O destino de uma obra filosófica nem sempre se decide quando ela é publicada. Há livros que inauguram um pensamento e outros que, surgindo décadas depois, obrigam a reler tudo aquilo que parecia definitivamente compreendido. A publicação de As confissões da carne, em 2018, mais de trinta anos após a morte de Michel Foucault, pertence a essa segunda categoria. Longe de representar apenas o encerramento editorial da História da Sexualidade, o volume reabre questões fundamentais sobre a própria unidade do percurso foucaultiano. Ao lado dos cursos do Collège de France, dos manuscritos e dos inéditos que vêm sendo publicados nas últimas décadas, esse texto revela um filósofo ainda em movimento, cuja reflexão sobre o poder, a sexualidade e a subjetividade adquire novos contornos à medida que seu arquivo se torna acessível. O que emerge dessa abertura não é um "novo Foucault", mas a possibilidade de compreender com maior precisão a lenta elaboração de um dos problemas centrais de sua filosofia: de que modo os seres humanos são historicamente levados a produzir a verdade sobre si mesmos.
Essa questão desloca significativamente o modo como a obra foucaultiana costuma ser recebida. Se durante muito tempo ela foi identificada sobretudo pela crítica às instituições disciplinares, aos dispositivos de poder e à biopolítica, As confissões da carne evidencia outra dimensão igualmente decisiva: a genealogia das práticas pelas quais o sujeito aprende a voltar-se para si, examinar seus desejos, interpretar seus pensamentos e fazer deles objeto de um discurso verdadeiro. A experiência cristã da carne, especialmente a partir das formulações de Santo Agostinho, deixa de aparecer como um capítulo restrito da história da religião para tornar-se um momento decisivo na constituição da subjetividade ocidental. É justamente esse deslocamento interpretativo — fortalecido pela leitura dos inéditos de Foucault e pela reconstrução histórico-filológica de seu percurso intelectual — que orienta a conferência do filósofo Ernani Pinheiro Chaves, convidado do Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos – pensar o presente, redefinir a política, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos.
A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do IHU.
Há livros que chegam para concluir uma obra. Outros, porém, alteram retrospectivamente a maneira como ela inteira deve ser lida. Publicado em 2018, As confissões da carne, quarto volume da História da Sexualidade, pertence decididamente a essa segunda categoria. Mais do que um desfecho editorial, sua aparição reabre questões decisivas sobre o percurso intelectual de Michel Foucault e desloca o centro de gravidade de suas investigações sobre poder, verdade e subjetividade. Se a genealogia foucaultiana sempre procurou mostrar que o sujeito não é uma origem, mas um efeito histórico, o último volume revela um dos laboratórios privilegiados dessa fabricação: a experiência cristã da carne e as técnicas pelas quais o indivíduo aprende a dizer a verdade sobre si mesmo.
É precisamente nesse horizonte que se insere a conferência do professor Ernani Pinheiro Chaves (UFPA), um dos principais estudiosos brasileiros da obra foucaultiana e que coordena o projeto de pesquisa intitulado Genealogia do sujeito do desejo: a psicanálise nos inéditos de Foucault (1964-1969) e que já gerou a publicação "Foucault e a psicanálise: outras perspectivas a partir dos 'inéditos'" (Revista Ide, São Paulo, v. 1, p. 185-190, 2025). Sua investigação acadêmica tem contribuído para demonstrar que os textos póstumos e os inéditos de Foucault não representam apenas um acréscimo documental, mas exigem uma revisão da própria arquitetura de seu pensamento. A publicação de cursos, manuscritos e anotações das décadas de 1960 e 1970 tornou possível reconstruir a longa elaboração conceitual que desembocaria na História da Sexualidade, revelando problemas, interlocuções e deslocamentos antes invisíveis.
Ao tomar As confissões da carne como eixo de reflexão, Ernani Chaves recoloca em primeiro plano uma questão decisiva: como se constitui historicamente o sujeito do desejo? Em seu projeto "Michel Foucault e a genealogia do sujeito do desejo", a análise parte da passagem entre o "sujeito de desejo", cuja configuração se consolida nos primeiros séculos do cristianismo — especialmente em Santo Agostinho —, e o "sujeito do desejo" tematizado pela tradição psicanalítica de Freud e Lacan. Trata-se de investigar menos uma continuidade linear do que uma transformação histórica das formas pelas quais o desejo se torna objeto de conhecimento, confissão, interpretação e governo.
Essa perspectiva amplia significativamente a compreensão do lugar da psicanálise na obra foucaultiana. Em vez de restringir-se às críticas formuladas em A vontade de saber, Ernani Chaves retorna aos cursos inéditos ministrados por Foucault em Clermont-Ferrand (1964) e em Vincennes (1969), anteriores à publicação da História da Sexualidade. Neles, o confronto com Freud, Reich, Marcuse e o ambiente intelectual do freudo-marxismo revela um momento de intensa elaboração teórica, no qual já aparecem temas que atravessarão toda a produção posterior: a transgressão, a crítica da hipótese repressiva e as relações entre sexualidade, política e formas de subjetivação.
Ao privilegiar esses materiais recentemente incorporados ao corpus foucaultiano, a pesquisa desenvolvida pelo professor da Universidade Federal do Pará – UFPA assume uma orientação simultaneamente histórica e filológica. O exame dos textos em francês, das fontes efetivamente mobilizadas por Foucault e, futuramente, de suas anotações preservadas na Biblioteca Nacional da França permite acompanhar o processo de formação dos conceitos antes de sua cristalização editorial. A genealogia, nesse sentido, não constitui apenas um método de investigação do passado; ela também exige reconstruir a própria gênese do pensamento de Foucault, acompanhando seus deslocamentos, hesitações e reformulações.
A conferência integra o Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos – pensar o presente, redefinir a política, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos, e oferece aos participantes uma oportunidade singular para compreender como a abertura dos arquivos foucaultianos vem transformando a recepção contemporânea de sua filosofia. Mais do que apresentar documentos inéditos, esses materiais recolocam em circulação uma pergunta que atravessa toda a obra de Foucault: de que maneira nos tornamos sujeitos da verdade que pronunciamos sobre nós mesmos? Em torno dessa questão, a carne deixa de ser apenas uma categoria da tradição cristã para revelar-se um dos lugares privilegiados onde se entrelaçam desejo, poder e produção da subjetividade — um problema cuja atualidade permanece longe de se esgotar.
A leitura que Foucault realiza de Santo Agostinho não pretende identificar na patrística uma origem atemporal da interioridade moderna, mas compreender um momento decisivo em que a experiência cristã reorganiza as relações entre vontade, desejo e verdade. Em As confissões da carne, Agostinho ocupa um lugar privilegiado porque nele o desejo deixa de ser apenas um conjunto de atos exteriores suscetíveis de disciplina e passa a constituir uma dimensão íntima da existência, cuja inteligibilidade exige um trabalho permanente de exame de si. É nesse deslocamento que Foucault identifica uma transformação histórica decisiva: a verdade do sujeito deixa de residir exclusivamente em suas ações para ser buscada também nos movimentos mais discretos da vontade e da concupiscência.
Essa análise permite compreender por que a prática da confissão ultrapassa, em Foucault, o significado estritamente sacramental. Mais do que um rito religioso, ela constitui uma tecnologia de produção da verdade pela qual o indivíduo aprende a interpretar seus próprios pensamentos, desejos e tentações sob a exigência de verbalizá-los diante de uma instância autorizada. O sujeito não simplesmente revela uma verdade preexistente sobre si; ele é progressivamente constituído por esse exercício de interpretação e enunciação. É justamente essa articulação entre dizer a verdade, obedecer e conhecer-se que faz das práticas cristãs um momento decisivo para a genealogia da subjetividade ocidental.
Sob essa perspectiva, a aproximação entre Agostinho e a psicanálise, proposta por Ernani Chaves, não visa estabelecer uma filiação direta entre ambos, mas investigar as condições históricas que tornam possível pensar o desejo como um domínio privilegiado da verdade do sujeito. Ao reconstruir a passagem do "sujeito de desejo" ao "sujeito do desejo", sua pesquisa acompanha uma das hipóteses mais fecundas sugeridas pelos escritos tardios e inéditos de Foucault: a de que diferentes regimes históricos de verdade podem atribuir ao desejo funções distintas, preservando, entretanto, a centralidade da interpretação da vida interior como elemento constitutivo da subjetividade. Trata-se, portanto, de acompanhar uma genealogia das formas de constituição do sujeito, e não de afirmar continuidades doutrinárias entre o cristianismo e a psicanálise.
É precisamente nesse ponto que os inéditos de Foucault adquirem importância singular. Eles permitem observar que o interesse pela sexualidade jamais esteve restrito à denúncia dos dispositivos repressivos, mas envolveu desde cedo uma investigação muito mais ampla sobre os modos pelos quais os indivíduos são levados a constituir-se como sujeitos de verdade. A publicação de As confissões da carne e a redescoberta dos cursos da década de 1960 revelam uma continuidade metodológica frequentemente obscurecida pela recepção de A vontade de saber: a genealogia da sexualidade é inseparável da genealogia das formas de subjetivação. Com isso, o legado foucaultiano deixa de ser apenas uma crítica das instituições e dos poderes para tornar-se também uma investigação das práticas históricas pelas quais os seres humanos aprendem a relacionar-se consigo mesmos por meio do desejo, da verdade e da palavra.
Docente na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará - UFPA, onde é professor permanente do PPG em Filosofia, do PPG em Antropologia e colaborador no PPG em Psicologia, Ernani Pinheiro Chaves realizou estágio de pós-doutorado na Universidade Técnica de Berlim e na Bauhaus-Universität, de Weimar, na Alemanha. Foi pesquisador visitante na Universidade Técnica de Berlim. Autor de No limiar do moderno: estudos sobre Friedrich Nietzsche e Walter Benjamin (Umarizal: Paka-Tatu, 2003) e Michel Foucault e a verdade cínica (Campinas: Editora Phi, 2016), escreveu dezenas de artigos e capítulos de livros.
Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos. Pensar o presente, redefinir a política
15/07 | 10h às 11h30min | quarta-feira
"As confissões da carne" e os inéditos de Foucault
Ministrante: Prof. Dr. Ernani Pinheiro Chaves – UFPA
🎥 Transmissão ao vivo:
Não é necessária inscrição para assistir à palestra. Será fornecido certificado a quem matricular-se em cada conferência e, no dia do evento, preencher o formulário de presença disponibilizado somente durante a transmissão.
📌 O aluno poderá matricular-se apenas nas conferências que desejar assistir. O certificado informará a carga horária total cursada e estará disponível no Portal Minha Unisinos a partir de 20 dias após o término do Ciclo de Estudos (todas as conferências).
📌 O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento.
