massa. Mas, em 2026, nos aura farmings, longe de ser destruída, a aura é produzida, acumulada e valorizada pelo olhar externo. Nas batalhas, que acontecem em espaços físicos, o físico e o digital se hibridizam: são encontros presenciais, mas repletos de gestos, memes e referências que vêm do mundo virtual. Não é por acaso que um dos gestos mais repetidos seja o já famoso 'six seven'.
Zombarias e atualização de códigos
Diante da popularização do termo, e como já ocorreu com os therians (pessoas que se identificam, em um plano psicológico ou espiritual, com um animal não humano), começam a surgir discursos sobre uma suposta decadência moral da sociedade que renunciam a compreender esse fenômeno e suas particularidades. Essas críticas ignoram, por exemplo, que esses encontros conseguiram afastar os adolescentes das telas, algo que, paradoxal e precisamente, era o que até agora se cobrava deles. "Muitas das zombarias vêm de algo muito simples: estamos vendo de fora uma cultura que já não foi feita para a nossa geração. Quando não entendemos os códigos, a linguagem ou a lógica por trás de uma tendência, é muito fácil reduzi-la a 'que ridículo' ou 'que cringe'. Mas isso aconteceu praticamente com todas as gerações", explica ao ICON a equipe do Casi Creativos, que aborda a terapia a partir de uma perspectiva social e feminista. "Vivemos uma amnésia geracional: quando lembramos do que era nosso, vemos com nostalgia; quando vemos o dos outros, julgamos de cima. E é aí que deveríamos fazer o exercício contrário: nos perguntar se realmente é algo negativo ou se simplesmente não entendemos porque já não fazemos parte dessa etapa", garantem.
Acrescentam que os jovens não têm a obrigação de criar uma cultura que seja compreensível ou agradável para os adultos, pois crescer consiste justamente em construir códigos próprios, formas de pertencimento, maneiras de se expressar e atividades que os diferenciem das gerações anteriores. "Se cada geração tivesse que fazer apenas coisas que seus pais consideram válidas, não existiria uma cultura juvenil própria", ponderam.
Para alguns de seus adeptos, essas batalhas, que já chegaram a Coruña, La Laguna ou Barcelona, não são apenas um passatempo, mas "um estilo de vida". É o caso do argentino Gonzalo Martin Alonso, que se autoproclama "o primeiro farmador de aura nacional". "Farmar aura é um estilo de vida porque é algo que nunca se deixa de fazer. A aura se leva para todos os lugares e não se deixa de obtê-la, está impregnada em nossas roupas, em nosso jeito de ser, de se mover e até em nossa linguagem. É meu estilo de vida, assim como também é minha forma de expressão e de me divertir. Não posso viver sem a aura, e ela não pode viver sem mim", garante ao ICON.
A antropóloga social Belén Silva adverte que, embora seja possível pensar em uma continuidade online-offline, o conveniente é evitar a ideia de uma simples sequência que passa da internet para a rua. "O processo é mais circular", explica. "Vai das redes para a imitação corporal, depois para o encontro presencial, que é gravado, publicado e comentado, dando origem a novas performances. A prática presencial atualiza os códigos digitais, mas também os modifica. Uma pose que na internet era um gesto isolado pode se transformar em uma rodada competitiva. Uma expressão irônica pode adquirir regras. Um meme pode se transformar em ritual", explica.
Sobre o tema, reflete Érika García, jornalista de estilo de vida. "Fico feliz de ver que algo que nasce na internet está fazendo com que os garotos larguem o celular um pouco, saiam à rua, voltem a fazer coisas juntos e se relacionem cara a cara. Evidentemente, depois vão gravar e postar no TikTok, porque essa é a forma deles de compartilhar, mas a experiência está acontecendo fora da tela", garante. "Muitas dessas coisas que parecem tão novas são comportamentos que sempre existiram: competir, brincar, fazer coisas para impressionar os outros, paquerar, 'se exibir', ter códigos próprios dentro de um grupo… O que muda é a forma de contar e, sobretudo, que a internet dá nome a tudo. Com o farmar aura acontece um pouco isso. Você pode ganhar ou perder aura pela forma como faz algo, por uma resposta, por fazer feio ou por ter um momento especialmente legal. São coisas que sempre aconteceram nos grupos de amigos, só que agora têm um nome e regras mais ou menos compartilhadas", acrescenta.
A celebração da diversidade
A Associação LGTBIQA+ Diversas Canarias comenta que existem muitos pontos em comum entre essa nova expressão da cultura digital e algumas dinâmicas da cultura ballroom, a semente da cena drag que nasceu nos anos 1980 a partir de competições de improviso, dança ou caracterização. "O fenômeno do farmar aura não usa uma linguagem nova. Detectamos que as batalhas de aura bebem da cultura do ballroom impulsionada pelas comunidades LGBTIQA+ no final do século passado, principalmente pelas comunidades negras e latinas. Vale lembrar isso, ainda que o farmar atual não nasça de um contexto estrutural de opressão histórica e dissidência social como aconteceu com nosso coletivo", garante seu secretário e porta-voz, Sergio Siverio. O ativista aponta algumas coincidências. "Em ambos os fenômenos busca-se conferir reconhecimento social por meio de uma competição saudável, construir uma estética performática dissidente, demonstrar habilidades em diversas categorias, construir identidades cênicas com a criação de personagens, reinventar os códigos estéticos copiando tendências existentes para lhes dar um estilo próprio, passar das palavras à ação com uma demonstração de aura e dissidência", explica. Também a presença de público, que é quem deve avaliar as diversas atuações, aproxima o fenômeno da cena ballroom.
Há mais coincidências. Se as festas ballroom serviram para criar um espaço de liberdade à margem da homofobia e da transfobia dominantes, as batalhas de farmar aura deixam de lado a vergonha, algo muito libertador para uma geração que tem pavor de dar cringe. "Fazer feio tem um valor: aprender que você pode se expor, rir de si mesmo e descobrir que não acontece nada", diz a equipe do Casi Creativos, que acrescenta outros aspectos positivos à lista. "Favorecem a socialização cara a cara, o senso de pertencimento e a criação de novas amizades, mas também implicam perder um pouco o medo de interagir com desconhecidos, participar diante de outras pessoas, se expressar, brincar e compartilhar códigos próprios de sua geração. Além disso, estão voltando a habitar os espaços públicos. Uma praça deixa de ser apenas um lugar de passagem quando os jovens sentem que podem se reunir, ficar e fazê-la sua. Dessas convivências nascem lembranças, amizades, grupos e senso de comunidade", explicam.
Para terminar, Érika García ressalta que todas as gerações participaram de modas das quais os adultos zombaram. "A diferença fundamental é que não havia um celular nos filmando o dia todo nem uma rede social para subir o vídeo e ser visto por milhares de pessoas. Nós também fazíamos feio, muitíssimo. O que acontece é que, felizmente, da maioria dessas coisas não existe documentação gráfica. Mudam os nomes, os códigos e a vitrine, mas não acho que sejamos tão diferentes. Cada geração faz suas próprias bobagens; a diferença é que agora ficam gravadas", diz. Por isso, da próxima vez que você arquear a sobrancelha ao ver algum desses encontros, não se esqueça de que alguém fez o mesmo quando você participava de alguma tendência contemporânea na sua juventude.
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