07 Julho 2026
Descumprimento das determinações sujeitará o Estado ao pagamento de multa diária de R$ 10 mil; o herbicida ameaça a fruticultura gaúcha, como da uva e maçã.
A informação é de Niara Aureliano, publicada por ExtraClasse, 03-07-2026.
Decisão da Vara Regional do Meio Ambiente impôs a proibição do uso do herbicida hormonal 2,4D, na região da Campanha, no Rio Grande do Sul. A sentença da 4ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do RS também estabeleceu uma zona de exclusão de 50 metros em relação a pomares e vinhedos de todo estado.
A ação contra o governo do estado foi movida por associações de produtores de vinhos e maçãs que tiveram plantações destruídas pela deriva do herbicida, que é um desvio do produto aplicado para alvos indesejados, como outras lavouras, durante a pulverização ou por condições meteorológicas, como o vento. A ação tramita desde 2020.
A decisão dos desembargadores confirmou em 17 de junho o entendimento da juíza de primeira instância Patrícia Antunes Laydner, que é titular da Vara do Meio Ambiente. Em setembro de 2025, ela determinou a suspensão temporária do uso do herbicida hormonal 2,4-D, no entanto, a decisão só teria efeitos após o julgamento de recursos. O desembargador Francesco Conti liberou, ainda em setembro, o uso do herbicida até que o mérito da ação fosse analisado.
Determinação da Justiça
O Estado do Rio Grande do Sul sustentou, entre outros argumentos, que a competência para proibir ou liberar o uso do 2,4-D é federal, cabendo ao Estado apenas fiscalizar. Também destacou ações já realizadas, como o programa “Deriva Zero”, e alertou para possíveis prejuízos econômicos à produção agrícola estadual. Nos últimos anos, municípios da região registraram perdas milionárias em razão do uso intensivo do agrotóxico.
A sentença determinou que o Estado apresente e coloque em prática sistema de monitoramento e fiscalização, além de delimitar as zonas de exclusão, no prazo de 120 dias. O descumprimento das determinações sujeitará o Estado ao pagamento de multa diária de R$ 10 mil, revertida ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL).
A Justiça deu parcial provimento ao apelo do Estado no que diz respeito à delimitação com precisão geográfica de área da Indicação de Procedência da Campanha Gaúcha.
Saúde
O herbicida hormonal 2,4-D é utilizado em lavouras de soja, arroz, milho e trigo no RS. Ele é classificado como possivelmente cancerígeno, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Documento da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), de 2016, solicita à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a proibição do uso do agrotóxico no país.
Análises da água tratada e distribuída entre 2018 e 2023 em municípios de Santa Catarina, a pedido do Ministério Público do estado, encontrou em 155 municípios dos 295 pelo menos um ingrediente ativo de agrotóxicos, sendo o herbicida 2,4-D a substância de maior incidência. A substância foi identificada em 81 municípios.
De acordo com a bula do fabricante, o 2,4-D é um agrotóxico perigoso ao meio ambiente (classe III) e um produto altamente móvel, apresentando potencial de deslocamento no solo e podendo atingir principalmente águas subterrâneas.
No ser humano, os efeitos associados à exposição ao herbicida incluem câncer de estômago, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, esclerose lateral amiotrófica e infertilidade.
Delimitação
Em setembro de 2025, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (Alrs) aprovou o relatório final da Subcomissão dos Herbicidas Hormonais, vinculada à Comissão de Agricultura. O documento recomenda ações como delimitação de áreas de amortecimento, adoção de vazio sanitário para herbicidas hormonais, criação de um comitê de monitoramento da deriva e implantação de um sistema estadual de alertas sobre condições climáticas de risco.
À época, o deputado estadual Adão Pretto Filho (PT), vice-presidente da subcomissão, afirmou ao Extra Classe que a decisão reforçava a urgência de mudanças no modelo produtivo gaúcho, tendo em vista o desenvolvimento de uma transição ecológica capaz de conciliar produção de grãos com preservação da fruticultura e de outros cultivos estratégicos.
“Não podemos ser reféns da monocultura. A diversidade e a qualidade do que se planta estão diretamente ligadas à alimentação da população e à sobrevivência da agricultura familiar. Precisamos avançar em direção a uma agricultura sustentável”.
Leia mais
- Justiça proíbe uso do agrotóxico 2,4-D na Campanha gaúcha
- Uma em cada três pessoas está exposta a agrotóxico potencialmente prejudicial
- 2,4-D: o herbicida que tem feito agricultores desistirem de produzir uvas
- Agrotóxico da soja leva prejuízos às plantações de uva no RS
- Produtores prejudicados defendem proibição do agrotóxico 2,4-D: ‘Mata a diversidade do RS’
- Governo lança Plano Safra com foco em transição agroecológica e quer limitar agrotóxicos
- Sufocado por agrotóxicos perigosos, Brasil tem de avançar na transição agroecológica
- Agrotóxicos no Brasil: uma tragédia. Entrevista especial com Yumie Murakami
- Afinal, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxico do mundo?
- Brasil é 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos na Europa, que importa alimentos produzidos com estes químicos
- Agrotóxicos proibidos na Europa são campeões de vendas no Brasil
- 30% dos agrotóxicos liberados no Brasil foram banidos da Europa
- Lançado na Europa mapa do envenenamento de alimentos por agrotóxicos no Brasil
- Brasil fiscaliza agrotóxico só em 13 alimentos, enquanto EUA e Europa analisam 300
- Alimentos orgânicos e agroecológicos ganham só 0,02% dos créditos da agricultura familiar
- A agroecologia pode alimentar o mundo, mas falta investimento
- Agroecologia: Os modos de ser, de produzir e de lutar. Artigo de Denise de Sordi
- Escola do MST lança material inédito de apoio à Educação Popular em Agroecologia
- Reforma agrária, agroecologia e desmatamento zero: MST lança carta ao povo brasileiro
- Plano Safra: Lula entre a reforma agrária e o “agro”
- Agricultura familiar, via para superar a policrise?
- Redes de agroecologia como uma alternativa à agricultura industrial. Entrevista especial com Paulo Petersen