18 Agosto 2026
Documento destaca importância da imprensa livre no combate à censura.
A reportagem é de Bruno de Freitas Moura, publicada por Brasil de Fato, 18-08-2026.
Na próxima quarta-feira (19), um dos atentados que tentaram calar vozes democráticas que lutavam contra a ditadura militar (1964-1985) completa 50 anos: a explosão da bomba no prédio-sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro. Para marcar a data, a instituição lançou neste sábado uma edição especial do Boletim da ABI.
A explosão ocorreu no sétimo andar do edifício número 71 da Rua Araújo Porto Alegre. O atentado de 19 de agosto de 1976 destruiu dois banheiros próximo à sala da presidência da entidade. Houve estragos em salas vizinhas, no elevador e em outros dois andares. Ninguém se feriu.
A publicação especial é fundamentada em documentos históricos e relatórios confidenciais que, além de relembrarem o atentado, a repercussão e a reação da sociedade civil, destaca a importância da imprensa livre para resistência em períodos autoritários e vigilância contra a censura e a violência política.
Documentos históricos
Uma das principais fontes de pesquisa para a publicação foi a edição de julho-agosto de 1976 do Boletim ABI, publicada logo após o atentado terrorista. A ABI traz detalhes também de documentos produzidos pelos órgãos de informação da ditadura militar.
Entre eles, um informe confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI), de setembro de 1976, disponibilizado pelo projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional.
De acordo com a ABI, o registro do SNI impressiona pelo grau de informação de que dispunham os órgãos de segurança sobre acontecimentos, reuniões e movimentações da entidade.
“Esse registro ajuda, assim, a dimensionar o aparato de vigilância política que atuava naquele período”, afirma a associação.
A publicação, editada pelo conselheiro da associação Geraldo Cantarino, traz fotografias de como ficaram as áreas atingidas do prédio de 13 andares, inaugurado em 1938, considerado referência da arquitetura moderna brasileira. Até hoje o endereço é sede da ABI.
Contexto político
O grupo paramilitar de extrema-direita Aliança Anticomunista Brasileira (AAB) assumiu a autoria do atentado em um panfleto deixado no prédio após a explosão.
A organização acusava a ABI de estar “totalmente dominada pelos comunistas” e afirmava que a entidade havia sido escolhida para receber a “primeira advertência”.
“Ao defender a liberdade de imprensa, os direitos humanos e a livre manifestação do pensamento, tornou-se também alvo da intolerância de grupos radicais de extrema-direita, contrários aos incipientes movimentos de abertura política – a chamada ‘distensão’ do regime ditatorial”, explica o atual presidente da ABI, Octávio Costa.
À época, a AIB era presidida pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho. No corpo da instituição havia nomes como Alberto Dines, Maurício Azêdo, Marcelo Beraba e Odylo Costa Filho.
Outros atentados
Para a ABI, o atentado de 50 anos atrás não deve ser visto isoladamente. Fazia parte de um cenário de violência e intimidação política “que buscava conter qualquer possibilidade de avanço das liberdades democráticas”.
Naquele mesmo dia, uma bomba atribuída à mesma organização clandestina foi colocada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio de Janeiro. O artefato não explodiu por causa de uma falha no mecanismo de detonação.
A publicação lançada neste sábado contextualiza que o país sofreu outros atentados que tinham o objetivo de impedir a distensão da ditadura militar. O general Ernesto Geisel, que tinha assumido a Presidência em 1974, defendia uma abertura “lenta, gradual e segura”.
No dia seguinte, 20 de agosto, duas bombas do tipo coquetel molotov foram jogadas de madrugada na 1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar de Porto Alegre, provocando princípio de incêndio.
Cerca de duas semanas depois, em 4 de setembro de 1976, uma bomba de fabricação caseira explodiu de madrugada no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo.
O Jornal do Brasil, um dos periódicos mais importantes da época, informou que, entre agosto e novembro de 1976, aconteceram nove atentados terroristas no Rio de Janeiro, oito deles assumidos pela AAB. “Apesar disso, o aparato de inteligência e repressão nunca chegou aos autores dos atentados”, acrescenta a ABI.
Ato em homenagem
No dia 19, às 17h, a ABI fará um ato no sétimo andar o prédio-sede para lembrar os 50 anos do atentado. Também será colocada uma placa com frase de repúdio ao terrorismo e de valorização da democracia.
“A Casa do Jornalista permanecerá vigilante diante de qualquer ameaça ao Estado Democrático de Direito”, conclui Octávio Costa.
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