O lado sombrio do boom dos data centers. Artigo de Melissa Garriga

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20 Agosto 2026

As infraestruturas destinadas à inteligência artificial multiplicam o consumo de energia nos lugares em que se expandem.

O artigo é de Melissa Garriga, publicado originalmente por Common Dreams e traduzido ao espanhol por Àngel Ferrero para o El Salto, 16-06-2026.

Melissa Garriga é responsável de comunicação da organização CodePink. Artigo original, intitulado "The Harm Data Centers Cause Isn't Only Local", publicado em Common Dreams.

Eis o artigo.

Em todos os Estados Unidos cresce a resistência aos data centers, mesmo enquanto se planeja construir outros novos. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, a maioria desses novos data centers, 67%, está sendo construída em áreas rurais. Três quartos deles se localizam em cidades do Meio-Oeste e do Sul do país.

Os efeitos negativos não passam despercebidos para essas comunidades. Já se noticiou como um novo data center em Southaven, no Mississippi, por exemplo, aterroriza a população com seus altos níveis de ruído e poluição, e os moradores hoje lamentam sua existência. Mas não é só a poluição, o esgotamento dos aquíferos e o aumento do preço da energia para os consumidores que levam as comunidades a resistir à construção desses data centers. Quando se investiga um pouco mais, começa-se a ver como esses data centers são construídos sobre uma exploração que vai muito além das pequenas cidades americanas.

Os data centers são, ao mesmo tempo, produtos e produtores de guerras que matam pessoas e destroem o planeta em escala global. A rápida expansão desses data centers exige matérias-primas, especialmente combustíveis fósseis (recursos com frequência obtidos por meio da violência), e alimentam uma tecnologia cada vez mais usada para cometer crimes de guerra.

Os combustíveis fósseis fornecem quase 60% da energia para o funcionamento desses data centers, especialmente para seus "geradores de emergência". Como os data centers para inteligência artificial (IA) funcionam quase 24 horas por dia, 7 dias por semana, esses geradores de "emergência" operam constantemente.

O controle dos combustíveis fósseis, claro, é um dos fatores que impulsionam os esforços dos EUA para provocar uma mudança de regime no Irã, na Venezuela e em outras regiões ricas em recursos naturais. A extração de outros minerais necessários para seu funcionamento, como silício, gálio, lítio e cobalto, exige a desestabilização de regiões soberanas onde eles se encontram, além de práticas de mineração desumanas, incluindo o uso de trabalho infantil.

Depois há a questão do uso moral e ético da IA generativa. A expansão dos data centers chega numa época em que a IA e os LLMs (modelos de linguagem de grande porte) são cada vez mais usados pelo Pentágono a serviço do militarismo nacional e internacional.

O Pentágono fechou recentemente acordos substanciais tanto com a Palantir quanto com a OpenAI. O uso de IA em operações militares já deu origem a crimes de guerra. Por exemplo, o Claude, modelo da Anthropic, foi utilizado no bombardeio da escola infantil de meninas em Minab, no Irã, que tirou a vida de cerca de 170 estudantes e professores. As cidades que se orgulham de seus valores familiares tradicionais realmente querem estar por trás de uma máquina assassina capaz de matar meninas?

É fácil entender por que o anúncio desses data centers pode parecer uma boa notícia para regiões que enfrentam condições econômicas difíceis. É complicado chegar ao final do mês com empregos mal remunerados. Mas todas as evidências sugerem que os data centers criam pouquíssimos empregos nas cidades onde são construídos. Vale a pena criar esse punhado de empregos às custas do resto da população e do futuro do nosso planeta?

Os responsáveis públicos que estão assinando esses acordos com empresas de tecnologia poderiam, em vez disso, trabalhar para trazer empregos voltados ao design, à instalação e à manutenção de sistemas de energia renovável que substituam a dependência dos combustíveis fósseis. Poderiam firmar contratos com empresas que gerenciam e protegem os belos ecossistemas naturais, habitats e biodiversidade que frequentemente cercam esses municípios rurais.

Precisamos de empregos que sustentem o pulso do Meio-Oeste e o encanto e a hospitalidade do Sul, não empregos de uma indústria que aterroriza comunidades e mata pessoas.

Os data centers não são apenas instalações tóxicas no quintal das comunidades: são uma força motriz por trás de guerras e instabilidade que, além disso, mantêm os trabalhadores americanos algemados a um ciclo interminável de guerras por combustíveis fósseis.

Em defesa do planeta, das nossas comunidades e das comunidades do mundo todo, espero que comunidades rurais e urbanas possam se unir para deter os projetos de construção de data centers, especialmente ao longo do Meio-Oeste e do Sul, onde há tanta beleza natural a proteger. O futuro das comunidades rurais não é a IA. Deveríamos estar investindo naquilo que realmente nos torna grandes: as pessoas e a terra. 

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