A Unicamp e o golpe de 1964. Artigo de Caio Navarro de Toledo

Foto: Wikimedia Commons

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22 Agosto 2026

Criada sob o signo do golpe, a Unicamp oscilou entre a submissão ao arbítrio e a resistência de sua comunidade, e as reparações tardias revelam que o passado ainda não foi inteiramente digerido.

O artigo é de Caio Navarro de Toledo, publicado por A Terra é Redonda, 20-08-2026.

Caio Navarro de Toledo é professor aposentado do Departamento de Ciência Política da Unicamp. É autor, entre outros livros, de O governo Goulart e o golpe de 64 (Brasiliense).

Eis o artigo.

Os primórdios da Universidade (1966-1978)

A Universidade Estadual de Campinas, que, neste momento, completa 60 anos de existência, nasceu e se consolidou durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). O ato-fundador da instituição está revestido de elevado valor simbólico na medida em que o criador e os apoiadores do projeto da Universidade buscavam, em seu nascedouro, associar a Unicamp aos objetivos políticos e econômicos do regime militar. A este respeito um fato é eloquente.

Em outubro de 1966, por ocasião do lançamento da pedra fundamental da Unicamp, o Reitor Zeferino Vaz se empenhou para evidenciar que a universidade estava sendo criada sob o beneplácito dos "revolucionários de 1964"; as presenças do general-ditador Humberto Castelo Branco, Ministros de Estado, governador de São Paulo, prefeito de Campinas, cardeal-arcebispo de São Paulo, empresários e outros, na cerimônia fundadora, não sugerem que estes atores buscavam comprovar a afinidade de objetivos entre a nova universidade pública paulista e o nascente regime militar?

Neste mesmo sentido, caberia lembrar que, anos mais tarde, o Reitor, a fim de mostrar gratidão da Unicamp ao regime discricionário, impôs a um submisso Conselho Diretor, em 1973, a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao Coronel Jarbas Passarinho, atuante conspirador do golpe, signatário do AI-5 e "intelectual orgânico" da ditadura militar.

Registre-se também que, em 2013, uma Reitoria da universidade mandou construir um imenso Painel no campus. Sob a justificativa de homenagear o criador-benfeitor da Unicamp, a insólita edificação igualmente celebra a presença, em anos anteriores, do general Castelo Branco no campus, ali honrado com a designação de "Senhor Presidente da República"... Sublinhe-se o fato: passados quase 50 anos do golpe de 1964, em pleno regime democrático, os dirigentes da universidade não hesitaram em lembrar que o general-ditador prestigiou a criação da Unicamp.

Reconheça-se que, durante o regime militar, a Unicamp não foi palco de violências semelhantes àquelas experimentadas pela USP, UnB, UFRJ, PUC-SP e outras instituições de ensino superior brasileiras; em certa medida, isso se deveu ao fato de que, nos primeiros anos, as entidades representativas da comunidade acadêmica da Unicamp, ainda organizadas de forma precária e incipiente, não foram protagonistas de mobilizações massivas contra a ditadura militar.

No entanto, docentes, estudantes e servidores técnico-administrativos da Unicamp sofreram violências e foram presos por conta de seus envolvimentos políticos com organizações partidárias e movimentos sociais de resistência ao regime militar. Enquanto foi Reitor, em algumas dessas situações, reconheça-se que Zeferino Vaz se mobilizou para suavizar, junto a amigos seus, comandantes militares, a sorte de docentes e estudantes de sua Universidade. Alguns destes membros da comunidade acadêmica, contudo, não deixaram de ser presos e torturados durante o período em que Zeferino Vaz foi reitor da Unicamp.1

Observe-se que, diferentemente da USP e de outras universidades brasileiras, o então Reitor da Unicamp prescindiu das Assessorias de Segurança e Informações, subordinadas ao SNI; especialmente criadas para o controle e a vigilância das atividades dos distintos setores da comunidade acadêmica, as ASEI's faziam o monitoramento de reuniões, salas de aula e diretórios estudantis; elaboravam prontuários sobre "subversivos" que serviam para justificar, sob a égide do famigerado Decreto 477 do MEC, as medidas disciplinares (suspensão e expulsão) contra docentes, estudantes e funcionários.

Sem aparatos oficiais de vigilância, o Reitor, no entanto, contava com uma equipe de abnegados subordinados que serviam para municiá-lo com amplas e minuciosas informações sobre o que ocorria no campus da Unicamp. Quase mil olhos tinha o Reitor…

Associando competência administrativa, sagacidade política e carisma pessoal, a reitoria de Zeferino Vaz, a meu ver, longe esteve de estar comprometida com a transparência e os valores democráticos. Reconheça-se que este estilo de administração, centralizador e, frequentemente, autoritário, não deixa de ser ainda louvado em setores da universidade. Afinal, há um lugar comum no campus: sem Zeferino Vaz, a Unicamp jamais teria chegado ao que foi e ainda é! Na literatura política, autoridades com este perfil têm sido denominadas de "déspotas esclarecidos"...

Embora nunca tenha apelado para os agentes da ditadura para intervir em conflitos internos da Universidade, o Reitor, contudo, sempre esteve sensível às pressões exercidas pelos militares sobre membros da comunidade acadêmica. O Relatório da Comissão da Verdade e Memória "Octavio Ianni" permite-nos conhecer algumas dessas ações contra estudantes e docentes. Tendo em vista o caráter sintético deste texto, fixemo-nos sobre aquele que foi o mais eloquente e indigno ato de submissão da reitoria ao regime militar.

O episódio é conhecido como o "expurgo na Medicina Preventiva". Em 1975, por ocasião da chamada Operação Jacarta, desencadeada em todo o país para reprimir "comunistas", Zeferino Vaz sofreu intensa pressão de comandantes militares, das Fundações estadunidenses Rockfeller e Kellog (financiadoras de projetos acadêmicos da FCM) e da Direção dessa unidade da Universidade. Acusados de serem simpatizantes do PCB, leitores de obras marxistas e, mais grave ainda, de desenvolverem atividades junto a comunidades populares da cidade de Campinas, dezenove profissionais da saúde foram pressionados a se afastar da Unicamp.

O médico sanitarista Sérgio Arouca e sua equipe de pesquisadores, que tiveram um papel crucial na implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), foram desligados da Unicamp, em 1976, sem qualquer reação crítica dos membros do então Conselho Diretor e das entidades representativas da comunidade acadêmica.

Eppur si muove – a comunidade acadêmica se posiciona

De forma breve e à guisa de conclusão, impõe-se reconhecer que, nos anos seguintes à ditadura militar, direções universitárias e entidades representativas da comunidade acadêmica refletiram sobre os "anos de chumbo" e, por vezes, como forma de autocrítica, se posicionaram diante de iniciativas do regime discricionário de 1964 sobre a universidade.

Neste sentido, reparações foram feitas a intelectuais e acadêmicos que sofreram punições e ameaças do regime militar. Entre outros, destaquem-se os nomes de Antonio Candido, Celso Furtado, Paulo Freire, Dom Evaristo ArnsOscar Niemeyer e Boris Vargaftig, preso pela ditadura militar numa sala de aula da antiga Faculdade de Ciências Médicas (FCM), que, após 1980, foram homenageados pelo CONSU com a outorga do título de Doutor Honoris Causa da Unicamp.

Nesta direção, talvez a mais significativa reparação tenha sido a revogação da insultuosa homenagem prestada ao Coronel Jarbas Passarinho. De forma unânime, depois de 48 anos, o CONSU, em 28/9/2021, anulou o título de Doutor Honoris Causa concedido pela Unicamp ao ideólogo da ditadura.

Outra significativa reparação foi a concessão do título de Doutor Honoris Causa post mortem ao ex-docente da Faculdade de Medicina Sérgio Arouca, ocorrida em 7/11/2024. Demitido pelo primeiro Reitor da Unicamp, o CONSU reconheceu, publicamente, a notável trajetória acadêmica do médico sanitarista brasileiro, dentro e fora da Unicamp.

Por sua vez, uma pequena Placa-Totem, erigida ao lado do mencionado Painel, homenageando Zeferino Vaz e celebrando a presença no campus do primeiro ditador no pós-1964, foi inaugurada, em 2016, pela Reitoria que, três anos antes, havia criado a Comissão da Verdade e Memória. O trecho inicial da Placa impõe ser aqui reproduzido: "Por meio desta Placa, a Unicamp presta sua homenagem aos homens e mulheres da comunidade acadêmica que, lutando pela redemocratização, sofreram violências físicas e morais durante o longo período da ditadura militar".

Por último, afirme-se que a criação da Comissão da Verdade e Memória "Octavio Ianni" da Unicamp (2013-2015), que permitiu algumas destas revogações públicas, deve ser reconhecida como um marco decisivo na reflexão da comunidade acadêmica sobre a vida universitária no pós-1964.

Por meio dos trabalhos produzidos pela Comissão, comprova-se que a Unicamp, no revoltoso mar do pós-1964, não foi, definitivamente, uma "ilha tranquila". Ao fim e ao cabo, reconheça-se também que a ameaça presente nos primórdios da instituição não se realizou, pois a comunidade acadêmica, notadamente nos anos seguintes a 1978, resistiu ao arbítrio da ditadura militar e recusou ser por ela tutelada.

Nota

1. A trajetória acadêmica e política de Zeferino Vaz é objeto de um texto publicado no site A Terra é Redonda. Disponível aqui.

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