A eleição do próximo Secretário-Geral da ONU delineia a reformulação das relações internacionais

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17 Agosto 2026

O Conselho de Segurança começou o processo de nomeação do sucessor de António Guterres como chefe da ONU. Sob sua aparência democrática, esta eleição, assegurada pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, revela as falhas de uma organização afetada pela reformulação de uma ordem internacional multilateral no fim de seu ciclo.

A  reportagem é de Mael Guéguen, publicada por El Salto, 16-08-2026.

Em 30 de julho, o Conselho de Segurança da ONU lançou oficialmente a corrida para suceder António Guterres. Após uma votação consultiva inicial para avaliar a popularidade dos sete candidatos, a América Latina, que deveria ocupar o cargo de acordo com a tradição de rodízio regional, lidera a corrida. A costarriquenha Rebeca Grynspan está em primeiro lugar, seguida de perto por Carolyn Rodrigues-Birkett, representando a Guiana, e pelo argentino Rafael Mariano Grossi, que está logo à frente da ex-presidente chilena Michelle Bachelet. Todos disputam o cargo de mais alto escalão da organização, responsável por garantir o bom funcionamento dos órgãos da ONU e por atuar como porta-voz autorizado a alertar os órgãos competentes sobre questões consideradas prioritárias.

Uma farsa democrática que mascara uma eleição sob a tutela do P5

Para as eleições de 2026, a Assembleia Geral reafirmou seu compromisso com a transparência e a democracia no processo, com novas medidas, como a organização de audiências e debates entre candidatos transmitidos ao vivo pela internet. Além disso, os presidentes do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral expressaram a esperança de ver uma mulher nomeada pela primeira vez nos 80 anos de história do cargo. Romuald Sciora, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS) especializado na ONU e nos Estados Unidos, minimiza veementemente essa iniciativa: “Trata-se claramente de um exercício de relações públicas”. O cientista político aponta para um desejo desesperado da ONU de “mobilizar um pouco mais de atenção da mídia para uma organização que quase não interessa mais a ninguém”.

O contraste é ainda mais marcante considerando que, em 2025, outros projetos de reforma com o objetivo de democratizar ainda mais o processo de seleção foram propostos, como a realização de votações consultivas pelos 193 membros da Assembleia Geral ou a concessão à sociedade civil da capacidade de auditar os candidatos. Todos esses projetos foram rejeitados pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França), os chamados P5, unidos no uso do poder de veto para preservar o controle sobre o processo. “O que impediu a ONU de ser reformada, de permanecer uma ferramenta que poderia ter sido útil, foi, em todas as ocasiões, claramente, a obstrução do Conselho de Segurança, que se opõe a qualquer modificação que contrarie seus interesses, impedindo qualquer transparência e qualquer reforma do sistema”, resume Sciora.

Os candidatos e suas credenciais

Michelle Bachelet, ex-presidente socialista do Chile, alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos e Diretora Executiva da ONU Mulheres;

Fernanda Maria Espinosa Garcés, ex-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas e Embaixadora do Equador junto à ONU;

Rafael Mariano Grossi, diretor argentino da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA);

Rebeca Grynspan, secretária-geral da UNCTAD pela Costa Rica;

Olara Otunnu, ex-subsecretária-geral da ONU pelo Uganda durante o governo de Kofi Annan;

Carolyn Rodrigues-Birkett, representante permanente da Guiana junto às Nações Unidas;

Macky Sall, representante permanente da Guiana junto às Nações Unidas.

Essa salvaguarda está, de fato, consagrada na Carta das Nações Unidas. Embora o Artigo 97 confie à Assembleia Geral, que reúne os 193 Estados-membros, a nomeação do Secretário-Geral, na realidade ela apenas ratifica o candidato recomendado pelo Conselho de Segurança. A decisão real, portanto, repousa inteiramente na opacidade dos votos anônimos deste último, composto por dez membros eleitos e os cinco membros permanentes (P5).

Relegada a um papel meramente simbólico, a Assembleia se contenta em ratificar a decisão por aclamação. Após as votações iniciais, uma nova série de votações ocorrerá nos próximos meses no Conselho de Segurança, desta vez com a inclusão de cédulas coloridas para os cinco membros permanentes, dando efeito ao seu poder de veto. O vencedor será, portanto, o primeiro candidato a obter os votos de nove dos quinze membros do Conselho de Segurança sem ser alvo de um voto de desqualificação (cédula vermelha).

Por trás dessa farsa democrática, o P5 faz seus arranjos em uma votação que, em última análise, é manipulada por vetos para eleger um administrador complacente que se alinhe aos seus interesses. Dados os seus interesses profundamente conflitantes, as cinco potências não estão tanto buscando um candidato adequado, mas sim concordando com alguém que não desagrade a nenhuma delas. O perfil tipicamente escolhido é, portanto, o de um tecnocrata despolitizado, o que esvazia o cargo de secretário-geral de qualquer poder político real.

Sciora lembra que essa obstrução sistêmica à obtenção de um candidato que atenda ao mínimo denominador comum remonta à década de 1990, quando os Estados Unidos de Bill Clinton manobraram ativamente para impedir que Boutros-Ghali conquistasse um segundo mandato devido à sua investigação sobre o bombardeio israelense de Qana, no Líbano. O cenário se repetiu uma década depois com Kofi Annan, que se opôs publicamente à guerra do governo Bush no Iraque, antes que as grandes potências, a partir de 2007, optassem por líderes mais complacentes, seguindo o modelo definido por Ban Ki-moon, da Coreia do Sul.

Embora a regra de rotação regional concentre a atenção na América Latina em 2026, o continente oferece um laboratório a céu aberto para esse mecanismo de eliminação ideológica. Para Sciora, em teoria, um perfil como o de Bachelet — ex-chefe de Estado, mulher, com reconhecida estatura internacional — teria tudo o que era necessário para repolitizar e revitalizar uma instituição cuja gestão tecnocrática acabou por extinguir o interesse público. Contudo, mais uma vez, a realidade é bem diferente. Em seu próprio país, sua candidatura está sendo sabotada pela extrema-direita chilena sob o novo presidente, José Antonio Kast, que retirou o apoio oficial do país, apesar de tê-la indicado apenas alguns meses antes, juntamente com o México e o Brasil.

Essa ruptura cristaliza a divisão entre esquerda e direita que atualmente caracteriza a América Latina. Em Washington, Bachelet é vista como representante de uma “esquerda radical, até mesmo comunista”, segundo Sciora, arriscando um veto dos EUA devido ao seu compromisso com o direito ao aborto, ao qual senadores americanos se opuseram, bem como um veto da China por seu apoio aos uigures. Como resultado dessas hostilidades, ela ficou apenas em quarto lugar na primeira votação informal realizada no final de julho, com cinco votos contra, e ainda não se sabe se algum dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança está entre eles.

Contudo, se analisarmos seu período como presidente do Chile, Bachelet governou pelo Partido Socialista do Chile, um partido social-democrata em grande parte diluído, que jamais questionou os fundamentos neoliberais da economia chilena, herdados dos Chicago Boys e consagrados na Constituição de Pinochet. Se tal perfil é suficiente para desencadear a hostilidade de Washington, não é tanto a posição real da candidata que mudou, mas sim a margem do que é aceitável que se estreitou.

Romuald Sciora evoca uma “revolução cultural ultraconservadora nos Estados Unidos que rejeita violentamente qualquer perfil percebido como politizado ou progressista”. Segundo o pesquisador do IRIS, os Estados Unidos esvaziarão a demanda por paridade de sua substância política: uma mulher só será aceita sob a estrita condição de ser uma “tecnocrata disposta a se curvar aos Estados Unidos”.

Essa hipótese encontra confirmação imediata nas urnas, como se vê com a costarriquenha Rebeca Grynspan, que lidera o primeiro turno das eleições. Economista tecnocrata sem inclinações ideológicas marcantes, ela personifica precisamente o perfil que parece ser o preferido pelas grandes potências.

Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que ficou em terceiro lugar na votação, ilustra a mesma lógica. Ele cultiva a imagem de um gestor técnico independente e despolitizado e tem se esforçado para se distanciar publicamente do presidente argentino, o ultraliberal Javier Milei, que, no entanto, apoia sua candidatura, justamente para evitar se envolver no mesmo tipo de hostilidade ideológica que Bachelet. Grynspan, Grossi, Bachelet: três perfis diferentes, mas todos seguindo a mesma regra neste jogo de xadrez diplomático regido pelos membros permanentes do Parlamento (P5), onde o vencedor não é necessariamente o melhor candidato, mas sim aquele que causa menos danos aos membros permanentes.

Imperialismo financeiro e orçamentário como arma de subjugação

Este candidato, silenciado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança, herda uma organização em crise estrutural, igualmente silenciada. Romuald Sciora explica que o secretário-geral hoje está reduzido ao papel de gestor de uma tripla falência — "financeira, logística e simbólica" — da ONU política.

Em relação à primeira falência, o cientista político descreve uma organização “mantida refém e estrangulada financeiramente por seus principais contribuintes, principalmente os Estados Unidos”. Sob a administração Trump, a ONU foi submetida a “chantagem financeira” que acumulou mais de US$ 4,3 bilhões em atrasos, de acordo com uma investigação exclusiva da publicação especializada Devex, citada pelo instituto de pesquisa alemão IDOS. Isso força a ONU a se concentrar em suas funções de policiamento, conhecidas como “manutenção da paz”, em vez da redistribuição de riqueza exigida pelos países do Sul Global.

Foi assim que António Guterres foi forçado a capitular perante este imperialismo orçamental, implementando o plano UN80 em março de 2025. Um programa de austeridade para o 80.º aniversário da ONU que incluía cortes orçamentais de 15%, o que implica uma redução de quase 19% do pessoal, apesar de nenhum fundo dos EUA ter sido libertado desde então.

Em um artigo para o Le Monde Diplomatique, Richard Gowan, então diretor de assuntos da ONU no International Crisis Group, observou que a contribuição de Washington deveria representar 22% do orçamento institucional principal da ONU e um terço do financiamento de suas agências humanitárias. Embora essas agências também estejam sofrendo com a crise, seu papel vital na manutenção de milhões de vidas impede que elas desapareçam, ao contrário da ONU política. Um estudo do International Crisis Group documenta centenas de centros de saúde e pontos de acesso à água potável fechados no Afeganistão devido à falta de financiamento. Em uma perspectiva mais global, a ONU teve que revisar para baixo sua meta humanitária global para 2025, de 180 milhões para 114 milhões de beneficiários.

Sciora aponta então para uma falha logística da ONU política, ilustrada pela falta de reforma da instituição e pelos fracassos dos secretários-gerais recentes, em particular António Guterres, no que diz respeito à manutenção da paz, da Ucrânia à Palestina, incluindo o Irã.

Finalmente, uma ruptura simbólica está a caminho, independente dos fracassos da ONU. "Entramos numa era pós-ordem multilateral de 1945; a comunidade internacional evoluiu", observa Sciora. "Todos os valores que foram enfatizados em 1945 — a criação da ordem multilateral, a criação da ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos — significam cada vez menos." Ele resume esse diagnóstico numa única fórmula: "O próximo Secretário-Geral, seja quem for, infelizmente terá a função de manter viva uma casca vazia e um cenário de papelão por algum tempo ainda."

Uma recomposição das relações internacionais rumo a um mundo pós-multilateral

Para Sciora, o diagnóstico da tripla ruptura é apenas um sintoma de uma mudança mais ampla no estado das relações internacionais. “A era pós-45 acabou”, observa o cientista político. “Entramos em um mundo dominado pelo bilateralismo, pelas relações entre Estados, pela lei do mais forte e pela aplicação seletiva da justiça e dos tratados internacionais.”

Se os países do Sul Global continuam a investir na disputa por uma posição cujas limitações políticas conhecem, é porque veem nisso, apesar de tudo, um meio de fazer com que suas vozes sejam ouvidas um pouco mais nos fóruns internacionais. Um cálculo pragmático que, no entanto, precisa ser relativizado: “Hoje, os desafios não são mais os mesmos de vinte anos atrás”, destaca Sciora. Essa mudança nas estratégias diplomáticas do Sul Global revela menos uma resignação do que uma clareza renovada diante da dinâmica em constante evolução das relações internacionais.

Isso reflete uma mudança gradual em direção a organizações regionais como a União Africana e a Liga Árabe, à medida que os países do Sul Global abandonam uma Assembleia Geral que não tem poder para negociar diretamente com grandes potências como a China, a Rússia, a União Europeia e os Estados Unidos. É nesses fóruns que eles encontram "um espaço para falar em pé de igualdade", algo que a ONU já não oferece, explica Sciora.

Outra consequência direta da destruição da ONU política é a sua perda de legitimidade. De acordo com um relatório de pesquisa intitulado “Repensando a Liderança da ONU”, publicado em 2026 pela rede internacional Southern Voice, 47,1% dos entrevistados no Sul Global acreditam que o principal risco para as reformas da ONU reside na incapacidade de lidar com os desequilíbrios de poder globais, em comparação com apenas 14,4% que se preocupam com a eficiência administrativa ou orçamentária que Guterres se esforçou para “otimizar”. Ainda mais surpreendente, apenas 3,8% dos entrevistados no Sul Global acreditam que a ONU atualmente possui autoridade política suficiente — evidência estatística de que o Sul Global não exige um administrador mais eficaz, mas sim uma repolitização da instituição.

Se o núcleo político da ONU se extinguir, suas agências especializadas (PNUD, PMA, UNICEF, OMS, OMM, OACI) continuarão a funcionar. Suas missões regulatórias e de ajuda humanitária permanecem indispensáveis ​​para o cotidiano de milhões de pessoas em todo o mundo, embora também enfrentem uma redução progressiva de recursos. Essa sobrevivência técnica, contudo, não basta para salvar o que a ONU um dia representou politicamente. Assim, a eleição de 2026 parece apenas ratificar um processo em curso desde a década de 1990, um processo que só se acelerou nos últimos anos, especialmente com o plano ONU80. Seja qual for o nome que emergir da votação para o Conselho de Segurança nos próximos meses, a ONU política parece ter deixado de ser a arena onde o futuro do mundo é decidido. 

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