O tempo e aquilo que permanece. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Larisa-K | Pixabay

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07 Agosto 2026

"A vida jamais será medida pelos dias que atravessamos, mas pela eternidade que tivemos a coragem de semear em cada um deles. Porque, no fim, viver não é apenas existir no tempo; é deixar que o tempo encontre em nós razões para não passar em vão."

O artigo é de Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e historiador, enviado a o Instituto Humanitas Unisinos - IHU

Eis o artigo. 

Há uma percepção que somente o tempo é capaz de oferecer. Não nasce dos livros, embora a leitura a ilumine; não brota dos títulos, ainda que o conhecimento a fortaleça; tampouco seja fruto da idade, pois existem jovens profundamente maduros e idosos que jamais aprenderam a viver. Essa percepção nasce quando compreendemos que a vida não é uma corrida contra o relógio, mas um encontro permanente com aquilo que realmente merece permanecer.

João Guimarães Rosa escreveu, em uma de suas cartas, que chega um momento em que "o único dever é lutar ferozmente por introduzir, no tempo de cada dia, o máximo de eternidade". Há, nessa frase, uma sabedoria que desafia toda a lógica da sociedade contemporânea.

Vivemos uma época que nos ensinou a contar os dias, mas não a habitá-los. Somos incentivados a produzir mais, consumir mais, aparecer mais e responder mais rapidamente. O relógio tornou-se senhor da existência. A agenda substituiu o silêncio, as notificações ocuparam o lugar da contemplação e a urgência expulsou a profundidade. Nunca tivemos tantos recursos para economizar tempo e, paradoxalmente, nunca estivemos tão pobres dele.

Talvez o maior drama do nosso tempo não seja a falta de horas, mas a incapacidade de preenchê-las com sentido.

A eternidade de que fala Guimarães Rosa não é apenas uma realidade religiosa ou uma promessa futura. Ela começa aqui, quando um instante deixa de ser apenas um instante e passa a carregar um significado que o tempo já não consegue apagar. Há eternidade na conversa em que alguém verdadeiramente escuta. Há eternidade no professor que desperta um horizonte novo em seus alunos. Há eternidade no pai e na mãe que educam sem abrir mão da presença. Há eternidade na amizade que permanece fiel quando tudo convida ao abandono. Há eternidade na oração que reorganiza a alma e devolve ao ser humano a consciência de que ele não vive apenas para produzir, mas para amar.

Talvez seja justamente por isso que Rosa utiliza a palavra "lutar". Introduzir eternidade nos dias exige resistência. É preciso resistir à superficialidade que transforma pessoas em perfis digitais. Resistir ao imediatismo que faz da felicidade um produto de consumo. Resistir à lógica do desempenho, que mede o valor humano apenas pela produtividade. Resistir, sobretudo, à tentação de viver apenas na superfície das coisas.

Há um empobrecimento silencioso acontecendo entre nós. Sabemos cada vez mais sobre acontecimentos e cada vez menos sobre pessoas. Dominamos informações, mas perdemos a capacidade de cultivar sabedoria. Somos especialistas em conexões digitais, enquanto desaprendemos a construir vínculos verdadeiros. Talvez estejamos tão ocupados em registrar a vida que esquecemos de vivê-la.

É por isso que a maturidade não consiste em acumular experiências, mas em selecionar aquilo que merece permanecer conosco. Chega um momento em que já não faz sentido disputar espaços, colecionar aplausos ou buscar reconhecimento permanente. Descobrimos que algumas conversas valem mais do que muitos discursos, que um abraço sincero supera qualquer homenagem pública e que uma consciência tranquila oferece um descanso que nenhum sucesso profissional consegue proporcionar.

No fundo, a grande pergunta da existência não é quanto tempo viveremos, mas o que permanecerá quando o nosso tempo terminar.

As casas envelhecem. Os cargos passam. Os bens mudam de dono. As fotografias desbotam. Até mesmo a memória humana é frágil. Mas existem gestos que desafiam o calendário. O bem realizado continua produzindo frutos muito depois de quem o realizou já ter partido. A palavra que educa continua ecoando na consciência de quem a ouviu. O amor oferecido jamais desaparece completamente, porque encontra morada na história de outras vidas.

Talvez seja exatamente isso que chamamos de eternidade: aquilo que o tempo não consegue vencer.

Por isso, a frase de Guimarães Rosa não é apenas um pensamento bonito. É um programa de vida. Em uma sociedade que nos convida diariamente à dispersão, ela nos recorda que a verdadeira grandeza consiste em transformar cada dia comum em um espaço de permanência. Não porque possamos deter o tempo, mas porque podemos decidir o que colocaremos dentro dele.

No final, não seremos lembrados pela velocidade com que vivemos, mas pela profundidade com que passamos pela vida dos outros. A eternidade não começa quando o tempo termina. Ela começa quando escolhemos viver de modo que o amor, a verdade, a bondade e a esperança sejam maiores do que a passagem dos dias. E talvez seja essa a única vitória que realmente vale a pena conquistar.

A vida jamais será medida pelos dias que atravessamos, mas pela eternidade que tivemos a coragem de semear em cada um deles. Porque, no fim, viver não é apenas existir no tempo; é deixar que o tempo encontre em nós razões para não passar em vão.

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