Uma prisão onde migrantes são despidos e outra com “frio extremo”: as novas adições ao plano de deportação em massa de Trump

Foto: Anadolu Ajansi

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30 Julho 2026

O governo adquiriu dois centros de detenção na Califórnia por US$ 1,5 bilhão, com capacidade para 4.500 pessoas, que têm sido alvo de inúmeras reclamações sobre o tratamento dado aos migrantes.

A reportagem é de Isaías Alvarado, publicada por El País, 30-07-2026. 

Mariana entrou em um escritório de imigração em Fresno, Califórnia, convencida de que ia a uma consulta para dar andamento ao seu processo de legalização. Mas era uma armadilha. Agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) prenderam essa mexicana ali mesmo e, horas depois, a levaram para o centro de detenção de California City, de onde ela diz ter saído com cicatrizes físicas e psicológicas. "Ainda não superei aquele sentimento de medo, porque é isso que é: uma prisão", diz ela entre lágrimas. A pior parte, ela lembra, eram as celas geladas. "É incrivelmente frio, insuportável."

As instalações gélidas em California City fazem parte da estratégia mais recente do governo Trump para garantir que seu plano de deportação em massa não seja prejudicado pelas políticas de cidades-santuário no estado. Seu outro investimento está localizado bem perto da fronteira com o México: o centro de detenção de Otay Mesa, em San Diego. Ambos foram vendidos pela CoreCivic por US$ 1,5 bilhão em uma transação concluída em 2 de julho.

“Ao contrário de estados como a Flórida e Oklahoma, o ICE não pode contar com parceiros locais, sejam eles estaduais ou municipais, para espaço de detenção na Califórnia”, explicou o Departamento de Segurança Interna (DHS) em um comunicado enviado ao EL PAÍS. “Agora, com a propriedade federal desses centros de detenção, que são cruciais para a rede de detenção do ICE na Costa Oeste, a agência mantém a capacidade necessária para prender, deter e deportar imigrantes indocumentados.”

Os funcionários da CoreCivic continuarão operando ambos os centros até o término de seus respectivos contratos: agosto de 2027 para California City e dezembro de 2029 para Otay Mesa. Ambos os contratos incluem uma opção de prorrogação por até cinco anos, informou a empresa em comunicado.

Além desse investimento na Califórnia, o ICE planeja abrir quatro novos centros de detenção em Seattle, Filadélfia, Miami e Denver, com capacidade para abrigar cerca de 5.500 pessoas, de acordo com documentos de licitação citados pela NBC News.

Inspeções sem roupa

O que o Departamento de Segurança Interna (DHS) adquiriu na Califórnia com seu orçamento recorde, que destina US$ 45 bilhões para expandir a capacidade de detenção até 2029, foram dois centros com um histórico de reclamações sobre o tratamento dado aos detentos, considerado por alguns como degradante.

Em Otay Mesa, por exemplo, uma regra controversa, exclusiva entre as instalações do ICE, exige que os detidos sejam submetidos a revistas íntimas após cada visita ilegal que envolva contato físico. A medida é aplicada igualmente a homens e mulheres. "Detentas relataram ter que se despir completamente na frente de agentes, que em alguns casos eram homens, mesmo durante a menstruação", afirma um relatório recente preparado por inspetores estaduais. As entrevistadas disseram que se sentiram "violadas" e descreveram a experiência como "degradante".

As irregularidades em Otay Mesa não param por aí. Um relatório do Departamento de Justiça da Califórnia alerta para o problema da superlotação, agravado pelas intensas operações de imigração no sul da Califórnia desde o verão passado. De acordo com o documento, a superlotação deteriorou as condições de detenção: os poucos banheiros disponíveis são frequentemente imundos, e alguns detidos são forçados a dormir em catres colocados no chão devido à falta de camas. Soma-se a isso as queixas sobre a má qualidade e as porções escassas de comida, que eles tinham que complementar comprando mantimentos na loja do centro de detenção, conhecida como "cantina".

Este centro de detenção foi inaugurado em 2015 e ampliado em 2021. Tem capacidade para 1.970 leitos e, devido à sua proximidade com a fronteira de Tijuana, geralmente recebe migrantes detidos pela Patrulha da Fronteira enquanto tentam cruzar irregularmente para os Estados Unidos naquela região. O contrato entre o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) e a CoreCivic inclui uma cláusula de ocupação mínima que garante à empresa o pagamento por 750 leitos, independentemente de estarem ocupados ou não. Desde a intensificação das operações de imigração, o centro permanece entre os mais superlotados da Califórnia. Em outubro de 2025, abrigava 1.433 detentos. O Departamento de Segurança Interna (DHS) adquiriu essas instalações por US$ 739 milhões.

Maus-tratos

California City era uma prisão estadual antes de ser convertida em um centro de detenção de imigrantes sob custódia do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). A mudança ocorreu por meio de um contrato de US$ 130 milhões. Em agosto de 2025, durante suas duas primeiras semanas de operação, o centro recebeu mais de 500 detentos. Sua capacidade é de até 2.560 pessoas. De acordo com as autoridades da Califórnia, o centro foi aberto às pressas, uma decisão que resultou em deficiências que continuam afetando os detidos. Agora, o Departamento de Segurança Interna (DHS) é o proprietário da instalação, após pagar US$ 732 milhões.

“O centro abriu prematuramente, não estava preparado para receber os detidos e não tinha pessoal suficiente, tanto de custódia quanto médico”, afirma o relatório do Departamento de Justiça da Califórnia. Essa falta de preparo, acrescenta o documento, não só prejudicou as operações, como também impediu visitas presenciais aos migrantes, “o que reduziu sua qualidade de vida”.

Os detentos relataram aos inspetores estaduais que a prisão de California City mantinha práticas da época em que abrigava presos de alto risco. Segundo seus depoimentos, os guardas frequentemente gritavam com eles e os mantinham trancados em suas celas por longos períodos enquanto eram realizadas contagens da população carcerária, uma prática comum em prisões para evitar fugas.

Essas deficiências são agravadas por relatos de detentos que disseram ter enfrentado "temperaturas extremamente baixas e goteiras durante a estação chuvosa", de acordo com o relatório estadual.

Apesar do pouco tempo em funcionamento, o centro já enfrenta dois processos judiciais. Um deles, apresentado em novembro de 2025 em nome de cinco detentos, alega condições insalubres, infraestrutura precária, uso de confinamento solitário, medidas disciplinares excessivas, assistência médica inadequada e restrições às visitas familiares.

“Eles só me deram água”

Mariana permaneceu em California City por um mês, até ser libertada há alguns dias. Ela concordou em falar com o EL PAÍS sob a condição de que sua identidade fosse protegida. Infelizmente, ela lembra que o atendimento médico era praticamente inexistente para as quase 90 mulheres com quem dividia a cela.

Lá, seus problemas gastrointestinais pioraram devido à má nutrição, causando fortes dores de estômago, conta ela. “Procurei um agente para pedir um comprimido. Disse a ele: ‘Não consigo nem respirar’. Ele respondeu: ‘Preencha um formulário e talvez venham te atender em três dias’”. A mulher voltou para sua cela sem receber nenhuma ajuda. Outra migrante lhe deu um analgésico que havia comprado com o próprio dinheiro. “Aquela moça me salvou”, diz ela.

Essa mulher mexicana relembra outros incidentes em que os detidos tiveram que ajudar uns aos outros. Como o dia em que uma mulher perdeu a consciência por um motivo desconhecido. “Nós a reanimamos jogando água nela”, conta. Em outra ocasião, uma imigrante grávida, detida por agentes do ICE no Havaí, começou a sangrar pelo nariz e teve um ataque de pânico. Quando a equipe médica finalmente a atendeu e ela voltou para o dormitório, disse a eles: “Eles só me deram água”.

Após aquele episódio que a deixou curvada de dor, Mariana passou o resto de sua estadia em California City comendo o mínimo possível para evitar adoecer novamente. "Não há nada lá, nada, nada, nem mesmo álcool", diz ela. "Se houver uma emergência, não há nada para ajudar essas mulheres."

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