24 Agosto 2026
A agência britânica de meteorologia Met Office alertou que o El Niño de 2026/2027 pode ser o mais forte em quase 150 anos. Segundo suas projeções, o aumento médio da temperatura da superfície do oceano Pacífico equatorial, que costuma ser de 1oC a 2oC em um El Niño típico, pode superar 3oC. Isso tornará o evento atual o mais forte desde o século 19, com implicações preocupantes para o clima global nos próximos meses.
A informação é publicada por ClimaInfo, 23-08-2026.
“Devemos deixar claro que este é um evento sem precedentes. Nunca vi um sinal de El Niño tão intenso em nossas previsões”, comentou Adam Scaife, chefe de precisão de longo prazo do Met Office. “Se a previsão estiver correta – e outros sistemas de previsão mostrarem valores extremos semelhantes – então 2026 superará em muito nossa experiência recente com o El Niño e suas influências climáticas globais.”
Os impactos do El Niño serão globais, mas Scaife alertou que eles serão particularmente fortes nos trópicos, com expectativa de secas severas nas Américas Central e do Sul e no Pacífico Ocidental. O risco de estiagem também é elevado no sul da África e no nordeste da Austrália. No subcontinente indiano, a temporada atual de monções já indica chuvas abaixo da média histórica, compatíveis com o fenômeno.
Já em locais como sul do Brasil, Chifre da África, Europa Ocidental e leste da China, as chuvas devem ser mais intensas do que o normal. Ao mesmo tempo, as tempestades tropicais devem ter comportamentos diversos no Pacífico e no Atlântico: enquanto os ciclones devem ser mais numerosos e potentes nesta temporada, os furacões devem ser mais esporádicos, ainda que com risco de tempestades pontuais mais fortes.
“O Super El Niño que está se desenvolvendo no Pacífico provavelmente será o maior já registrado, atingindo ou superando os níveis do El Niño de 1877-78, que causou impactos generalizados, incluindo fome e cerca de 50 milhões de mortes – entre 3% e 4% da população mundial – principalmente na Ásia e na América do Sul”, assinalou Hayley Fowler, professora da Universidade de Newcastle (Reino Unido), ao Guardian.
O Brasil, por exemplo, viveu entre 1877 e 1879 uma grave estiagem, que ficou conhecida como “A Grande Seca”. Foi uma das piores secas da história do país, atingindo principalmente o Ceará. Estima-se que tenha matado entre 400 mil e 500 mil pessoas, por fome, sede e epidemias, como a varíola, além de provocar êxodo em massa de habitantes do Nordeste para outras regiões.
As projeções do Met Office também indicam uma grande possibilidade de 2026 e 2027 desbancarem o topo do ranking dos anos mais quentes já registrados. “Durante grandes eventos de El Niño, uma quantidade significativamente maior de calor é liberada do oceano para a atmosfera, levando a um aumento na temperatura média global, particularmente no ano civil seguinte ao pico de inverno do El Niño. Portanto, é muito provável que 2027 substitua 2024 como o ano mais quente da história e seja mais um ano a ultrapassar temporariamente o limite de 1,5oC acima do período pré-industrial.”
AFP, Al Jazeera, BBC Brasil, Independent, Reuters e Veja, entre outros, também repercutiram as projeções do Met Office para o El Niño.
Em tempo 1
O governo federal está organizando um ciclo de encontros regionais para engajar a sociedade civil na preparação e prevenção de emergências climáticas, especialmente no contexto do El Niño. O primeiro evento do “Diálogo Regional El Niño”, aconteceu na última 5a feira (20/8) no Rio de Janeiro. Segundo o Valor, estão previstos encontros em Manaus (AM), Fortaleza (CE), Santarém (PA), Campo Grande (MS), Petrolina (PE) e Porto Alegre (RS). Além de compartilhar previsões climáticas e apresentar os planos de ação do governo federal, os encontros também servirão para incorporar as demandas locais às políticas públicas.
Em tempo 2
As capitais brasileiras ainda carecem de uma preparação generalizada para enfrentar os efeitos do El Niño no sistema público de saúde. Um levantamento da Folha mostra que, embora algumas delas tenham protocolos e estruturas já organizadas, o que predomina são medidas fragmentadas, como monitoramento climático e emissão de alertas. Entre as 26 capitais estaduais e o Distrito Federal, apenas Curitiba (PR) afirmou ter uma reserva financeira para situações de calamidade.
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