13 Agosto 2026
Segundo um estudo recente, a pavimentação da rodovia interoceânica entre o Brasil e o Peru pode ser a causa de um aumento de 403% nos casos dessa doença em comunidades próximas.
A reportagem é de Aly Singleton e Roberto González, publicada por El País, 12-07-2026.
Os mosquitos transmissores da dengue podem se deslocar por via terrestre, assim como pessoas já infectadas pelo vírus. Onde quer que estejam, podem causar surtos da doença. Essas são algumas das razões que podem explicar por que, após a pavimentação da Rodovia Interoceânica em Madre de Dios, no Peru, em 2009, as unidades médicas próximas ao canteiro de obras registraram um aumento de 403% nos casos de dengue. Essa doença causou 1,1 milhão de mortes em todo o mundo em 2024, com 90% desses casos ocorrendo nas Américas.
Alyson Singleton, epidemiologista de doenças infecciosas da Universidade de Stanford, explica em entrevista à América Futura que as suspeitas de que a rodovia interoceânica poderia ser a causa do agravamento da dengue na região surgiram enquanto ela realizava trabalho de campo com a Unidade de Pesquisa sobre Doenças Emergentes e Mudanças Climáticas da Universidade Cayetano Heredia (UPCH), no Peru.
"Viajamos pela rodovia e também fizemos desvios. E era muito perceptível como a vida era diferente para quem morava perto da rodovia ou mais longe dela", relata a pesquisadora.
De volta a Stanford, ela continuou sua pesquisa sobre Madre de Dios e encontrou um relatório qualitativo no qual os autores descreviam como as comunidades da região perceberam um aumento nos casos de dengue após a pavimentação da estrada. Depois de ler essa pesquisa, Singleton sentiu que poderia ser a pessoa certa para ajudar a estruturar os dados e corroborar essas percepções.
Para isso, ela e seus colaboradores coletaram dados de monitoramento epidemiológico de unidades médicas localizadas em Madre de Dios, de 2000 a 2022. Para determinar se a pavimentação da estrada havia sido a causa do aumento dos casos de dengue, eles utilizaram uma metodologia chamada "diferenças em diferenças".
Essa estratégia envolve comparar a situação antes e depois da construção da estrada e, além disso, analisar como a incidência da doença se altera entre as unidades médicas próximas à estrada e as mais distantes. A primeira diferença é temporal e a segunda, baseada na distância.
Isso permitiu que eles observassem que os casos de dengue aumentaram drasticamente em comunidades próximas à rodovia, enquanto os efeitos foram menos severos em unidades médicas mais remotas. Assim, os pesquisadores inferem que a rodovia pode ser a principal causa do aumento da dengue — um padrão que já havia sido observado no Brasil, onde o desmatamento causado pela abertura de estradas na Amazônia também já foi associado a surtos de doenças como a malária.
Segundo suas estimativas, cerca de 10.950 casos poderiam ser atribuídos à pavimentação, o equivalente a 57% de todos os casos registrados de 2009 a 2022. Para reforçar seus resultados, Singleton e seus colegas consideraram outras variáveis que poderiam influenciar o aumento da dengue e, em seguida, as colocaram à prova.
Por exemplo, outra possível explicação para o aumento de casos poderia ser simplesmente uma melhoria na capacidade das unidades médicas de diagnosticar novas infecções. Para testar essa teoria, compararam os casos de dengue com os de leishmaniose, outra doença presente na região que é transmitida por flebotomíneos do gênero Lutzomyia, que, assim como os mosquitos, se alimentam de sangue.
Segundo Singleton, se a melhoria na capacidade de diagnóstico fosse a causa do aumento nos casos de dengue, também seria esperado um aumento na detecção de leishmaniose. No entanto, isso não ocorreu. Portanto, esse fator foi descartado.
Andrés Willy Lescano, epidemiologista da UPCH e coautor da pesquisa, explica que elaborar estudos que visem estabelecer uma relação de causa e efeito entre dois fenômenos é uma tarefa complexa. Isso se deve principalmente ao fato de os critérios para determinar se um evento é a causa de outro serem muito exigentes.
"Um experimento provavelmente seria necessário para obter um resultado causal e definitivo, mas, nesses tipos de situações, experimentos controlados não podem ser conduzidos da mesma forma que fazemos em outras áreas da ciência biomédica", explica Lescano. Portanto, apesar da robustez de seus resultados, ele acrescenta a ressalva de que essas não são conclusões definitivas.
Ele acrescenta a isso o desafio da qualidade dos dados: "No Sul Global, temos sistemas de vigilância um tanto menos desenvolvidos e com menos financiamento, dadas as limitações de recursos de nossos países", explica o epidemiologista. Ele acrescenta que essas deficiências podem causar variações nos dados ao longo do tempo, o que poderia dificultar sua análise.
Portanto, para Raquel Martins Lana, bióloga e epidemiologista do Centro de Supercomputação de Barcelona que não participou do estudo, um dos principais pontos fortes da pesquisa em Madre de Dios é o uso da metodologia de diferenças em diferenças. Ela acredita que é importante "buscar metodologias que tentem lidar com a questão dos dados existentes e dos dados inexistentes. Acho que ela [Alyson Singleton] consegue trabalhar com isso muito bem. Acho que as conclusões a que ela chega são precisas."
Singleton, por sua vez, planeja continuar investigando algumas das questões em aberto deixadas por esta pesquisa. Por exemplo, ela quer explicar os mecanismos pelos quais a pavimentação de estradas pode levar a um aumento na incidência de dengue.
Algumas das hipóteses levantadas são que a rodovia aumenta a mobilidade das pessoas, que, por sua vez, podem transportar o Aedes aegypti, o mosquito responsável pela transmissão do vírus. Por outro lado, "muitas pessoas têm negócios ao longo da rodovia. É um local de comércio e uma oportunidade para vender produtos, parar para tomar uma cerveja ou ir a um restaurante. Portanto, há muita movimentação ao longo dessa rodovia, onde as pessoas podem ser picadas por mosquitos enquanto passam", acrescenta Singleton.
Para ela, uma melhor compreensão desses mecanismos poderia eventualmente ajudar a prever se uma estrada poderia causar um surto de dengue, como foi o caso em Madre de Dios.
Martins Lana acredita que este deve ser um fator a ser considerado na elaboração de estudos de impacto ambiental para projetos de infraestrutura na região, "porque a saúde é sempre negligenciada nesses tipos de empreendimentos", destaca a pesquisadora.
Lescano acrescenta: "Precisaremos das estradas; só precisamos estar cientes dos riscos e avaliá-los para que possamos incorporá-los aos custos de nossas ações e decisões. Dessa forma, poderemos responder a quaisquer impactos que elas possam causar."
Após concluir sua pesquisa, Singleton contatou Martins Lana para dar continuidade às investigações sobre a relação entre a construção de novas infraestruturas e a incidência de dengue. Os dois estão atualmente colaborando em um estudo que abrangerá um número maior de estradas, desta vez no Brasil.
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