18 Agosto 2026
Estudo da Plan International mostra que 61% das jovens que engravidaram precocemente deixaram de estudar e 73% relatam ter sofrido discriminação.
A reportagem é de Gustavo Kaye, publicada por Agenda do Poder, 16-08-2026.
A gravidez na adolescência pode provocar mudanças profundas na trajetória de jovens brasileiras, com consequências que vão além da maternidade. Um estudo da Plan International mostra que 61% das mulheres que engravidaram na infância ou adolescência interromperam os estudos, contra 33% entre aquelas que não passaram pela experiência.
Intitulada “Marcas do Tempo: Gravidez na Infância ou Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil”, a pesquisa ouviu mais de 1.500 jovens entre 19 e 29 anos, em todas as regiões do país. O levantamento comparou mulheres que tiveram uma gestação precoce com aquelas que não engravidaram nessa fase.
Os resultados indicam que as consequências aparecem em diferentes áreas, como educação, renda, saúde, autonomia e acesso a direitos. Em 2024, 273.213 bebês nasceram no Brasil de mães com até 19 anos, segundo dados do Ministério da Saúde compilados pela Fundação Abrinq.
Abandono escolar reduz oportunidades
Entre as jovens que engravidaram entre 15 e 19 anos, 88% se casaram ou passaram a viver em união após a primeira gestação. A pesquisa alerta que esse movimento pode aumentar a sobrecarga relacionada aos cuidados com os filhos, a casa e o companheiro.
A coordenadora de Advocacy e Direitos Sexuais e Reprodutivos da Plan Brasil e responsável pelo estudo, Paula Alegria, afirma que a gravidez precoce pode desencadear um efeito em cadeia. Segundo ela, a dependência econômica e a divisão desigual das tarefas podem dificultar o retorno à escola e a entrada no mercado de trabalho.
Outro dado chama atenção: 48% das mulheres que engravidaram na adolescência têm dois ou mais filhos, enquanto o índice é de 18% entre aquelas que não tiveram uma gestação precoce.
A pesquisa também aponta que 83% das jovens que engravidaram na infância ou adolescência já deixaram um emprego ou perderam oportunidades profissionais por causa das responsabilidades relacionadas ao trabalho de cuidado.
Discriminação atinge maioria das jovens
A discriminação também aparece como uma das principais dificuldades enfrentadas por essas mulheres. Segundo o levantamento, 73% afirmam já ter sofrido algum tipo de discriminação por causa da gravidez, seja dentro da família, na escola ou até mesmo em serviços de saúde.
O estudo identificou ainda dificuldades relacionadas à saúde mental. Para os pesquisadores, a aparente menor frequência de relatos de problemas emocionais entre mães que engravidaram precocemente pode estar ligada à naturalização do sofrimento provocado pela maternidade.
Ansiedade, tristeza, cansaço extremo e outras dificuldades podem ser encarados pelas jovens como parte normal da condição de mãe, o que dificulta o reconhecimento do problema e a busca por atendimento especializado.
Falta de informação aumenta vulnerabilidades
A pesquisa mostra que mais de 60% das jovens que engravidaram precocemente não receberam orientações sobre sexualidade, prevenção da gravidez ou métodos contraceptivos. Entre aquelas que tiveram diálogo familiar sobre o tema, apenas 32% engravidaram precocemente.
O levantamento também aponta uma lacuna no acesso a informações sobre direitos reprodutivos. Entre as mulheres que engravidaram antes dos 14 anos, 50% afirmaram não ter recebido, nos serviços de saúde, a possibilidade de interrupção legal da gestação ou informações sobre esse direito.
A legislação brasileira considera que uma relação sexual com menor de 14 anos configura estupro de vulnerável, independentemente de consentimento.
Diálogo pode ajudar na prevenção
Para Paula Alegria, os resultados reforçam a importância da atuação conjunta de famílias, escolas e serviços de saúde. A pesquisa indica que o acesso a informações adequadas pode contribuir para a prevenção da gravidez na adolescência.
A história de Gabriela, que engravidou aos 14 anos, ilustra parte dessas dificuldades. Ela precisou abandonar a escola, enfrentou bullying, terminou o ensino médio apenas quando a filha tinha cinco anos e relatou ter passado por um período de depressão após o parto.
Hoje, aos 29 anos, Gabriela afirma que procura conversar abertamente com a filha, Laura, atualmente com 13 anos, sobre sexualidade e prevenção. Para ela, a experiência vivida na adolescência mudou a forma como encara a educação sexual dentro da família.
A pesquisa conclui que ampliar o acesso à informação, fortalecer o diálogo familiar e garantir atendimento adequado nos serviços de saúde são medidas importantes para reduzir os impactos da gravidez precoce e preservar as oportunidades educacionais e profissionais das adolescentes.
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