23 Julho 2026
Os Estados Unidos estão finalizando a aprovação de novas tarifas de importação para substituir as taxas aprovadas após a decisão da Suprema Corte, que expiram esta semana.
A reportagem é de Jesus Servulo Gonzalez, publicada por El País, 23-07-2026.
Em seu momento mais difícil, Donald Trump recorre a tarifas. O presidente dos EUA desempoeirou as taxas de importação em meio ao envolvimento no escândalo Irã-EUA e ao descontentamento público com suas políticas, que atinge o ápice neste segundo mandato na Casa Branca. Em menos de uma semana, ele impôs tarifas de 25% sobre uma ampla gama de produtos importados do Brasil e de até 50% sobre os importados do Canadá. O presidente republicano está finalizando uma nova ofensiva comercial: ele prepara novas tarifas individuais para cerca de 60 países, a fim de se antecipar ao vencimento das tarifas universais, aprovadas após a decisão da Suprema Corte, que expiram nesta sexta-feira.
“Os poderes específicos que esta administração utiliza mudaram, mas a estratégia comercial permanece a mesma”, explicou o Secretário de Comércio, Jaimeson Greer, durante uma audiência no Congresso na quinta-feira. “Estamos comprometidos em continuar a usar tarifas e a negociar acordos para apoiar a reindustrialização da nossa economia, proteger os trabalhadores americanos, aumentar seus salários e reduzir nosso déficit comercial”, afirmou. Um dia antes, durante uma entrevista na televisão, ele havia antecipado: “Esperamos que medidas sejam tomadas em breve”.
O líder americano está, portanto, reacendendo a guerra comercial que desencadeou no início de seu mandato. Em 2 de abril de 2025, dia que denominou Dia da Libertação, ele impôs tarifas indiscriminadas ao mundo inteiro. Mas menos de um ano depois, no início de janeiro, a Suprema Corte dos EUA declarou essas tarifas inconstitucionais. Concluiu que Trump havia extrapolado seus limites ao se basear na Lei de Poderes Econômicos Internacionais (IEEPA), uma lei de 1977 aprovada para outros fins, e derrubou a barreira tarifária erguida pelo republicano.
Poucos dias depois, furioso com a decisão da Suprema Corte, o ocupante da Casa Branca aprovou uma nova rodada de tarifas para tentar atenuar o impacto. Ele invocou o Capítulo 122 da Lei de Comércio de 1974 para estabelecer uma tarifa universal de 10%, uma taxa média inferior à de sua primeira tentativa fracassada. Este artigo permite ao presidente impor tarifas temporárias quando houver "problemas fundamentais na balança de pagamentos que exijam a restrição das importações", mas tem uma limitação: deve ser aprovado pelo Congresso em até 150 dias, prazo que expira nesta sexta-feira.
A polarização política que assola os Estados Unidos tornou impossível para o ocupante da Casa Branca obter a aprovação do Congresso. Além disso, a apenas quatro meses das eleições de meio de mandato, representantes e senadores estão relutantes em aprovar novos impostos que possam prejudicar seus eleitores.
Não só isso, mas as empresas americanas já afetadas pela primeira rodada de tarifas recorreram aos tribunais nesta segunda tentativa. Em maio passado, o Tribunal Comercial dos EUA decidiu contra a tarifa universal de 10%, mas um tribunal de apelações permitiu que ela permanecesse em vigor enquanto o recurso da Casa Branca era analisado.
Entretanto, o Departamento de Comércio abriu uma nova via para estabelecer uma nova estrutura tarifária com base no Capítulo 301 da Lei de Comércio, que permite a imposição de tarifas a países que adotam práticas comerciais “desleais, injustificáveis ou discriminatórias”. Essa via servirá de base para as novas tarifas que Trump deverá aprovar nos próximos dias. Essa solução, contudo, exige que tais situações sejam comprovadas por meio de uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Além disso, demanda um longo processo de audiências e argumentações.
Para iniciar esse processo, o Secretário de Comércio Jamieson Greer abriu investigações em junho contra 60 países, incluindo China, México, Reino Unido, membros da UE, Índia e Japão, acusando-os de não tomarem medidas suficientes para controlar as importações produzidas com trabalho forçado. Simultaneamente, Greer iniciou uma investigação para apurar se 16 parceiros comerciais, incluindo países da UE e a China, estão produzindo em excesso, uma prática prejudicial que reduz os preços globais e prejudica os produtores dos EUA.
Em junho passado, Greer revelou que imporia tarifas entre 10% e 12,5% aos 60 países sob investigação por violações das leis de trabalho forçado. Quanto ao caso da superprodução, o escritório de comércio ainda está conduzindo sua investigação.
Com essas duas medidas, a Casa Branca espera restabelecer a barreira tarifária.
Washington assinou diversos acordos com seus parceiros comerciais, refinando os termos das tarifas e estabelecendo várias isenções, mas a nova estrutura que está sendo preparada por Trump pode reabrir esses acordos, tornando-os inúteis.
Mas há mais. O governo Trump está trabalhando em outras maneiras de dar ao presidente o poder de impor tarifas mais altas. Uma delas é a brecha explorada na segunda-feira para impor tarifas de até 50% sobre materiais automotivos, laticínios e bebidas alcoólicas do Canadá. O governo dos EUA invocou um artigo até então não utilizado: a Seção 338 da Lei Tarifária Smoot-Hawley de 1930, que agravou a Grande Depressão, para estabelecer a taxa máxima de 50% contra seu vizinho do norte.
Vários assessores de Trump tentaram convencê-lo a manter a estabilidade comercial, não reabrir a guerra tarifária e respeitar os acordos comerciais assinados com seus parceiros após o Dia da Libertação, informou o Financial Times esta semana.
O ocupante da Casa Branca poderia usar a Seção 338 para impor tarifas mais altas aos países europeus que aprovarem o imposto sobre serviços digitais, o que afeta particularmente as gigantes de tecnologia americanas. Trump já ameaçou impor tarifas de até 100% aos estados que aprovarem esse imposto.
“Ainda há bastante tempo para Trump revogar ou modificar as tarifas sobre o Canadá, ou mudar de ideia completamente, como já vimos no passado”, explica Anjali V. Bhatt, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional (PIIE). “Mas anunciar tarifas de 50% sobre um dos parceiros comerciais mais próximos dos Estados Unidos, mesmo que não entrem em vigor, é uma escalada séria. Isso também exemplifica como o governo Trump está explorando todas as vias possíveis para restabelecer sua barreira tarifária, que foi derrubada pela Suprema Corte no início deste ano”, argumenta ela.
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