14º Domingo do Tempo Comum – Ano A – A sabedoria do amor que liberta e humaniza o mundo

01 Julho 2026

“Descansar é se libertar do Jugo, é desenvolver a capacidade de dispor de si mesmo para construir comunhão e participação que vão se plasmar na nossa realidade, nas relações mais fundantes que podemos ter: nossa relação com Deus, com sua criação e com os nossos irmãos. Percebemos assim a nossa realidade primeira: de que somos irmãos, todos filhos amados do Pai.”

A reflexão é de Lucíola Cruz Paiva Tisi, teóloga leiga, bacharel em teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio (2017) e mestranda em Teologia sistemática também pela PUC-Rio. Atua junto à Congregação dos Agostinianos da Assunção como leiga e na paróquia agostiniana da Santíssima Trindade no Rio/RJ, no catecumenato de adultos e como ministra extraordinária da eucaristia. Também integra um grupo de reflexão e estudos de leigos do qual faz parte.

Leituras do dia

1ª leitura: Zc 9,9-10
Salmo responsorial: Sl 144(145),1-2.8-9.10-11.13cd-14 (R. 1b)
2ª leitura: Rm 8,9.11-13
Evangelho: Mt 11,25-30

Eis a reflexão.

A primeira leitura (Zc 9,9-10) nos é apresentado um enviado de Deus que vem ao encontro dos homens na pobreza, na humildade, na simplicidade. O profeta nos convida ao louvor a Deus, a exultar de alegria pois o justo e salvador, vem ao nosso encontro. O profeta Zacarias se refere à figura do Messias, apresentado como rei, como pastor e como servo do Senhor e anuncia a intervenção definitiva de Deus em favor do seu Povo.

Na segunda leitura (Rm 8,9.11-13), Paulo expõe, de forma serena, a sua reflexão sobre a salvação. Na perspectiva de Paulo, a salvação é um dom não merecido que Deus oferece a todos por pura bondade. Salvação chega a nós por Jesus Cristo, atuando em nós pelo Espírito. O Espírito se apresenta como o elemento fundamental . Paulo explicita a forma com que se deve viver, viver “segundo a carne” é, na perspectiva de Paulo, viver em oposição a Deus, fechado para Deus em uma vida de egoísmo e de autossuficiência que leva a prescindir dos mandamentos, das propostas e dos valores de Deus. Já, “viver segundo o Espírito”, é viver em relação com Deus, escutando as suas proposições, em obediência aos seus projetos e na doação da própria vida em serviço aos demais.

No evangelho (Mt 11,25-30) desse Domingo Jesus louva ao Pai Senhor do Céu e da Terra e de todas as suas criaturas. Jesus vem chamar a atenção à verdadeira sabedoria, a sabedoria do amor que exige a abertura de coração para a novidade, para o inesperado, para as possibilidades oferecidas no cotidiano da vida, que favorecem as relações e ao verdadeiro conhecimento gerado pela amizade sincera. Porque a sabedoria do mundo é construída pelos seres humanos e pode ser adquirida através da dedicação a sua própria ciência. Portanto será sempre limitada e questionada.

Jesus ressalva que comunicação aberta e atenta com a pessoa é sempre mais simples e eficaz. Se comunicava bem com os simples e fragilizados. O olhar simples é de modo geral mais limpo, porque não deixa o coração se desviar em distrações e interesses e vai diretamente ao essencial. Quem vive a opressão e o sofrimento entende, portanto, com mais clareza a mensagem de esperança que traz o Evangelho. Percebem com clareza a esperança e o amor.

A Torah e as tradições deixaram os escribas e fariseus obcecados pelos ensinamentos do passado e fechados para o novo. A novidade ameaça a quem se fia no conhecimento engessado pois ameaça sua noção de autoridade e poder. Eles não querem ver suas convicções questionadas, assim colocam sempre em dúvida a novidade trazida por Jesus. Rebatem com veemência pois acreditavam ter o poder da autoridade que gera a arrogância e o sentimento de superioridade. Afinal eram doutos e Jesus um homem simples, filho de um carpinteiro de Nazaré na Galileia. Essa ironia pode ser percebida no relato do nascimento de Jesus. O sinal da estrela é percebido pelos pastores e estrangeiros sendo completamente ignorado pelos sábios do templo e os asseclas de Herodes: os entendidos.

Para os supostos sábios Deus pode se tornar inútil pois já observam seus preceitos fazendo tudo como se deve fazer. Outros estabelecem com Ele, pelo mesmo motivo, uma relação de igualdade pois se consideram santos já que obedecem e seguem todas as regras, mas não há entrega, não há gratidão, não se reconhece a graça operante do Deus da vida. Se consideram merecedores do que lhes é dado e se esquecem de que tudo é graça.

Vivemos sujeitos ao frenesi do mundo, ao ritmo duro de trabalho e esquecemos de como é necessário parar, se libertar das tensões e do cansaço. É preciso parar e entregar a Deus nossos problemas, e aflições com confiança e fé na consciência de que sua providência nos basta.

Experimentar a felicidade tem pouco a ver com a riqueza e os prazeres frívolos. Precisamos ter sempre em mente que o sentido último da vida se revela a nós com mais claridade nas relações de amizade compartilhada e na convivência fraterna. Precisamos redescobrir a natureza, contemplar a vida que brota à nossa volta e deter-nos diante das coisas simples.

Descansar é se libertar do Jugo, é desenvolver a capacidade de dispor de si mesmo para construir comunhão e participação que vão se plasmar na nossa realidade, nas relações mais fundantes que podemos ter: nossa relação com Deus, com sua criação e com os nossos irmãos. Percebemos assim a nossa realidade primeira: de que somos irmãos, todos filhos amados do Pai.

O ser humano precisa realizar-se em sua dignidade inicial agindo no mundo e em acordo com sua realidade material através do trabalho e da sabedoria, procurando humanizar o mundo em acordo com os desígnios do Criador. Para tal é preciso a abertura de coração, para não se enclausurar nos valores mundanos e nos bens materiais. Como ser espiritual que somos, nossa realização se desenvolve pelo amor fraterno, compreendido em toda a sua amplitude pelo Evangelho, na dinâmica do amor serviço e da promoção humana de modo especial com os mais necessitados.

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