21 Agosto 2026
"Eles preferem não exibir publicamente as práticas muito piores infligidas aos prisioneiros palestinos nas prisões ou no campo de concentração de Sde Teiman, no Negev. Em decorrência disso, o Israel de Netanyahu proíbe as inspeções internacionais, censura os fatos e mata os jornalistas, reservando-se assim a possibilidade de acusar os testemunhos de serem fake news ou inspirados pelo Hamas: 'calúnias antissemitas'".
O artigo é de Stefano Levi Della Torre, em Appunti di cultura e politica. A tradução é de Luisa Rabolini.
Stefano Levi Della Torre é ensaísta e crítico de arte, está entre as figuras mais influentes, no plano cultural e pela coragem de suas posições, do judaísmo italiano.
Eis o artigo.
Duas pinturas famosas: Guernica (1937), de Picasso, e A Balsa da Medusa (1819), de Géricault. Guernica coloca em cena o primeiro experimento nazifascista de bombardeio total de uma cidade durante a ofensiva franquista contra a República Espanhola; a segunda retrata um naufrágio e pessoas deixadas à deriva no mar devido à incompetência política e burocrática durante a Restauração.
Em sua época, essas grandes imagens foram um grito de escândalo; hoje, chegam até nós notícias de muitas "Guernicas" cotidianas em Gaza, na Cisjordânia ou no Líbano, não como situação de exceção, mas como sistema; notícias diárias de pessoas deixadas para morrer no mar pela omissão intencional de socorro.
A destruição de cidades e o abandono de pessoas à própria sorte no mar são sinais dos tempos: a cotidiana dissuasão terrorista dirigida contra povos que habitam suas próprias terras e contra aqueles que migram. Pela insistência diária de tragédias similares, seu grito chega até nós abafado pela nossa inevitável dessensibilização, e é a nossa própria involuntária participação na guerra.
A bandeira de Ben-Gvir
Em meados de maio de 2026, a desarmada Flotilha Global Sumud, que transportava ajuda para a Faixa de Gaza e denunciava o cerco e a fome propositais, humilhou o Israel de Netanyahu. Para essa humilhação contribuiu a exibição bárbara e estúpida do Ministro da Segurança, Ben-Gvir que, agitando a bandeira israelense e ao som do hino nacional, quis exibir diante do mundo os sequestrados, as humilhações e as torturas infligidos aos participantes da Flotilha, ilegalmente capturadas em águas internacionais e deportadas à força para Israel.
O espírito da operação de Ben-Gvir era totalmente semelhante àquele - publicitário e ao mesmo tempo intimidatório - do "Estado Islâmico", quando sob suas próprias bandeiras exibia diante do mundo o suplício coletivo dos prisioneiros. Ben-Gvir não poupou citações de outros tempos e regimes, bem presentes na memória judaica por ter sido objeto deles: a ameaça de cães raivosos, os números marcados em pulseiras para privar os prisioneiros de seus nomes, a privação de água e sono, a moléstia sexual e o estupro. Reminiscências.
Feios sinais. Sinal de que Ben-Gvir considerou que sua exibição pública poderia ser uma propaganda útil para a extrema-direita em vista das eleições de outubro. Sinal de sua confiança no consenso de uma parte de Israel por tais "valores", especialmente após o trauma do massacre bárbaro perpetrado pelo Hamas e pela Jihad Islâmica em 7 de outubro de 2023, que o governo Netanyahu não teve capacidade ou não quis nem prevenir nem repelir.
A operação internacional da Flotilha representava uma denúncia legítima do etnocídio dos palestinos e da inação dos governos diante de crimes do Israel de Netanyahu e as ostentações de Ben-Gvir serviam apenas para confirmar essa denúncia: um resultado muito ruim para Israel. Um resultado muito ruim reconhecido pela própria liderança, do presidente Herzog e do primeiro-ministro Netanyahu, que se apressaram em declarar que a exibição de Ben-Gvir era uma iniciativa pessoal.
Eles preferem não exibir publicamente as práticas muito piores infligidas aos prisioneiros palestinos nas prisões ou no campo de concentração de Sde Teiman, no Negev. Em decorrência disso, o Israel de Netanyahu proíbe as inspeções internacionais, censura os fatos e mata os jornalistas, reservando-se assim a possibilidade de acusar os testemunhos de serem "fake news" ou inspirados pelo Hamas: "calúnias antissemitas".
E conta com o fato de que muitas pessoas, em Israel, na comunidade judaica e ao redor do mundo, estão inclinadas a acreditar nisso, por sentimento ou por razões psicológicas ou políticas: a tentativa é convencer aqueles dispostos a acreditar nisso de que a violência sistêmica de Israel que Ben-Gvir ineptamente ofereceu ao público mundial representa um caso isolado, "contrário aos princípios de Israel", da "única democracia", etc.
Não surpreende que o tratamento dispensado aos participantes da Flotilha tenha sido alvo de escárnio na televisão pela segunda autoridade do Estado italiano, o presidente do Senado, La Russa, fascista e amigo pessoal de Meghnagi, presidente da Comunidade Judaica de Milão; reflete afinidades eleitorais entre judeus de direita e extrema-direita no governo na Itália e no governo em Israel.
Francesca Mannocchi, no La Stampa, observou com perspicácia que o escândalo midiático provocado pelo procedimento de Ben-Gvir em relação à Flotilha carrega um vago tom eurocêntrico: é o fato de que no caso da Flotilha os corpos violados, expostos ao escárnio e ultrajados não fossem aqueles palestinos ou libaneses, mas corpos "ocidentais", corpos "nossos".
Degradar as vítimas
Enquanto isso, nas prisões israelenses, muitos prisioneiros palestinos mantidos sob detenção administrativa, isto é, sem acusações documentadas, processo nem assistência jurídica, são levados à degradação, à debilitação física ou à morte por meio de torturas e privações. Em especial os médicos palestinos, culpados de permaneceram leais aos seus pacientes até à destruição israelense dos hospitais.
Com a paradoxal acusação de terrorismo indireto por tentarem tratar dos ferimentos infligidos pelas Idf a corpos palestinos: o pediatra Hassam Abu Safiya, por exemplo, ou outros quatorze, presos justamente por serem médicos, ou seja, praticamente e simbolicamente pessoas que atuaram pela sobrevivência de seus concidadãos. O cuidado, a ética e a deontologia entre os palestinos são intoleráveis para o Israel de Netanyahu: eles transmitem a ideia de que se trata de seres humanos, e não de Untermenschen, sub-humanos, como os nazistas diziam dos judeus ou dos ciganos.
Desumanizar as vítimas não é apenas um ato instintivo por parte do opressor; também possui sua própria lógica. Levada ao extremo, encontro uma explicação para isso em uma passagem de Os Afogados e os Sobreviventes, na qual Primo Levi reproduz um trecho da entrevista de Gitta Sereny com Franz Stangl, que havia sido comandante de Treblinka. A escritora pergunta a Stangl: “Já que a intenção era matá-los, qual o sentido das humilhações e das crueldades?” Stangl responde: “Para condicionar aqueles que tinham de executar materialmente as operações."
Para possibilitá-los de fazer o que estavam fazendo”. “Em outras palavras”, explica Levi, “antes de morrer, a vítima deve ser degradada para que o assassino sinta menos o peso de sua culpa”. Embora isso represente o caso extremo, do campo de extermínio, parece-me uma lógica que explica a desumanização desde o seu primeiro sintoma, especialmente quando dirigida contra qualquer grupo humano - mulheres, homens, crianças - considerado uma ameaça “existencial” em virtude de sua própria existência e, que por isso se pretende extirpar. A ênfase no “existencial” é a retórica atualmente utilizada para justificar as atrocidades em massa.
A Flotilha representou uma contestação às inércias dos governos ocidentais em relação aos seus tão propalados “valores ocidentais”. O chanceler alemão Merz, democrata-cristão, afirmou que o Israel de Netanyahu estaria fazendo o “trabalho sujo” (sic) no interesse do Ocidente.
Devido às suas responsabilidades no Holocausto, a Alemanha cercou institucionalmente Israel por um tabu, ou seja, a proibição de críticas, independentemente do que Israel faça ou venha a ser. Consequentemente, a declaração do chanceler Merz significa, na prática: a Alemanha exterminou os judeus, agora os usamos para o “trabalho sujo”; e, enquanto a proibição de críticas proteger o “trabalho” de Israel no extermínio dos palestinos, também protegerá a nossa própria conivência com o “trabalho” que delegamos a Israel: aquele de controlar o Oriente próximo, petrolífero e financeiro, em nosso nome.
O filossemitismo mascara os outros racismos
É a lógica da direita que cresce na Europa e na América: se proclamarmos solidariedade ao “Estado Judeu” de Netanyahu em sua guerra contra os palestinos, seremos saudados como convertidos de antissemitas a filossemitas e isso, por sua vez, oferecerá uma cobertura para as nossas políticas racistas ou xenofóbicas em relação a qualquer outro grupo humano, especialmente os migrantes.
Um eixo Roma-Berlim ressurgiu em torno desse ponto, e não é um bom sinal. Como Roma e Berlim recordam ter sido as capitais que promoveram o Holocausto, impuseram um tabu em relação ao Israel de Netanyahu como forma de expiação por perseguições e extermínios do passado; assim, tornam-se coniventes com as devastações, as perseguições e o terrorismo de massa perpetrados pelo Israel de Netanyahu, como uma maneira de quitar a dívida moral contraída com o Holocausto: um paradoxo obsceno.
Aqui, aparece outra faceta do "trabalho sujo" evocado pelo chanceler alemão. Apoiar o Israel de Netanyahu no que está fazendo não apenas demonstraria o desejo europeu de superar sua própria tradição antissemita, mas também significa aceitar com bons olhos que Israel, "em nome do povo judeu", assuma a tradição das perseguições e da desumanização de um grupo humano, como sua própria "necessidade existencial". No entanto, ao fazê-lo, "em nome do povo judeu", se reduz a autoridade do testemunho judaico do Holocausto.
Uma autoridade que o Israel de Netanyahu e Ben-Gvir está corroendo gravemente, justamente enquanto tenta explorá-la abusando das acusações de antissemitismo ou nazismo contra qualquer crítica. A tal ponto que as instituições judaicas oficiais já não sabem mais como gerir o "Dia da Memória", temendo ter de responder publicamente a "provocações antissemitas", isto é, a questionamentos sobre a relação entre a "memória judaica" e a destruição de um povo perpetrada "em nome do povo judeu". Contudo, agora, no trabalho sujo, estamos todos do mesmo lado: o Israel de Netanyahu, a colaboração dos Estados Unidos e as inércias dos governos europeus.
Transformar o nacionalismo em universalismo
O reconhecimento do Chanceler alemão era uma mão estendida a Netanyahu, em seu esforço de apresentar seus interesses nacionalistas e particulares como uma generosa solidariedade internacionalista. Em uma entrevista à CNBC em 3 de junho de 2026, Netanyahu fez coro ao Chanceler, afirmando:
"Quando lutamos contra o Irã, não estamos travando apenas a nossa guerra, mas também a guerra de vocês, a guerra da Europa". Israel certamente precisa se defender. Esse é um direito reconhecido como universal; no entanto, o Israel de Netanyahu e Ben-Gvir parece agora reivindicá-lo apenas para si, e negá-los aos outros.
Sob essa ótica, seu "direito de se defender" (defender-se a essas alturas principalmente e preventivamente de suas próprias vítimas) apenas perpetua a tradição e o trabalho sujo da "Guerra ao Terror". Esta pretende legitimar, como luta contra o terrorismo, uma forma de terrorismo que opera em escala muito maior e com tecnologia mais avançada, visando indiscriminadamente os civis, considerados, pelo simples fato de existirem, "escudos humanos" dos terroristas ou potencial celeiro de recrutamento para terroristas atuais e futuros.
Consequentemente, matar crianças não é um acidente, mas uma estratégia preventiva, baseada na lógica de que crianças feridas, mutiladas ou órfãs provavelmente se tornarão terroristas, Em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano. No entanto, desde o início da tragédia desencadeada pelo Hamas e pela Jihad com o massacre atroz de 7 de outubro de 2023, no sul de Israel, Netanyahu havia exaltado o espírito "universalista" da ofensiva israelense em Gaza.
Em seu discurso de 28 de outubro no Knesset, ele definia sua agenda como uma batalha da "humanidade contra a barbárie", por uma "vitória do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da vida sobre a morte". "[Nossos soldados heroicos] estão empenhados em erradicar esse mal do mundo em prol de nossa própria existência e, acrescento, para o bem de toda a humanidade [...] Lembrem daquilo que os amalequitas fizeram (Deuteronômio 25,17) [...] Lembremos e lutemos."
A demonização de Amaleque, o inimigo existencial
Na tradição judaica, Amaleque representa o inimigo absoluto e é, portanto, condenado ao genocídio (mulheres, homens, crianças, animais e até árvores, segundo o Primeiro Livro de Samuel, 15,17). Ao longo da história, Amaleque teria reaparecido sob várias formas, em especial no Império Romano e, por fim, na Alemanha de Hitler.
Na doutrina de Netanyahu, Amaleque-Hitler não é apenas o Hamas, mas toda a população de Gaza, mulheres, homens e crianças, acusada de conivência coletiva com o Hamas e isso implica duas coisas: querer sobrestimar artificialmente seu poder e ameaça para a humanidade e, assim, justificar seu extermínio.
Mas como justificar a flagrante desproporcionalidade entre a ameaça palestina ao mundo e a ameaça representada pela Alemanha nazista que, na época, era uma potência industrial e militar dominante? Essa linha de pensamento vinha se desenvolvendo há tempo se, de fato, durante seu discurso em 20 de outubro de 2015, no 37º Congresso Sionista Mundial em Jerusalém, Netanyahu afirmou: “Hitler não queria exterminar os judeus na época; ele queria expulsá-los. Amin al-Husseini [o Grande Mufti palestino de Jerusalém] foi até Hitler e disse: ‘Se você os expulsar, todos virão para cá’ [para a Palestina ndr]. ‘O que deveria fazer com eles?’, perguntou Hitler. O Mufti respondeu: ‘Queime-os’.” O Grande Mufti pode ter sido uma figura nefasta que buscou uma aliança com Hitler contra o domínio britânico na Palestina.
No entanto, esse espetacular revisionismo histórico de Netanyahu que alivia a culpa de Hitler para jogá-la sobre o Mufti, na qualidade de representante dos palestinos, tinha um objetivo específico: transferir a responsabilidade do Holocausto do nazismo para os palestinos. Pois para Israel, a Alemanha já não era mais um problema; mas os palestinos o eram. Assim, era conveniente demonizá-los ao extremo, retratando-os como precursores de Auschwitz e imaginando-os capazes de exercer uma influência decisiva na história, sendo assim arautos de uma ameaça universal, tal como os judeus eram de acordo com os nazistas.
Dessa maneira, o antipalestinismo ideológico acaba por demonizar os palestinos assim como os nazistas demonizavam os judeus: o sentimento antipalestino assume os mesmos critérios do antissemitismo. E isso é feito de forma instrumental por aqueles que por princípio rejeitavam e rejeitam radicalmente o caminho do compromisso com os palestinos. Ou seja, por aquela direita que havia inspirado o terrorista israelense Yigal Amir a assassinar em 4 de novembro de 1995 o primeiro-ministro Rabin, que de fato havia tentado chegar a um acordo com Arafat pela mediação dos Estados Unidos de Clinton.
Analisando mais a fundo, o antissemitismo nazista também continha um apelo "universalista": como os judeus eram um inimigo universal e como a democracia e o comunismo eram ideologias judaicas destinadas a desagregar as nações, o nazismo apelava a todas as nações para que colaborassem em seu programa de destruição dos judeus e de libertação dessa ameaça "existencial".
E muitos, por toda a Europa, atenderam a esse apelo, colaborando no "trabalho sujo" do nazismo. Diante da inércia dos governos europeus diante do etnocídio dos palestinos, dir-se-ia que o apelo universalista de Netanyahu em favor de sua guerra da "luz contra as trevas" tenha encontrado uma certa escuta.
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