Medo: obstáculo que impede o discípulo de ser, pensar e agir como o mestre

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08 Agosto 2026

“A narrativa do Evangelho deste domingo sugere que Jesus coloca seus discípulos em situações que geram medo. Ele não o faz despropositadamente, mas com uma intenção: curá-los do medo”.

O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestra em Filosofia pela Unisinos e mestra em Teologia pela PUCRS. 

O Evangelho deste domingo (Mt 14,22-33) inicia com a narração de um gesto peculiar de Jesus: “(…) forçou os discípulos a embarcarem e aguardá-Lo na outra margem, até que ele despedisse as multidões” (Mt 14, 22). Jesus está despedindo aqueles a quem havia dado de comer por meio dos discípulos: “Em seguida, partindo os pães, deu-os aos discípulos, e os discípulos às multidões” (Mt 14, 19). Entre o fim de uma narrativa e o início de outra, corremos o risco de não prestar atenção naquele gesto de Jesus. Por que Ele forçou os discípulos a embarcarem e a aguardá-Lo na outra margem?  

À primeira vista, a sequência da leitura sugere que Ele forçou os discípulos a embarcarem porque queria ficar sozinho. Sozinho para rezar (Mt 14, 23). Assim ficou até a madrugada, quando dirigiu-se aos discípulos novamente – desta vez, caminhando sobre as águas (Mt 14, 25). É a partir daí, mais precisamente da reação dos discípulos diante desse acontecimento, que uma resposta à pergunta inicial pode ser formulada. 

Nos sete versículos que se seguem até o fim da narrativa, em três deles destaca-se uma palavra recorrente nos evangelhos: medo. O medo, em muitos contextos, é compreendido como um sentimento, uma emoção. No sentido espiritual, contudo, medo é mais do que isso. É uma disposição, um hábito arraigado na alma que, em diferentes circunstâncias, é responsável pelos nossos maus pensamentos, sentimentos, emoções e pecados. É o medo que conduz boa parte das nossas reações e ações, exatamente como aconteceu e acontece aos discípulos de Jesus e às multidões até hoje. 

O Evangelho nos diz que os discípulos, vendo Jesus caminhando sobre as águas, “ficaram atemorizados” (Mt 14, 26). Em outras palavras, foram tomados pelo medo. Ficaram assustados. Amedrontados. A situação chegou a tal ponto que “gritaram de medo” (Mt 14, 26). Imediatamente, Jesus os acalma: “Tende confiança, sou eu, não tenhais medo” (Mt 14, 27). 

Se, como narra o Evangelho, Jesus “forçou os discípulos a embarcarem e aguardá-Lo na outra margem”, isso significa que eles não queriam ir. Mas eles foram. Ou seja, não por vontade própria, mas porque Jesus os obrigou, isto é, fez com que fossem contra a própria vontade deles. Talvez aí esteja uma resposta à pergunta inicial: Por que Ele forçou os discípulos a embarcarem e a aguardá-Lo na outra margem? Ele os forçou porque sabia que seriam tomados pelo medo e era preciso, progressivamente, ir purificando-os desse hábito que os impede de ser, pensar e agir como o mestre. 

Pedro, que está sendo forjado para ser a rocha sobre a qual Jesus edificará a sua Igreja (Mt, 16, 18), duvidando que era Jesus a sua frente, pede uma confirmação: “Senhor, se és tu, manda que eu vá ao teu encontro sobre as águas” (Mt 14, 28). É mais ou menos como o discípulo que, diante de uma situação inesperada, em vez de dar o primeiro passo e confiar que Jesus está consigo naquele momento e lhe prestará o auxílio necessário, paralisa porque necessita de mais uma confirmação. Mas não necessita de confirmação porque não conhece o Senhor. Necessita de confirmação porque tem medo. E duvida porque tem medo. E quando a confirmação chega a Pedro, quando Jesus diz “vem” (Mt 14, 29), o discípulo desce do barco, mas sentindo o vento, que provavelmente não lhe permite ter completa segurança, fica com medo e começa a afundar (Mt 14, 30). Como conhece o seu Senhor, apesar do medo, clama por salvação (Mt 14, 30). Clama para vencer esse obstáculo que o impede de confiar e, mais, de ser como o Senhor.

A narrativa sugere que Jesus coloca seus discípulos em situações que geram medo. Ele não o faz despropositadamente, mas com uma intenção: curá-los do medo. Por que é importante curar os discípulos do medo? Porque, do contrário, eles ficam paralisados diante da própria vontade ou dos seus medos e isso impossibilita a missão e o serviço pastoral a ser realizado em nome do seu Senhor. 

Para vencer o medo e os demais hábitos e disposições que nos impedem de uma conformação plena a Jesus, um bom exercício diário é recomendado por Santo Inácio de Loyola: o exame de consciência. A prática do exame de consciência nos revela quais são os hábitos e disposições que nos impedem de ser, pensar e agir como Jesus. Mas, para além do mero conhecimento dos nossos hábitos e disposições, fundamental é lançar-se ao mar, na confiança de que Jesus ali está e vem a nós de muitos modos para curar-nos, inclusive, por meio dos nossos maiores medos. 

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